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Na rua, não têm identidade: o gorro negro cerra-lhes as feições; o capacete e colete balísticos não deixam a descoberto qualquer ponto vital; defendem-se, armados, empunhando uma pistola-metralhadora (a FN P90 ou a HK MP5), no coldre trazem duas pistolas (em breve serão as Glock 19) e no cinturão gás lacrimogéneo, ‘flashbang’ e ‘taser’. Vestem o negro dos ninjas. Só nas costas denunciam a insígnia da elite da Polícia de Segurança Pública: GOE, Grupo de Operações Especiais. São homens preparados para o pior dos cenários no nosso País e que, na Quinta das Águas Livres, em Belas, arredores de Lisboa, treinam para não falhar.
No tempo frio, a humidade está sempre no ar; de Verão, o calor acosta-se ali. Dez da manhã, em Belas, cerca de 30 elementos do GOE reforçam o estômago com um superpequeno-almoço. As armas ainda estão frias, no repouso. Depois da formatura, às 7h30, o corpo aquece durante duas horas e meia com treinos físicos. Os homens dividem-se entre a pista de atletismo, aulas de defesa pessoal e kickboxing. Só depois de meia hora parados na primeira refeição do dia – servida no bar, de paredes ladeadas por taças e condecorações – é que partem para os exercícios técnicos. É quando rompem, aos tiros, o silêncio dos 152 hectares da quinta florestada.
Não será para medir forças com ninguém que o GOE treina lutas de punhos e golpes de pernas. Mas basta um empurrão a um polícia para o gesto ser considerado agressão. Os agentes é que devem responder sempre com o mínimo de agressividade. Há que ter em conta o princípio da proporcionalidade, adequabilidade (dos meios empregues à ameaça) e da actualidade (a ameaça tem que estar a acontecer). Na sala de treinos, corpo-a-corpo trabalham-se formas de imobilizar os suspeitos e de ganhar resistência aos ataques. Nas pistas de corrida e de obstáculos trabalha-se a destreza, rapidez e ‘endurance’, para que nunca seja o oponente mais ágil que a força policial. Na torre (com a altura de quatro andares) treina-se o ‘rapel’ (descida por corda), slide (travessia entre dois pontos, por cabo) e a escalada. 'Não estamos livres de um dia entrar, num prédio, pela janela. Já tivemos uma operação em que fomos de telhado em telhado para dar, neste caso, a um casino', afirma um dos elementos, que não pode ser identificado. 'É impossível haver fobias.'
'Há 20 anos, garanto que ninguém dizia que era do GOE. Hoje há uma certa vaidade. Mas todos aqui sabemos que ao revelarmos isso, automaticamente, pode acontecer-nos qualquer coisa. Por isso, usamos gorro para preservarmos a família', revela o comissário Luís Moisés, há 20 anos nas Operações Especiais. 'E no dia em que se queira dar mais importância à família, um indivíduo tem que sair daqui', desabafa outro agente. Só que a dureza faz a diferença. 'É importante manter-se a mística dentro destas unidades', defende o comissário Carlos Ribeiro.
Primeiro princípio: preservar a vida. O GOE treina assaltos ou buscas em vários ambientes. A maioria, hostis. Ou se conhece a planta do edifício e as coisas são mais fáceis – e por vezes os informantes não dão dados correctos – ou tudo piora em locais totalmente desconhecidos. Ao entrar no edifício, os polícias avançam como a água a invadir um compartimento – rápida e progressivamente – e nunca se deve deixar para trás um espaço vazio. À medida que cada binómio encontra uma porta ou um acesso grita 'binómio'. Estes progridem no terreno. É frequente que encontrem casas em espaços confinados, tipo barracas em bairros degradados. O objectivo é anular a ameaça. 'Seis suspeitos neutralizados e um refém' – grita o chefe da equipa que entrou na casa (cenário) de testes.
Nas camaratas da quinta em Belas, os agentes treinam os assaltos. Num caso de resistência activa, o suspeito está deitado na cama com uma arma de fogo debaixo da almofada – 'este é um cenário que se encontra com muita frequência, porque estas operações são feitas principalmente ao amanhecer', explica um instrutor. Ao entrarem os dois agentes e depois do grito – 'polícia, não mexe' – os agentes avançam. 'Mostra as mãos, mostra as mãos.' E o suspeito agarra a arma. O agente dispara. 'O homem está ferido' – avisa. E seria nesta altura que o INEM iria prestar os primeiros socorros.
Noutro caso, o suspeito está sentado num banco. Quando é surpreendido pela entrada dos dois elementos do GOE, atira-se para debaixo da cama. O agente pede-lhe para ele mostrar as mãos. Perante a desobediência, puxa--o pelas pernas e arrasta-o dali, evitando que ele pudesse alcançar uma arma.
Às vezes não é possível evitar fugas. E com frequência é preciso fazer parar um carro. Em toda a quinta ouvem-se carros a atravessar-se à frente uns dos outros. As fugas de automóvel – cada vez mais velozes – estão em escalada. Num dos treinos, um jipe ultrapassa, a alta velocidade, e atravessa-se à frente do carro suspeito. Atrás, é logo imobilizado por outro. O condutor, armado com uma pistola, dispara na direcção do carro da frente. Prontamente, cinco agentes ripostam. E o suspeito entrega--se, sem que haja feridos a lamentar.
Têm um grau de prontidão de 45 minutos. Se preciso for, metem-se à estrada entrando na CREL. Respondem perante o director nacional da PSP no cumprimento de mandados de captura de suspeitos perigosos, ou em buscas domiciliárias igualmente arriscadas. Vigiam locais e pessoas – não é de estranhar, por isso, que se possam disfarçar de agentes da água, luz, gás ou da TV por cabo. São chamados quando se suspeita que haja pessoas armadas em oposição a uma acção policial ou quando o acesso a edifícios está dificultado por barreiras e é preciso preservar provas. Mas há outros casos – a que chamam os incidentes táctico-policiais – que acontecem inesperadamente: pessoas barricadas em edifícios; assaltos a bancos; e casos com reféns. 'Somos chamados cada vez mais a intervir. Já não existe aquele estigma de que os elementos do GOE eram descontrolados e violentos' – garante o subintendente Carlos Ribeiro.
Saber usar uma arma é também uma forma de controlar – mas pode intimidar qualquer cidadão. Os elementos do GOE gastam três mil munições para treinar tiro três vezes por semana. Nas carreiras de tiro – 25, 50, 75 e 300 metros – um homem de madeira serve de alvo aos disparos, que se seguem à ordem do instrutor. Treina-se a pontaria e as rotações do corpo. 'Roda à direita; fogo' – segue-se um som ensurdecedor. 'Meia volta, joelhos; fogo.' Sempre com balas verdadeiras (fogo real) treina-se o alvo por trás da fachada de um prédio. Seis agentes vão trocando de posições, escondendo-se do inimigo ao passar nas janelas e portas, para dispararem, mais uma vez, ao sinal de 'fogo'.
Estas são as situações mais vulgares, mas há que estar preparado para uma ameaça maior. O terrorismo. 'Pensávamos que o terrorismo tinha adormecido, mas não. Vai sempre acontecer' – lamenta Carlos Ribeiro. Para as situações-limite de treino existem protocolos com a TAP para usar aviões. Claro, sem recorrer a fogo real. Ou, no caso das embarcações, a Marinha de Guerra faz as honras. Só as velhas composições de comboios que vão para abate são destruídas pelos tiro e explosivos do GOE.
E disponível para todos os casos haverá sempre negociadores da PSP. Sangue frio é o que se lhes exige quando são chamados em casos de tentativa de suicídio. Evitam-nas, como a 25 de Janeiro de 2006, com um homem, surdo, que ameaçava atirar-se da Ponte 25 de Abril, Lisboa. Tinha morto a sua mulher na Amora, Seixal. Este núcleo do GOE intervém ainda em situações de pessoas barricadas. A 8 de Maio, Carlos Marinho fechou-se, armado, durante três horas, no Tribunal de Gaia. Sob ameaça dele estava uma juíza envolvida no seu processo de regulação paternal. E o homem alegava não ter contacto com o filho, de 12 anos. Entregou-se sem causar vítimas ou danos.
'As pessoas têm problemas psicológicos; de repente, dá-se um clique e acontecem situações destas' – advoga o coordenador dos negociadores, Luís Moisés. Mais complicado de resolver são ainda os sequestros. Jorge Dias, na sequência de violência doméstica, ficou proibido de ver as filhas. Desesperado, subiu ao telhado de casa, em Sintra, e permaneceu lá com as duas meninas, de 4 e 6 anos, até ser demovido de dar um passo fatal.
'Para negociar eu tenho que conseguir criar dependência. Estou de certa forma a entregar algo que a outra pessoa queira' – prossegue o comissário Moisés. Geralmente são enviados a estes locais cinco elementos apoiados por uma carrinha – o 'cérebro das operações'. Aparentemente é mais uma carrinha comercial, mas está equipada com câmaras de vigilância exteriores monitorizadas. Há um negociador que lida directamente – através de uma frequência 100% segura – com a pessoa (ou um porta-voz designado) que despoletou o cenário. Outro negociador está à escuta. Dentro da carrinha, preenchem-se painéis brancos que cobrem as paredes laterais: escrevem-se as 'exigências', 'horas-limite' ou, por exemplo, 'acções positivas'.
Através de fotografias estuda-se o perfil da pessoa em causa: 'Quem é?; O que quer?; Quem está com ele? É preciso conhecê-lo' – acrescenta Luís Moisés. 'A negociação é a arte de fazer levar a que o opositor se entregue. Tenho que fazer com que ele sinta que precisa de mim, para que baixe a tensão – e eu também preciso dele. As minhas palavras são trabalhadas para não serem agressivas. O que é que ele tem com ele que me interesse? Podem ser pessoas, explosivos, ou outra coisa.'
O comissário Moisés recorda o assalto, a 4 de Outubro de 2006, a uma dependência do BES, em Setúbal. Estavam sequestrados três homens e uma mulher. 'Tivemos uma situação de 13 horas, literalmente, a falar para uma parede. Nem sequer estávamos a falar com o negociador, era por intermédio de outra pessoa.' Foram enviados mais de duas dezenas de elementos do GOE para Setúbal. Ao fim de meio dia, os elementos das Operações Especiais tiveram que entrar de assalto no banco. Prenderam, sem resistência, o assaltante e sequestrador Vítor Pereira.
'Nós nunca mentimos, omitimos' – palavra de negociador. Mas nem sempre a conversa convence depressa o opositor. O caso mais longo deu-se em Janeiro de 2006, no lugar de Adega, Sobral de Monte Agraço. Um padeiro de 54 anos acabava de responder com um tiro à queima-roupa contra um militar da GNR, quando esta força das autoridades quis recolher provas relacionadas com furtos de viaturas e assaltos a moradias de que o filho era suspeito. Na sequência do disparo, o militar baleado perdeu uma vista. E o homem barricado só cedeu às negociações após 28 horas. É já a pensar nestes casos morosos que a carrinha dos negociadores tem um compartimento com dois beliches, para descansar.
'É toda uma doutrina que se aprende aqui; o espírito de camaradagem é outra; a dedicação ao serviço, também. Tudo resulta de uma relação apertada' – explica o comissário Malheiro. 'No meu curso, em 2006, depois da fase de provas físicas e médicas, foram admitidos 100. Na primeira noite desistiram 34; no final da semana só havia 49; e dez terminaram o curso' – descreve. 'Não basta um indivíduo aguentar, tem que demonstrar ter competências técnicas para o serviço.'
UMA SÓ MORTE NA 'FICHA' DO GOE
‘Celé’ era cabo-verdiano (de seu nome Osvaldo Vaz), 27 anos, e foi o único criminoso abatido a tiro pelo GOE. Disposto a organizar o tráfico de droga na Cova da Moura, Amadora, à lei da bala, Osvaldo foi apanhado pela polícia a 29 de Outubro de 2002. Nesse dia, as autoridades desconfiavam da sua passagem pelo Casal da Silveira, em Famões, Odivelas, e seguiram-no desde o Alto da Cova da Moura à garupa de uma Honda CBR 900. O cabo-verdiano – evadido de uma cadeia na Holanda onde cumpria 24 anos de reclusão pelo homicídio de um polícia num assalto a um banco – trocou de boleia, em Lisboa, para um Renault 19. Já no bairro de Famões, a polícia fechou todas as saídas e, numa carrinha alugada pelo GOE, interceptou o Renault, que foi embater numa moradia. O condutor foi detido, mas ‘Celé’ arriscou correr. Segundo as autoridades ele terá sido o primeiro a premir o gatilho do revólver – embora tivesse também uma pistola-metralhadora semelhante a uma UZI. O GOE terá ripostado com nove tiros mortais.
NEGOCIADORES
A carrinha dos negociadores, simplesmente branca por fora, tem no seu interior o ‘cérebro’ das operações de negociação. Uma câmara de vídeo capta as imagens que são transmitidas no televisor e gravadas no vídeo. O negociador principal fala directamente com o opositor, um segundo, dentro da carrinha, segue a conversa. E outro escreve nuns quadros nas paredes as indicações sobre as 'exigências', 'horas- -limite' ou, por exemplo, 'acções positivas'. Se houver fotografias das pessoas envolvidas, estas são coladas nos placares para se estudar o seu perfil. A carrinha tem mesmo dois beliches, num outro compartimento, disponíveis para o descanso após muitas horas de trabalho.
TROPA DE ELEITE MOSTRA DURA REALIDADE
Há quem considere que o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) do Rio de Janeiro, Brasil, é apenas 'treinado para matar' e não pondere que estes polícias de alto risco disparam para não morrer. É pelo menos esta a dupla realidade que o filme brasileiro ‘Tropa de Elite’, dirigido por José Padilha, transmite. Uma realidade que em Portugal apenas é demonstrada no grande ecrã – a película estreia quinta-feira, nos cinemas Lusomundo. O GOE já esteve este ano a treinar no Brasil com o BOPE, embora seja incomparável o grau de perigo entre as intervenções destas duas forças especiais. Também o major Fábio Sousa, do BOPE, este ano veio ao nosso País treinar guerrilha urbana com 22 elementos da PSP, GNR, SEF e GISP (dos serviços prisionais).
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