Nem os gémeos verdadeiros têm de vestir a mesma camisola. Hoje só um destes comemora
Nasceram com cinco minutos de intervalo, de sete meses. A mãe, que não sabia que eram gémeos, foi surpreendida com a frase "tem cá outro dentro", depois de o primeiro nascer. Estávamos em 1975. Nasceram e cresceram juntos. Aos sete anos tiveram a primeira (e única, se excluirmos os respetivos casamentos) separação. Um, começou a vestir a camisola do Benfica, o outro, a do Sporting.
Ricardo e Pedro Ferreira Bação, de 41 anos, são gémeos verdadeiros. "A nossa grande diferença é que eu sou do Benfica e o meu irmão é do Sporting", explica Ricardo. Além das indiscutíveis semelhanças físicas, só abaladas por um ter a risca do cabelo para o lado direito (Ricardo) e o outro para o esquerdo (Pedro), as semelhanças nos valores, gostos e forma de estar na vida são iguais. À pergunta o que vos separa além do clube de futebol? Respondem ambos e em coro: "Nada!"
Ricardo e Pedro Bação, hoje casados e pais de, respetivamente, duas e quatro crianças, sempre andaram juntos.
Cresceram juntos, dividiram o mesmo quarto, fizeram a primária e o liceu sempre na mesma turma, escolheram a mesma área de estudos, licenciaram-se ambos e ao mesmo tempo, em Economia na Universidade Nova de Lisboa, entraram os dois na Sonae, abriram os dois a empresa ‘Gourmet Portugal’, sempre tiveram os mesmos amigos, saíram à noite juntos, sempre partilharam tudo em comum. Entre irmãos.
A QUESTÃO CLUBÍSTICA
Reiterando que "o clube de futebol é, sim, a grande diferença entre ambos", Ricardo explica que acredita que escolheram referências futebolísticas diferentes para, no fundo, terem alguma disputa entre eles. "Conseguimos ser de clubes diferentes mas mantemos o amor e o respeito por essa diferença", conclui. Claro que na hora do dérbi valores mais altos se levantam. Como refere Pedro, "o futebol é irracional. É paixão". Sportinguista ferrenho, Pedro não esconde que, no seu caso, foi para o Sporting por causa do pai. Apesar de a mãe ser do Belenenses, o pai, sportinguista, acabou por influenciá-lo "embora não me tivesse sido imposto, por exemplo, como faço lá em casa aos meus filhos", diz soltando um sorriso e acrescentando que "esta ligação de pais e filhos serem do mesmo clube é um fator de união e de comunhão de vários momentos". E disso não abre mão. Pedro vai ainda mais longe e partilha que, antes de casar com Teresa, falaram de um assunto sério. "Uma das coisas que disse à minha mulher, que é do Benfica, foi que: ‘os meus filhos vão ser do Sporting’".
Questionado se casaria se a noiva recusasse tal proposta e insistisse que os filhos fossem benfiquistas, Pedro ri e diz, em tom de brincadeira: "Eu diria que não casávamos!"
Já Ricardo foi influenciado por um primo mais velho benfiquista e também não nega que tentou orientar o seu primogénito para o clube das águias, "apesar de não ser fácil pela influência grande dos primos".
Menos fanático do que o irmão, Ricardo explica que desde miúdos que, no que toca a desporto, fizeram sempre opções diferentes. "Na Fórmula 1, por exemplo, o Pedro era pelo Ayrton Senna e eu torcia pelo Alain Prost".
Mas nada se compara ao futebol: "Tem muito importância para a sociedade", diz Ricardo, para quem ‘a bola’ é "um momento em que as pessoas saem do quotidiano". Para o gémeo benfiquista, o futebol é uma expressão bonita da sociedade, seja na lógica clubística ou a das seleções. Não escondendo o seu espírito nacionalista, Ricardo, casado com Ana Clara, brasileira, vai mais longe e diz que "fico contente que os nossos filhos [os dele e os do irmão, que ambos veem, também, como ‘dos dois’] gostem de clubes portugueses".
Insistindo no enorme valor sociológico do futebol, Pedro considera que ir a um jogo é um momento próprio para um pai e um filho. "Ir às rulotes e depois ir ver os jogos com os filhos são momentos de enorme partilha", conclui quem até admite ter pena de não poder partilhar tal coisa com o seu gémeo. Já Ricardo nem por isso, pois acha interessante esta disputa: "O facto de não sermos do mesmo clube, apimenta a nossa relação."
Sempre unidos, mesmo antes do nascimento, estes gémeos – que partilham ainda uma irmã um ano e meio mais velha, Ana – têm vivido em comunhão total de vida. Hoje, têm trajetos distintos, até porque casaram e também porque têm projetos profissionais diferentes. Pedro é gestor na Sonae, Ricardo dedicou-se ao mundo da gestão rural e produz framboesas, liderando também o projeto ‘Gourmet Portugal’.
TROCAS DE GÉMEOS
Sempre tiveram episódios caricatos para contar e continuam a tê-los, mesmo que do ponto de vista profissional conheçam agora pessoas diferentes e também – como explica Pedro – por causa das respetivas mulheres acabem por ter círculos de amigos e conhecidos distintos. "As pessoas vêm o Ricardo com uma mulher e pensam: ‘Mas aquele ontem estava com outra!’", conta Pedro. "Isso acontece muito", acrescenta Ricardo. "As pessoas ficam incomodadas porque só sabem da existência de um... e estão hoje comigo e pensam que estiveram também comigo na semana passada e não foi, foi com ele..." Já houve quem, findo o equívoco, confessasse: "o peso que me tiraram de cima... achava que a tua mulher estava a ser enganada." Apesar de até poderem evitar mal entendidos e falsos julgamentos, nem sempre estão para isso: "Há várias pessoas – e sempre existiram – a quem nós nem explicamos."
Com a mesma voz, a mesma estatura e reconhecidas parecenças físicas, os gémeos Bação garantem que nunca namoraram, ao mesmo tempo a mesma pessoa; mas não escondem que já namoraram a mesma com o conhecimento dela. O que nunca fizeram foi passar um exame à conta do outro – "isso é aquele tema dos gémeos".
Além de um sinal nas costas que Pedro diz que é a marca que a mãe usava para os diferenciar em pequenos – nas fotografias de infância só a irmã de ambos agora os distingue –, este gémeo sportinguista que se batizou, antes de casar, ao contrário do irmão, diz que "é uma dádiva de Deus ser gémeo do Ricardo, que é o melhor irmão do Mundo".
Para Ricardo, é igualmente fantástico ter um gémeo, e ter Pedro. "É uma sorte que o nosso melhor amigo, que é igual a nós, não só fisicamente mas também estruturalmente, seja também da nossa família, que seja nosso irmão".
Cumplicidade total e muita amizade, que nem o clube de futebol separa. Hoje um deles será campeão. No entanto, a alegria de um será partilhada, (bem) lá no fundo pelo outro. Afinal são gémeos. De verdade.
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