O álbum de Liliane Marise já é disco de ouro e está em primeiro lugar no top nacional. Que fenómeno é este?
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Liliane Marise quer ‘uma mala chique' e dá ‘pancadinhas de amor'. Canta ‘badaladas', ‘ama o povo maravilhoso' e os ‘fofuxos' que a ouvem. ‘Nasceu' em janeiro deste ano e tem quase 50 mil fãs no Facebook. A atriz Maria João Bastos, quase vinte anos de carreira, só tem 15 mil fãs na rede social, apesar de ser ela a cara e o corpo da cantora pimba que nasceu numa telenovela e cujo álbum entrou diretamente para o primeiro lugar do top nacional de vendas. Já é disco de ouro (ultrapassou na quarta-feira as 7500 unidades vendidas).
O fenómeno Liliane Marise já chegou inclusive ao Brasil, onde há um grupo de ‘Lilinetes' que todas as semanas envia à atriz uma foto com um visual semelhante ao da personagem que interpreta. Curiosamente, foi do outro lado do Atlântico que uma novela da Globo [‘O Clone', em 2002] a lançou como um dos nomes fortes da representação cá dentro. Mas desde que vestiu as farpelas brilhantes de Liliane que Maria João Bastos, de 38 anos, recebe também mensagens de vários outros países, como França, Suíça, Luxemburgo e Islândia.
PERCENTAGEM DE VENDA
A personagem dá-lhe dinheiro em duas frentes: o cachet de atriz e uma percentagem da venda dos CD que partilha com os autores das músicas e com a editora. Nos concertos, o cenário será idêntico. "Não vai enriquecer com esta personagem nem a vida dela vai mudar a nível económico, terá apenas a compensação pelo seu trabalho e esforço numa altura em que a venda de discos já não é o que era", confidencia fonte próxima.
Em 2010, Maria João, protagonista na série ‘Equador', confessava numa entrevista que o filme ‘Mistérios de Lisboa' - então em cartaz - lhe tinha dado o papel mais grandioso da sua carreira, mas ainda estava longe de saber que a esperava dois anos depois uma ‘mulher furacão' com ganas de saltar para fora do pequeno ecrã. "É uma personagem que me alimenta diariamente. Quando fico sem gravar dois dias fico com vontade de dar vida à Liliane Marise", já confessou. Agora que as gravações já terminaram a cantora não vai ficar arrumada no portefólio da atriz. Vai dar pelo menos dois concertos em breve - o que não estava previsto inicialmente -, embora já se tenha estreado na festa de Natal da TVI, na Corrida da Mulher, em maio (onde abriu o concerto de José Cid) e na festa de verão da estação onde trabalha.
"A Maria João foi a nossa primeira escolha para o papel. Assim que sugerimos o nome dela numa reunião, ligámos-lhe de imediato e de imediato ela aceitou, mesmo sem ler o guião. É das atrizes portuguesas mais elegantes, é destaque nos festivais de cinema internacionais, é um nome incontornável. Quisemos, com este papel, levá-la para outra dimensão, mas ela ainda foi mais longe, agarrou o papel com unhas e dentes, está com a Liliane Marise de corpo e alma", conta o autor da telenovela ‘Destinos Cruzados', o ‘pai' da cantora pimba. De tal maneira que "a Maria João deixou de fumar, o que foi um sacrifício, passou a ter aulas de canto e de dança, por se tratar de uma personagem muito física. Ela sai das gravações como se tivesse apanhado pancada, mas sai feliz da vida", confidencia António Barreira, que sabia que a atriz tinha boa voz porque em 2010 participou no programa ‘Canta por Mim' (TVI), que punha figuras públicas a cantar ao lado de anónimos para angariar dinheiro para causas sociais.
Clique na foto em baixo para ver a fotogaleria de Maria João Bastos
A ORIGEM DA LILIANE
"Nos anos 90 trabalhei na Rádio Vidigueira, como locutor e autor de radionovelas, e naquela altura conheci muitos cantores de música ligeira, de quem sou amigo ainda hoje. Esta personagem foi inspirada nesta minha experiência", conclui Barreira. Na telenovela, a personagem gira à volta da carreira de Liliane, embora o verdadeiro nome da cantora seja Guida Cabreira, uma mulher que se casou com um homem ciumento, adotou uma menina em África, numa das suas digressões, e, alguns anos depois, enviuvou. É aí que tenta voltar à ribalta. Pelo meio vive um tórrido (e secreto) romance com o sobrinho Moisés e anda às turras com a irmã Milinha.
No Facebook de Liliane Marise, os fãs dão conselhos à personagem como se de uma amiga se tratasse. A atriz alimenta essa relação cibernética com posts quase diários e fotos da sua Liliane. "O sucesso da personagem tem precisamente a ver com o facto de ser o oposto da Maria João, não têm nada a ver uma com a outra, ninguém a imaginaria neste papel", confirma Barreira. A atriz envolveu-se de tal forma no papel que até o guarda-roupa da Liliane é escolhido por si, com todo o pormenor. Quem a conhece diz que o segredo do boneco (ou melhor, da boneca) é o respeito que Maria João Bastos tem por ele, não fazendo da Liliane um alvo de gozo e troça, mas de simpatia. Isso é muito notório no público mais novo, que no Carnaval aderiu em peso à personagem, esquecendo as máscaras das princesas e dos palhaços. E que tem comprado em massa o CD, numa altura em que o mercado discográfico está em queda.
A título de exemplo (e com as devidas salvaguardas), lembremos que o primeiro álbum de Floribela atingiu a primeira platina em apenas quinze horas (numa altura em que uma platina equivalia a mais de 20 mil exemplares vendidos). A telenovela em questão, um original mexicano importado para o mercado nacional, através da SIC, lançou Luciana Abreu no mundo da representação, uma vez que esta começou a ser conhecida pela música - o contrário de Maria João Bastos, "até mesmo pelo facto desta ter 38 anos e ter carreira feita".
O fenómeno assemelha-se ao que aconteceu com vozes (e personagens) saídas dos ‘Morangos com Açúcar', como os DZRT, os 4Taste, as Just Girls (todas bandas que entretanto terminaram). O mais aproximado do caso Liliane Marise aconteceu em 2007, quando a TVI (e a sua editora Farol) lançaram uma atriz para o mercado discográfico, no caso Rita Pereira, na altura a Estrelinha da novela ‘Doce Fugitiva'. Foram editados dois álbuns, um de originais e outro de karaoke, mas a boa estrela durou pouco.
"Não ficou sequer na memória, talvez porque a Rita Pereira não tinha naquela altura o currículo artístico da Maria João Bastos. Aquilo que tem surpreendido mais as pessoas tem sido mesmo o antagonismo entre a atriz e a personagem", explica fonte do meio. Também no Brasil, a telenovela ‘Cheias de Charme' (Globo) criou um trio musical de atrizes com carreira feita nos palcos para interpretar um grupo de empregadas domésticas que começa a fazer sucesso na música. A adesão do público foi de tal forma positiva que Isabelle Drummond (uma das atrizes) já deu autógrafos na rua como a cantora Cida e o trio vai ter direito a um filme.
MARIA JOÃO NO ESTÚDIO
Maria João foi para estúdio gravar o CD com o mesmo profissionalismo com que vestiu a pele da cantora pimba. Terá gravado em tempo recorde por "ter estudado muito em casa", apesar "de pedir para repetir as músicas de cada vez que lhe parecia que era o timbre dela, e não o da personagem, a sobressair".
Mónica Sintra nunca se imaginou a subir ao palco com uma atriz que "admirava tanto. O papel dela é muito bem feito, muito diferente de tudo o que foi feito até hoje. No visual e num ou noutro ponto lembra-me algumas pessoas, mas é tudo muito puxado ao extremo, é uma caricatura. Por isso acho que é pouco significativo da música popular portuguesa, mas acho que com aquilo que tem no CD pode perfeitamente fazer concertos", considera a cantora de ‘Afinal havia outra', uma das músicas que Liliane Marise canta no álbum.
Ágata não se revê na personagem. "Eu não dou palmadas no rabo nem nunca fui tão exuberante, mas acho que a personagem está perfeita, representa aqueles cantores que volta e meia aparecem mas logo desaparecem", explica a cantora, garantindo que canta com "mais profundidade". Ainda assim, acha ótimo que o disco de Liliane Marise tenha o seu ‘Perfume de mulher'. "É bom que se lembrem dos meus clássicos, é uma forma de o meu público se recordar também." Toy diz que a Liliane Marise lhe faz lembrar um misto entre a cantora sensual e a cantora de coletividade.
"Há muitos cantores assim. A mim não me choca o sensacionalismo das cores e das roupas, basta pensar na Madonna ou no Prince, mas não me revejo na musicalidade nem nos temas, embora considere o trabalho muito bem feito." E apesar de Maria João ainda não ter despido a Liliane, já está a trabalhar noutro projeto: o filme ‘The Giacomo Variations', onde contracena com John Malkovich. Lá também haverá música: mas é mais ópera.
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