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Transplantar uma cabeça perdida

Martel retrata um universo feminino em que os homens são suporte. E não o motor.

12 de abril de 2009 às 00:00

Um acidente na estrada. Uma mulher perde a cabeça. O espectador também. O título remete para filmes de horror/policiais. Mas para fruir desta longa-metragem é preciso esquecer as típicas expectativas desses géneros, sejam investigações ou perseguições. Necessário é colocar-se no ponto de vista de... uma cabeça decapitada.

As emoções estão nas imagens e nos sons, naquilo que se diz mas não se vê e naquilo que se mostra mas não se fala. Ou seja, as expectativas são deslocadas para a relação de ‘Vero’, a protagonista, com o seu próprio mundo em desmoronamento.

Esse desfasa-mento face à realidade é filmado com parcimónia. Frequentemente, emergem desfoques, que contribuem para a sensação de sufoco e de perdição de ‘Vero’ A informação é concentrada em zonas do plano e o espectador identifica parte da acção. Mas não toda. Assim, o público lança suspeitas (suposições psicocinematográficas e não policiais) sobre a protagonista e sua envolvente.

A mulher é protegida pela sua comunidade que vive num mundo à parte dos autóctones, os verdadeiros desfocados da sociedade. Por outro lado, Lucrecia Martel retrata um universo feminino em que os homens são suporte. E não o motor da acção. São as outras mulheres que falam (por ela). ‘A Mulher sem Cabeça’ vive no século XXI e, simultaneamente, num tempo ancestral com vestígios matriarcais.

Mais do que resolver problemas, ‘A Mulher sem Cabeça’ deixa impressões ‘neurodigitais’. Um puzzle impressionista que obriga o espectador a um esforço realista. Martel deposita a sua cabeça (e a de ‘Vero’) no pescoço do espectador, lançando-lhe um desafio-transplante.

E propõe um filme ambíguo que, segundo a cineasta, não gera nada de radical mas oferece um território menos seguro. Até porque não há nada de mais perigoso do que tomar algo como concluído. Sejam relações interpessoais ou regimes políticos.

DOR DE CABEÇA

Os mundos de Martel têm pontos de contacto com os de Cronenberg e Lynch. Em ‘Spider’ (Cronenberg, 2002), o Muro entre realidade e ficção é arrasado.

O CASO DA PERUCA 

Em ‘Vertigo’ (Hitchcock, 1958) troca-se de identidade, na ‘Mulher sem Cabeça’ a identidade (e a cor do cabelo) é gradualmente recuperada. Um anti-Vertigo.

CABEÇA EM ÁGUA 

Martel desenvolve, em ‘A Rapariga Santa’ (2004) um universo feminino singular, inspirado na sua própria experiência religiosa. E com muitas piscinas, como sempre.

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