Vânia Beliz leva educação sexual às escolas do Alentejo e mostra que tudo deve ter resposta.
‘Pedro’, uma criança do quarto ano de escolaridade fez uma das perguntas mais embaraçosas de que Vânia Beliz tem memória numa sessão sobre educação sexual no Alentejo. "À frente da professora e da turma toda perguntou ‘porque é que às vezes os homens metem o pénis no rabo das mulheres?’".
A sexóloga não virou a cara ao desafio: "Disse que existem muitas formas de se fazer sexo ou amor, que as pessoas se podem relacionar sexualmente de diversas formas e que há pessoas que em lugar de gostarem de pôr o pénis na vagina gostam do pénis no ânus. E perguntei-lhe: ‘tu gostas de frango? E só gostas de frango de uma maneira? As pessoas também gostam de fazer amor de formas diferentes’. A professora ficou a olhar para mim e disse ‘ainda bem que a Vânia soube responder porque eu não saberia o que dizer’" Não é de estranhar, porque há dez anos que a sexóloga e autora do livro ‘A Viagem de Peludim’ (dirigido a crianças entre os três e os oito anos sobre o corpo, a conceção e o nascimento, ed. Marcador) faz estas sessões de esclarecimento aos mais novos. "Comecei a ir às escolas quando comecei o mestrado, em 2006. Isto porque comecei a trabalhar na área da sexualidade feminina mas percebi que se não se começasse a trabalhar nisto mais cedo não conseguia ajudar os mais velhos. Como é que eu podia trabalhar com um ejaculador precoce, com práticas de masturbação se ele acha que a masturbação é pecado, tira a energia e causa dependência? Esses mitos têm que ser desconstruídos desde cedo".
MITOS HÁ MUITOS
E desde cedo Vânia percebeu que os mitos que se achavam guardados numa gaveta ainda são factos na cabeça de muitas pessoas e por isso se tornam verdade para os mais novos. Como a criança do 4º ano que contou à sexóloga "a minha mãe diz que eu só posso usar o tampão quando for grande, porque posso perder a virgindade’" enquanto uma adolescente lhe perguntou: ‘Se engolirmos o esperma enquanto fazemos sexo oral podemos ficar grávidas?". Dúvidas há muitas, embora nem todos os adultos compreendam à partida a necessidade de se falar sobre estas questões.
"O principal problema dos pais é que acham que quando nós vamos à escola é para falar com as crianças sobre relação sexual, o que é um grande erro. Porque a relação que a mãe estabelece com a criança quando esta nasce tem a ver com educação sexual, tal como a forma como a criança adquire os vínculos, a forma como se relaciona com os outros. As pessoas acham que a educação sexual é só a puberdade, é só aparecer o período, é o sexo em si, mas é sim tudo o que nos rodeia", considera a sexóloga sobre um dos principais entraves que encontra, além da desconfiança de algumas escolas quando ouvem a palavra sexo. "A educação sexual também inclui trabalharmos desde cedo em relação ao género. Porque é que temos que selecionar os brinquedos? Porque que só pomos a menina no ballet e o menino no futebol? E depois os pais mais abertos também sofrem condicionamentos por parte dos outros: Porque deixaste crescer o cabelo ao teu filho? Porque é que deixas o teu filho brincar com uma boneca? A educação sexual começa na família. Se o pai não toma banho com a filha não há nenhum problema, desde que ele não mostre nenhuma conotação negativa em relação a isso, desde que não diga ‘isto é feio, não podes ver o pai nu’, porque sem se aperceberem os pais dizem coisas às crianças que influenciam o seu comportamento, como dizer por exemplo ‘não mexas na tua pilinha porque cai ou vem um cão e come.’São atitudes repressivas que podem levar a criança a pensar que está a fazer algo de errado, de sujo ou proibido quando no fundo está apenas a conhecer-se melhor", acrescenta a sexóloga. Importante é que face às perguntas dos filhos, os pais não adiem as respostas e sejam sinceros, usando uma linguagem adequada à idade.
"Ainda há muitas crianças que chegam ao quinto e sexto ano e não sabem como se fazem os bebés. É preciso explicar que o pai e a mãe é que fazem os bebés. A conversa até pode ficar por aí, porque as crianças também vão perguntando à medida que vão crescendo. Há pais que dizem ‘o meu filho não fala de nada’, mas aproveitar o que nos rodeia, como por exemplo um casal que se beija na rua, para falar das coisas é uma ótima oportunidade".
Enquanto os mais novos fazem perguntas mais gerais: ‘De qual lugar da senhora sai o filho?’; ‘Para que servem preservativos?’; ‘Porque é que o ovário se junta ao espermatozoide?’; ‘Porque é que às vezes o bebé não sai da vagina?’; os adolescentes têm curiosidades mais ‘técnicas’. Perguntam: ‘Qual o porquê de elas gritarem de forma suave?’; ‘Existe mesmo o ponto G? Se sim, é no clitóris?’; ‘Até que idade pode ocorrer o aumento do pénis?’; ‘Tenho uma colega que é, desculpe a linguagem, muito boa e tenho tido fantasias com ela. Sendo eu masculino é normal?’.
POR ONDE SAEM?
A sexóloga também tem feito sessões sobre a menstruação que a têm surpreendido. "Apresento-lhes os pensos higiénicos, as toalhinhas que antigamente as mulheres usavam, os tampões, o copo menstrual, mas o objeto em que mais vão mexer é na vulva e elas têm uma, mas nunca viram a delas. E quando lhes explico que o tampão fica lá dentro elas ficam horrorizadas, tal como quando lhes falo da questão do bebé sair pela vagina, dizem ‘como é possível o bebé conseguir sair por um buraquinho tão pequenino’, tanto que a maioria dos miúdos acha que os bebés nascem pela barriga. E as miúdas mais novas, quando se referem ao período falam de dor, dizem que é uma coisa má, porque não se ensina as meninas que o aparecimento da menstruação é um marco importante do crescimento para que se transformem em mulheres", considera a sexóloga. "Porque quando veem os pensos higiénicos das mães e perguntam o que é, a maioria responde que tem um ‘dói-dói’ no pipi. O que se deve dizer é ‘um dia, também te vai acontecer, mas como ainda és criança não chegou o dia’. Dizer que é um ‘dói-dói’ é a mesma coisa que dizer ‘se não comeres a sopa vou chamar a polícia’", acrescenta.
E como responder à pergunta – também uma das ‘preferidas’ dos mais novos – ‘em que idade se começa a fazer o ato sexual?’. "Em primeiro lugar fazemos alguns exercícios e eu digo que quando as meninas têm o período já podem engravidar. Mas dou o exemplo de uma menina que tem o período aos nove, dez anos e pergunto sempre: ‘vocês acham que eram capazes de cuidar de um bebé com esta idade?’ E elas ficam a pensar. Há até programas para prevenção da gravidez na adolescência em que se entrega às meninas um boneco que chora de x em x horas e que se tem de mudar a fralda só para elas perceberem o que é necessário para responder às necessidades fisiológicas do bebé. O que tentamos que entendam é que já são férteis mas que não é a melhor altura. Fazemos com que pensem naquilo que querem para o futuro e dizemos que apesar das princesas serem todas mães muito cedo era outro tipo de vida, não tinham as mesmas oportunidades que elas hoje têm".
VIOLÊNCIA SEXUAL
Aos pais das crianças, a sexóloga ajuda a perceber que falar destes temas não é uma arma de arremesso contra a inocência, antes uma forma de defesa em caso de violência sexual ou de género. "Nestas situações, quando as crianças são questionadas em relação ao abuso sexual, muitos processos caem porque as crianças não se sabem explicar. O juiz mostra o modelo de uma vagina ou uma vulva e a criança não sabe explicar onde o abusador mexeu porque ela não conhece o seu corpo e nunca se conseguiu exprimir em relação a ele. Enquanto que consegue dizer ‘O João deu-me um murro no nariz e a Rita puxou-me as orelhas, porque sabe exatamente o que são. Por isso, quando estamos a dar banho a uma criança de dois, três anos devemos dizer: ‘a mãe está a mexer aqui mas é para lavar, não podemos mostrar partes do corpo que são especiais, por isso é que não andamos nus na rua. Porque uma criança se for agredida sexualmente aos três anos, ela não sabe que aquilo é errado, só se queixa se houver penetração e dor. Não se queixa se for uma festinha ou do ‘dou-te um gelado se tirares a cuequinha e mostrares o teu pipi’", considera Vânia, que a dada altura foi surpreendida com uma pergunta polémica em frente a um auditório apinhado. "Uma menina levantou a mão e perguntou: ‘porque é que os padres violam as crianças?’ Eu expliquei-lhe que não são os padres que violam as crianças, há pessoas de várias profissões que violam crianças. Pode ser um padre, um mecânico, um médico, um tio".
"EDUCAÇÃO SEXUAL NÃO ESTÁ NAS PRIORIDADES DAS ESCOLAS"
Jorge Ascenção, presidente da Confederação das Associações de Pais, considera que a educação sexual "não é uma prática generalizada nas escolas. Poderá haver um ou outro professor na área da biologia que aborde o assunto mas a sexualidade não é uma questão que esteja nas prioridades daquilo que é o projeto educativo em termos genéricos. Temos falado dessa possibilidade, até porque inclusivamente não temos a garantia de que haja nas escolas a formação adequada para abordar esse tema, é complexo e se há famílias que são capazes de encarar isso com muita naturalidade, outras nem por isso, há aqui ainda necessidade de alguma informação, formação, conhecimento para que a abordagem que se faz nas escolas possa ser compreendida em casa", explica. "Alguns pais ficam preocupados, porque quando se fala de sexualidade a coisa a que se dá mais relevância é a proteção do ato sexual, o que acaba por criar algum ruído nas famílias", acrescenta o dirigente, pai de três filhos.
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