Escaparam com vida a acidentes de aviação, mas viveram o perigo de perto. O último caso foi há uma semana. Histórias de quem ficou para as contar.
A 125 nem sempre é azul. O perigo que ronda o asfalto também cai do céu a pique, quando a façanha de saudar as nuvens não corre bem. José Horta, 67 anos, começou a pilotar há 15. O sonho da emigração fê-lo voar até aos Estados Unidos. Bilhete de ida com volta para a Praia da Luz. Instalou--se e reservou um hangar para o seu avião no Aeródromo de Lagos. Aí próximo, quase perdeu a vida no último domingo, na aparatosa queda do Yak-52 em plena Estrada Nacional 125.
Uma pá da hélice embateu no asfalto e partiu-se. O Yak-52 ainda sobrevoou um pequeno espelho de água antes de cair a cerca de 300 metros da pista. Passava pouco das quatro e meia da tarde. José Horta é o mais recente sobrevivente de um acidente de aviação. Foi hospitalizado, em Portimão, com traumatismos cervicais e craniano e dois dias depois acabou por ser transferido para o Hospital de São José, em Lisboa, devido à gravidade dos ferimentos na coluna. Ainda é cedo para tirar conclusões sobre os efeitos a prazo do embate no corpo do sexagenário. “Ele está consciente e bem disposto. Reconhece toda a família, mas não se recorda do acidente”, esclarece o filho, Joe. Nem tudo está perdido. Apenas o companheiro de José nas alturas. O Yak-52, de fabrico russo semelhante ao T-6 usado pela Força Aérea Portuguesa na Guerra Colonial, perdeu uma asa e aguarda no escuro do hangar.
PARA OUTROS ALVOS
Para outros alvos de fatalidades semelhantes a resposta é afirmativa. “Homem dos acidentes”. A boa disposição de Emanuel Torres não perde gás com episódios rocambolescos. Debulha todas as datas que lhe podiam ter ceifado a vida, mas o número de dedos não acode. Acidentes de carro, em furgonetas, tractores. Veneno conduzido ao engano à goela no lugar de Coca-Cola. Salvo pelo golo quando num ido jogo entre grandes o seu Benfica fê-lo sair de casa lampeiro para espicaçar um vizinho sportinguista. Ausência providencial. Entretanto trágico que lhe levou o pai ainda menino durante uma explosão doméstica. “Acho que Deus me ajudou...”, confia. No Arco de São Jorge, na Madeira, fica-se por ‘Torres’, quiçá das provas dadas de solidez de rochedo quando o revés se intromete. Ainda hoje, as cordas vocais não tremelicam e a tensão nervosa que aos 17 anos levou a espairecer ao continente na mira de cura perdeu terreno com o passar do tempo. Quis o destino que a viagem de volta a casa saísse dos eixos.
A 19 de Novembro de 1977, Emanuel regressava à Madeira a bordo do Boeing 727 da TAP na companhia da mãe. O avião despenhou-se ao tentar aterrar na então exígua pista do aeroporto de Sta. Catarina, no Funchal. O primeiro e até agora único grande desastre da transportadora aérea nacional deixava as suas sequelas. 131 pessoas dos 164 passageiros perderam a vida. A sorte não sorriu à progenitora. “Vinha com ela de Lisboa para cá e salvei um miúdo. Caímos no mar. Vi que a minha mãe já estava morta e nadei para terra. Fiz respiração boca-a-boca ao Daniel”.
Os anos são já 46. Lembra-se muito do pouco que tão rápido lhe é possível lembrar. Com sangue frio, a coragem ganhou as asas que outros perderam e levantou voo. E estranho seria se as memórias não estivessem entaladas no presente. ‘Torres’ debutava nas viagens pelos ares, a bordo de pássaros robustos em forma de máquina que esfolam os céus com o aparente predicado de intocáveis. “Vinha tudo bem, mas quando aterrámos já aterrámos a meio da pista. Ouço a minha mãe dizer: “Lá vamos todos...” Quando dei por mim já estávamos no mar. Vinha tudo normal, ninguém se apercebeu daquilo...” O embate foi brando para a pele. “Estive um mês no hospital mas não fiquei com marcas, só três vértebras partidas”, desvaloriza.
No Arco de São Jorge, a rotina no campo experimental de vinho continua. E as viagens de avião não estagnaram. “Depois do acidente, todos os anos ia a Lisboa. Tenho viajado sempre, não tenho medo. Tivemos que olhar em frente.”
NÃO É PILOTO DE PRIMEIRA VIAGEM
Não é piloto de primeira viagem. Francisco Vilhena, 36 anos, co-piloto da TAP, continua a defender a sua máxima: “Voar é a segunda forma mais segura de transporte, depois do elevador!” Acabado de chegar de Nova Iorque, com viagem de regresso marcada para hoje, não se cansa da paixão de sempre, apesar dos sustos. “Acho que comecei na barriga da minha mãe. Em miúdo não ligava a futebol, a carros, só aviões”, confessa. Voar como passageiro não lhe chegou. Por isso fez das tripas coração para tirar a dispendiosa licença de voo. Atendeu telefones no 118, pediu auxílio ao Instituto do Emprego.
Em 1999 já deixara para trás o emprego num banco e ingressou na TAP. O ano entrou-lhe a jacto nas recordações e por lá ficou. Ano de acidentes no percurso de voo quando rebocava publicidade ao longo da praia durante o Verão. “Marcou muito a minha vida. No dia 8 de Julho, estava a fazer órbitas em Albufeira à espera de autorização para ir em linha de costa com a manga. Perdi potência no motor... Aproximei-me da água mas o avião afocinhou e fez um looping invertido”. No meio do turbilhão, Francisco esperou que a água fizesse o seu papel e tentou sair, em luta com o cinto de segurança que no meio da aflição não respondia ao instinto. “Pensei: não posso entrar em pânico, senão morro”. Sábia fracção de segundo que lhe valeu a vida, apesar do emaranhado de emoções à tona. “Fica-se sem saber se estamos vivos ou mortos, onde estamos, se nos vai cair um braço...” Não haveria uma sem duas, e três.
Nesse mesmo ano, aterrou de emergência com um Cessna 182 em Vilamoura devido a problemas de aquecimento de motor. A bordo de um 172, deparou-se com um bloqueio dos comandos de fazer contas à vida. “Despedi-me dos controladores e tudo, achando que ia morrer”. O medo continua guardado na gaveta. “Quando se vai para o ar pensa-se sempre em situação de emergência. Mas quantas pessoas têm acidentes de automóvel e não deixam de conduzir? Cada vez tenho mais vontade de voar!”
As viagens aéreas também não afrouxaram para João Soares. “Tornou-se uma quase impossibilidade estatística ter outro acidente. Não me provoca qualquer tipo de temor. Até me sinto mais seguro a voar”, desdramatiza. A 23 de Setembro de 1989, o deputado do PS não chegava ao destino marcado, a Namíbia. O filho do então Presidente da República Mário Soares regressava de um Congresso da UNITA onde participava como convidado ao lado de Rui Gomes da Silva, do PSD, e de Nogueira de Brito, do CDS. O Cessna em que seguiam caiu em plena Jamba angolana. “Tenho uma memória directa de entrar no avião. O piloto convidou-me para ir no lugar do segundo piloto por ter ‘brevet’, mas não me lembro de mais nada.
Apenas de acordar no hospital de Pretória, dois dias depois. O Nogueira de Brito diz que eu ainda reparei num sinal de perda do avião”. Em vão. À velocidade de uma flecha, sem tempo para contemplações, o Cessna embateu numa árvore e despenhou-se em chamas. “Não tenho dúvida de que foi falha do piloto. Entrou em perda e foi um desenrascanço à portuguesa”, comenta. João Soares ficava no fio da navalha. Os acompanhantes, com ferimentos bem mais ligeiros. “Todos pensavam que não ia sobreviver. A minha mãe passou pela minha cama nos cuidados intensivos e não me reconheceu. Devia estar num estado lastimável!”.
Assistido na África do Sul, livrou-se do perigo mas ficaram os desenhos na carne e a duradoura inspiração de cuidados. Transfusões sanguíneas, pé, bacia, fémur, omoplata partidos, fracturas múltiplas no maxilar. Mazelas que não o deixaram baixar os braços nem atirar a toalha ao chão em recta final de campanha autárquica. “Não gosto de entrar na lamechice. Foi um acidente grave, mas fiquei feliz por sobreviver. Agradeço aos médicos”. Transacto o susto da história, perdura a sua moral. “O acidente não alterou a minha forma de estar, mas ajudou-me a distinguir muito melhor e mais rapidamente as coisas essenciais das acessórias”.
MARCAS PARA TODA A VIDA
Marcas para a vida que o tempo não apaga. A cicatriz com vários pontos na testa ficou. Sempre que se levanta de manhã e “mesmo que não queira”, José Soares recorda-se do dia 22 de Agosto de 1999. Os sinais profundos, esses, permanecem imperceptíveis ao olhar mais atento. O dia em que um MD-11 da China Airlines se despenhou ao tentar aterrar no aeroporto de Hong-Kong, com 78 portugueses a bordo, “ainda hoje está bem vivo” na memória de quem viveu horas de horror. Depois de “sete dias maravilhosos na Tailândia”, seguiu-se a viagem com destino a Hong-Kong. “Estava tudo a correr lindamente”. O MD-11 da China Airlines transportava 315 passageiros e 15 tripulantes.
Passados sete anos, com três cirurgias à cabeça pelo meio, o funcionário do Hospital do Sobral Cid, em Coimbra, recorda-se de “tudo o que se passou nesse dia”. Apesar do volume de voz baixar a determinada altura, as palavras saem firmes e com a certeza de que “é uma sorte estar vivo”. Depois de levantar voo, o avião andou normalmente, mas “o grande temporal, com relâmpagos e muitas nuvens, deixou perceber que as condições não eram as melhores”. Agosto corresponde à época de tufões na Ásia. José Soares sabia que o tufão Sam estava na zona. “Uma roda partiu-se, arrancou uma asa e o avião capotou. Ficámos envoltos numa bola de fogo, mas como a pista estava cheia de água a bola andou para trás. O temporal que nos atirou ao chão foi o mesmo que nos salvou. Aconteceu tudo em fracções de segundo”, explica.“Costumamos ver nos filmes e dizer que é exagero, mas quando passamos pelo mesmo é impressionante”.
José Soares, hoje com 49 anos, chegou a temer pela vida. “Quando vi o avião a arder e as pessoas a gritar, pensei que nunca mais conseguia sair dali”. Um pensamento que foi obrigado a repensar quando se apercebeu da presença dos bombeiros. “Nesse momento, tive medo, mas pensei que havia hipótese de me salvar e que a vida não estava totalmente perdida”. No grupo, muitos não voltaram a encarar a hipótese de voltar a andar de avião. José Soares não entra nessas contas, mas continua a “ter medo”.
A meio da tarde de um dia mais quente do Verão de 2003, um avião monomotor aterrou na auto-estrada do Norte, próximo de Leiria. O piloto e único ocupante da aeronave, especialista em acrobacias, não sofreu ferimentos. Dois anos e meio após a aterragem forçada, Carlos Gorjão recorda o momento com um sorriso: “Foi o incidente mais mediático que tive, mas em trinta e tal anos como piloto, vivi outras situações complicadas. Temos de estar preparados para estas situações e eu tive a sorte de saber resolver o problema”. O monomotor “Mooney 17” descolara de Coimbra com destino a Évora. À passagem por Leiria, um problema de sobreaquecimento no motor provocou perda de potência e de altitude. As pistas mais próximas – aeródromos de Leiria e Fátima e Base Aérea de Monte Real – ficavam demasiado distantes, por isso o piloto foi forçado a aterrar na A1. Os automobilistas aperceberam-se que o avião estava com problemas, por voar devagar e a baixa altitude, e deixaram-se ficar para trás. O monomotor acabou por aterrar atrás de um camião. “Se o condutor travasse batia-lhe”, disse na altura Carlos Gorjão. Hoje, o “Mooney 17” está parado. Não por receio. O piloto prefere voar num avião de desporto e acrobático.
ELENCO DOS CASOS EM 2006
ACIDENTES E INCIDENTES DA AVIAÇÃO EM PORTUGAL
O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves faz o balanço dos casos referentes ao trabalho e transporte aéreos e aviação geral.
- 161 ocorrências, de Janeiro de 2001 a 31 de Dezembro de 2005
- 96 acidentes
- 65 incidentes graves
- 42% na fase de aterragem
- 37 mortos e 26 feridos
PROCESSOS EM INVESTIGAÇÃO:
- 23 acidentes e 23 incidentes graves em 2001
- 20 acidentes e 12 incidentes graves em 2002
- 19 acidentes e 16 incidentes graves em 2003
- 17 acidentes e 19 incidentes graves em 2004
- 17 acidentes e 13 incidentes graves em 2005
- 29 de Outubro: acidente com a avioneta pilotada por José Horta, EN125, Lagos
- 20 de Agosto: acidente com ultraleve, a Sul da Boca do Inferno, Cascais
- 15 de Julho: incidente com o McDonnell Douglas MD87, Perafita, Matosinhos
- 6 de Julho: incidente com o Bariev BE-200, barragem da Aguieira
- 28 de Maio: incidente com o Boeing Stearman A75N1, Aeródromo de Seia
- 1 de Maio: acidente com ultraleve, Foros do Mocho, Ponte de Sor
- 27 de Março: incidente com o ULM ESQUAL VM1P, Castro Verde
- 4 de Fevereiro: acidente com o ULM BRM Land África Impala, Aeródromo de Viseu
- 11 de Janeiro: acidente com o Cessna F150M, Biscaia, Sintra
CONTRA A AEROFOBIA, VOAR, VOAR
GANHAR ASAS PARA VENCER O MEDO
Quem tem medo de andar de avião? Se erguer o dedo, sofre de aerofobia, dificuldade que a TAP ajuda a debelar. À semelhança de outras companhias de aviação, a transportadora lusa disponibiliza desde Maio, em parceria com os Cuidados Integrados de Saúde, o programa Ganhar Asas. Durante dois dias, uma equipa de dois psicólogos, um piloto e um assistente de bordo ajudam um grupo de 10 a 15 pessoas. “Dirige-se especificamente às pessoas que têm uma fobia simples ou específica. Na sua maioria nunca viveram problemas com aviões, não têm episódios traumáticos, daí que seja fóbico, um medo irracional”, explica Cristina Albuquerque, coordenadora do programa. “Funciona para pessoas que nunca andaram de avião, pessoas que já viajaram mas deixaram de o fazer, e pessoas que viajam mas com um enorme sofrimento, recorrendo a álcool ou barbitúricos”. O programa aposta na formação técnica, na explicação dos mecanismos psicológicos associados à fobia e no autocontrolo da ansiedade, através de técnicas respiratórias, de distracção e descontracção muscular. Termina com uma visita ao simulador de voo da TAP e um voo Lisboa/Madrid/Lisboa.
AMÉRICO BAPTISTA, PSICÓLOGO CLÍNICO
“EFEITOS SÃO SEMELHANTES AOS DO STRESS DE GUERRA”
Cada caso é um caso, mas há denominadores comuns a quem sobrevive a um acidente de aviação. Segundo o psicólogo clínico Américo Baptista, os efeitos são “semelhantes aos do stress de guerra, violações ou roubos”. Situações em que a vítima pode ver a vida por um fio.
“É complicado, já tratei uma pessoa que sobreviveu a três acidentes com aviões de rega, com uma perturbação de stress pós-traumático. Só de pensar em aviões entrava em pânico. É um caso em que a pessoa tem uma profissão de risco e como vivia disto, foi resistindo”. Este sintoma é um dos primeiros a instalar-se, mas o rol de consequências, tanto do foro psicológico como biológico, é vasto. “Tudo depende do grau de ameaça, que nos acidentes de avião é quase letal. Mas uma pessoa fica muito limitada para a sua vida quanto ao uso deste transporte”. O caminho de recuperação é moroso, mas a esperança de seguir em frente permanece. “Há tratamentos psicológicos e farmacológicos, e em alguns casos é possível retomar o nível prévio ao sucedido, mas não se pode garantir”. De resto, os danos cerebrais não estão descartados, pelo contrário. “Não está provado ao nível dos acidentes de aviação, mas é possível que haja diminuição dos neurónios do hipocampo”. A “perda de auto-estima e dificuldade em enfrentar os problemas” são outras ameaças inerentes a quem vive esta experiência.
CONSEQUÊNCIAS POSSÍVEIS
- Perturbação de stress pós-traumático, caracterizada por uma reacção muito forte de alarme. “A pessoa vive como se o caso estivesse sempre a acontecer; está sempre a reexperienciar a situação.
- Fobia de voar. “Pode instalar-se uma fobia em que a pessoa não consegue mais viajar de avião”.
- Depressão. “É uma situação mais complicada quando desenvolvem depressões. As pessoas ficam prostradas, desenvolvem a incapacidade de relacionamento, de trabalhar. Afecta a sua vida toda”.
- Dependências. “Em alguns casos aparecem dependências, de substâncias medicamentais para aliviar os sintomas, ou uso de álcool e drogas”.
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