‘O que aprendemos com os gatos’ é a viver o instante, diz autora espanhola.
Depois de escrever ensaios, livros de contos e romances, a espanhola Paloma Díaz-Mas, de 61 anos, investigadora e professora catedrática de literatura medieval e sefardita, surpreendeu tudo e todos com ‘O que Aprendemos com os Gatos’, editado em Portugal pela Quetzal.
Se lhe pedissem para indicar a coisa mais importante que os gatos nos podem ensinar, qual seria?
A capacidade de viver o momento. Existe em qualquer animal, mas é muito mais evidente neles. Não se preocupam com o que virá a acontecer nem se atormentam com o que já aconteceu.
Escreve que eles não padecem, ao contrário de nós, da doença congénita degenerativa chamada razão…
Isso é uma brincadeira, mas não deixa de ter certa base de verdade. Muitas vezes demoramos mais tempo a pensar do que a agir. A letra da canção ‘Beautiful Boy’, que John Lennon dedicou ao filho, diz que a vida é o que nos acontece enquanto estamos ocupados a fazer outros planos [risos]. É uma grande verdade.
Começa o livro com o momento que as pessoas que vivem com animais mais temem. Foi o vazio deixado pela morte da sua gata ‘Tris-Tras’ que a impeliu a escrever?
Tenho de advertir que tanto a ‘Tris-Tras’ como os gatos ‘Tris’ e ‘Tras’ são personagens. Toda a gente pensa que são os meus gatos, e de facto toda a vida tive gatos – agora tenho dois –, mas não descrevi as suas histórias. Queria que o livro fosse uma reflexão acerca da morte, do aproveitar a vida e da ausência. Toda a gente que teve animais viveu essa experiência ou irá vivê-la a certo momento. Se não viver, é pior, pois significa que o dono morre antes do animal. Quis escrever sobre a convivência e a forma como o animal pode alterar a nossa visão da vida.
É menos correto dizer que se é dono de um gato do que dizer que se é dono de um cão?
Sim. Desde logo porque os cães são animais de matilha e necessitam de um líder. Os que vivem com famílias em que não existe autoridade clara passam mal, pois sentem a necessidade de assumir a responsabilidade de chefiar. Pelo contrário, os gatos são muito mais independentes. A convivência com eles é mais negociada. Em vez de matilhas têm territórios, a que são muito apegados, e que partilham connosco. Isso não é ser dono. Na maior parte das vezes, somos vizinhos ou parceiros de quarto.
Consegue compreender o que leva alguns a sentirem medo e aversão dos gatos?
Para começar, há uma longa história de identificação dos gatos com algo maligno. Na Idade Média, os gatos – sobretudo os negros, como os dois que tenho agora – pertenciam às bruxas. Além desses mitos, causa muito incómodo a alguns humanos não serem capazes de os dominar. Enquanto o podem fazer aos cães, a relação com os gatos não pode ser assim. Vamos negociando com eles. Quem espera que se comportem como cães fica frustrado e pode criar aversão.
Como é que eles nos veem: como deuses benévolos que dão comida e conforto, como gatos enormes e sem pelagem, ou como sequestradores que os privam da liberdade?
Julgo que nos veem como gatos. Há uma passagem no livro em que escrevo que os gatos começam a confiar em nós ao perceberem que não somos predadores. Não os vamos tentar comer, pois também somos gatos. Nem sei se nos consideram enormes. Os gatos devem ter uma visão megalómana de si mesmos, pois muitas vezes comportam-se como se fossem muito maiores.
Sendo criaturas atléticas e mais preparadas para se defenderem do que nós, se os gatos fossem maiores seriam os nossos líderes?
Se fossem maiores, seriam tigres. E seriam os nossos predadores [risos]. Alguns humanos têm medo porque o comportamento deles faz lembrar o de grandes felinos.
Quem não tem gatos fica horrorizado com as cicatrizes que os donos têm nas mãos e nos braços…
Pensam que fomos agredidos e não percebem que sucedeu porque estávamos a brincar com um animal com garras.
Dá por si a pensar até que ponto os seus gatos gostam de si?
Acredito que sim. Uma das coisas de que mais gosto na relação com os gatos é que essas feras de vez em quando são carinhosas.
São pequenos deuses temperamentais?
Não sei se diria um deus, mas todos os gatos têm um rei dentro de si.
‘O que Podemos Aprender com os Gatos’ é o seu único livro disponível em edição portuguesa. Isso diverte-a ou incomoda-a?
Tenho de dizer que a edição portuguesa é muito bonita, e a tradução é muito boa. Fiquei com a esperança de que outros meus livros sejam também traduzidos e editados.
No meio académico e literário houve quem lhe chamasse ‘senhora dos gatos’ depois de lançar este livro?
Tem havido reações curiosas. Muita gente escreveu-me. Uma leitora até me enviou uma colagem inspirada no livro. E prendas. Há dias recebi um cachecol de uma norte-americana, professora de Espanhol. São reações que nunca tive nos outros livros. Há algo em comum entre quem gosta de gatos.
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