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Torre Bela é nossa

Em 23 de Abril, é ocupada a Herdade da Torre Bela, no Ribatejo. O PCP, que animava a reforma agrária, ficou de fora.

17 de abril de 2005 às 00:00

As ocupações de terras prosseguiam, imparáveis, rumo à Reforma Agrária. As sementes foram lançadas no início de Fevereiro, na Herdade da Defesa, arredores de Évora, retirada aos proprietários - “agrários”, como então eram conhecidos.

O Partido Comunista, que enchia a boca com a palavra de ordem “a terra a quem a trabalhava”, liderava as ocupações e, em 18 de Abril, é anunciada a criação de centros regionais da Reforma Agrária - com a missão de “enquadrar” as ocupações e transformar as herdades em Unidades Colectivas de Produção. A influência do PCP crescia entre os rurais.

Mas, em 23 de Abril, o povo de aldeias do concelho da Azambuja atreveu-se a fazer uma coisa que o PCP sempre abominou: resolveu agir sem perguntar ao partido – e logo para ocupar a Torre Bela, a mítica herdade do Ribatejo, que se estende próxima de Alcoentre por dezenas de quilómetros da estrada nacional em direcção a Rio Maior.

A Herdade da Torre Bela, de milhares de hectares, a maior área de terra agrícola murada do País, pertencia ao duque de Lafões, patriarca dos Palmela. Os mais velhos de Manique do Intendende e de Massuça, as aldeias que mais força braçal forneceram à aldeia, lembram-se dos tempos em que senhor de Lafões se passeava orgulhoso no seu cavalo pela miséria dos arrabaldes.

Contam, ainda hoje, sem disfarçarem uma pontinha de rancor, como o duque reagiu quando um humilde servo não se levantou à sua passagem. Nem se deu ao trabalho de desmontar: afastou o pé do estribo – e acertou-lhe na cara com a bota de cano alto.

Em Abril de 1975, o povo ao redor de Torre Bela, empurrado pelos ventos agrestes da revolução ocupou a herdade: não levou bandeiras, não marchou enquadrado por ‘comissários’ do partido. O Partido Comunista, apanhado de surpresa, nada fez: a direcção do PCP, sabida, ficou à espera do dia em que os ocupantes, vergados sobre a carga dos trabalhos, iriam pedir ajuda ao partido para fazer daquilo uma Unidade Colectiva de Produção. Eles clamaram mesmo por ajuda, mas não chamaram o PCP: foram bater à porta da LUAR – Liga de Unidade e Acção Revolucionária, fundada em Paris, em 1967, por um punhado de opositores do Estado Novo exiliados.

Entre os inimigos jurados de Salazar e os que lutaram de armas de mão contra o Estado Novo destacam-se dois homens: Camilo Mortágua e Hermínio da Palma Inácio – os últimos revolucionários românticos, ambos ainda vivos. Participaram nos golpes mais espectaculares que fizeram abanar a ditadura. Mas a história da acção directa contra o regime há-de reservar a Mortágua um capítulo muito especial. Ele acrescenta com indisfarçável orgulho mais uma ‘marca de guerra’ às do inseparável amigo de uma vida inteira: participou na Operação Dulcineia, em finais de Janeiro de 1961, comandada pelo capitão Henrique Galvão e inspirada pelo general Humberto Delgado – o desvio do paquete português ‘Santa Maria’, o primeiro acto de pirataria dos tempos modernos, que chamou a atenção da comunidade internacional para um País a ferro e fogo.

Palma Inácio, por um capricho da História, não fez parte do comando que tomou de assalto o ‘Santa Maria’. Mas, em Novembro de 1961, chefiou o grupo de revolucionários que executou a Operação Vagô – o desvio de um avião ‘Super Constellation’ da TAP, entre Casablanca e Lisboa. Largaram 100 mil panfletos contra o regime em Lisboa, Alentejo e Algarve. Regressaram aos céus do Norte de África e aterraram em segurança no aeroporto marroquino.

Camilo Mortágua acompanhou Palma Inácio no ataque ao avião – e voltou a acompanhá-lo, em Maio de 1967, no assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz. Recusaram roubar a banca privada. Fizeram questão de tirar ao Estado o dinheiro necessário para o financiamento da luta armada contra o regime. Conseguiram uma fortuna equivalente, nos nossos dias, a um milhão de contos. Mas o dinheiro de pouco lhes serviu. Levaram notas novas, que ainda não tinham entrado em circulação, cujos números foram imediatamente divulgados.

Após o assalto , nasce a LUAR. O anúncio da fundação foi feito em Paris por Emídio Guerreiro, ainda Palma Inácio, Camilo Mortágua e mais dois revolucinários que também participaram no golpe (António Barracosa e Luís Benvindo) iam a caminho de França, a salto, com os sacos carregados de dinheiro.

Ao apelo dos ocupantes da Torre Bela respondeu a LUAR com Camilo Mortágua, o militante mais talhado para transformar a herdade num modelo de cooperativa nunca experimentado - “uma utopia”, recorda hoje o homem que há 30 anos tentou dar uma lição ao PCP sobre reforma agrária. A ocupação da propriedade dos Palmela terminou em 1978. Uma coisa deixa Camilo Mortágua orgulhoso: a Torre Bela, como nenhuma outra herdade ocupada pelo PCP, foi tema de reportagens na Imprensa estrangeira. Mas foi o documentário realizado por Thomas Harlen, em 1976, que havia de perpetuar a “utopia” que Camilo Mortágua teimou em pôr em marcha.

REVOLUÇÃO DIA-A-DIA

17 de Abril - Sai o primeiro número do ‘Jornal Novo’, dirigido por Artur Portela Filho.

18 de Abril - Decretado o 25 de Abril como Dia de Portugal.

19 de Abril - Comissão de trabalhadores ocupam sede do grupo CUF.

20 de Abril - Intersindical defende expropriação dos latifúndios.

21 de Abril - Decreto congela preços dos produtos alimentares; É criada a Provedoria de Justiça.

23 de Abril - Ocupada aHerdade da Torre Bela

Em 18 de Abril de 1975, o Partido Revolucionário do Proletariado, dirigido por Isabel do Carmo e Carlos Antunes reúne em Lisboa os Conselhos Revolucionários de Trabalhadores, Soldados e Marinheiros - em representação de uma centena de empresas e de uma vintena de unidades militares.

Esta prova de força demonstrava que, entre a extrema-esquerda, o PRP era o movimento político com maior capacidade de mobilização nas fábricas e na tropa. Contava com uma organização clandestina armada - as Brigadas Revolucionárias, que levaram a cabo operações ‘terroristas’ (de 1970 a 74) contra o Estado Novo.

HOMENAGEM A MORTÁGUA

A cantiga ‘Um Tractor’, de Sérgio Godinho, foi composta e cantada em homenagem a Camilo Mortágua e às cooperativas fundadas pela LUAR. É inspirada, muito especialmente, na experiência de Torre Bela: “Um tractor/ dá que fazer ao suar/ dos que põem na sementeira/ as sementes da maneira/ como as coisas se farão/ e o nome revolução/ bem pode ser atribuído/ a um tractor/ assim usado/ a um braço assim estendido/ “entre o futuro e o passado”.

O modelo imaginado por Camilo Mortágua para Torre Bela era diferente da reforma agrária imposta pelo Partido Comunista nas herdades ocupadas: “Lá, ao contrário das Unidades Colectivas de Produção, ninguém tinha salário, ninguém levantava uma riqueza que não tinha produzido” – recorda o velho revolucionário. Ele abandonou Torre Bela, em 1978, rendido ao fracasso. Camilo Mortágua aprendeu uma lição: “Não é possível fazer vingar uma experiência numa sociedade que caminha noutro sentido”. E Portugal, nessa altura, seguia pelos trilhos do PCP, partido que deu um empurrãozinho para acabar com a experiência de Torre Bela: “Infiltrou lá uns elementos para destabilizar”.

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