Hugo Pratt mudou a banda desenhada e transformou-a em literatura. E também transformou a sua vida na vida de Corto Maltese, o aventureiro que todos alguma vez gostaríamos de ter sido. Morreu em agosto de 1995
O avô materno de Hugo Pratt era pedicuro – e poeta que escrevia em dialeto veneziano. O seu primeiro livro levava o belo título ‘A Voz do Coração’ (‘La Vose del Cuor’), publicado em 1922, e o segundo, do mesmo ano, ‘Sob o Céu de Veneza’ (‘Soto ’l Cielo de Venezia’, que lhe trouxe fama). Acontece que, sem este avô, a obra de Hugo Pratt e a figura do seu (e nosso) herói, Corto Maltese, não teriam sido tão extravagantes, tão visionárias ou tão exóticas, para não usar a palavra “maravilhosas”. Em certa medida, Pratt e as aventuras de Corto Maltese devem muito às origens de Eugenio Genero, o avô materno. De certo modo, Genero e Corto Maltese foram contemporâneos – em 1910, aos 23 anos, Corto Maltese entrou no mundo da pirataria, quando Genero cumpria 25. Está na conta. A personagem de papel nasceu em Malta, em La Valletta e o pai era um marinheiro da Cornualha, filho de uma cigana sevilhana e neto (pelo lado paterno) de uma bruxa inglesa de Dollish, ilha de Man. O personagem real, Eugenio Genero, nasceu em Veneza – o pai era cozinheiro num navio do Adriático e a mãe era uma jovem filha de discretos joalheiros locais, cujos antepassados eram judeus sefarditas de Toledo. Os judeus em Veneza nunca tiveram vida fácil mas, pelo negócio, puderam enriquecer. Quando a Corto Maltese, Pratt emprestou-lhe uma formação judaica: primeiro, numa escola rabínica de La Valletta, depois em Córdoba, onde leu o ‘Zohar’, os textos da Cabala e do misticismo judaico – ironia do destino, o rabino seu mestre era, também, amante da mãe de Corto. É aqui que Genero e a personagem de papel se separam: Corto anda de barco em barco, viaja para a China e para a América do Sul, para a Rússia e para Inglaterra – e nunca mais pára. Já o avô materno de Pratt liga-se aos fascistas; o avô materno, que era católico de pai anglo-francês, foi “camisa negra”, soldado da Etiópia ocupada pela Itália e acabou por morrer num campo de concentração aliado em 1942, enquanto Pratt e a mãe foram presos algures entre a Etiópia e a Somália.
Com esta vida, os livros (aqui sim, uso a palavra “maravilhosos”) de Pratt e, sobretudo, a personagem que os acompanha, teriam de ser verdadeiramente extravagantes desde 1967. Um libertário e um combatente do destino, um homem de mil amores que nunca sabe onde tem paradeiro nem sabe onde saciará a sua fome de viagem e aventura, das Ilhas Salomão às Honduras, das Antilhas à Rota da Seda em Samarcanda. O que faz de Hugo Pratt um fenómeno não é apenas ser um pintor, desenhador e retratista que marcou a chamada banda desenhada (quando ainda não existia a designação pateta de “novela gráfica”) – é ser um escritor inteligente, culto, dotadíssimo, cheio de imaginação, capaz de construir todo um género em que nunca foi ultrapassado. Inspirado pela literatura de aventureiros, sobretudo inglesa ou americana (Joseph Conrad ou Jack London, por exemplo), Hugo Pratt foi um geómetra capaz de ligar Corto Maltese a personagens reais ou ficcionais, de os fazer encontrar-se e de recriar ambientes únicos, oníricos, nostálgicos, sensuais.
Pratt elevou a banda desenhada ao lugar da literatura em livros como ‘A Balada do Mar Salgado’ ou ‘Sob o Signo de Capricórnio’, ‘Longínquas Ilhas do Vento’, ‘Tango’, ‘Na Sibéria’ ou ‘Nocturno Berlinense’ (todos os seus livros estão publicados pela Arte de Autor). Esteve várias vezes em Portugal – e morreu há trinta anos, deixando-nos uma obra extraordinária.
Efemérides
Aretha Franklin (1942-2018) morreu há sete anos. Mas a voz permanece.
Há dois duetos de Aretha Franklin que parecem – e são – inesquecíveis: uma versão de “What Now My Love”, com Frank Sinatra, e “Don’t Waste Your Time”, com Mary J. Blige (também há um com Luther Vandross, que se ). Explico: há duetos em que uma das vozes explica à outra como se canta; acontece com Bob Dylan vencido por Johnny Cash, ou de Bono destroçado pela Mary J. Blige. Aretha venceu todos os seus duelos, como se cantasse “Respect” a plenos pulmões, mesmo em temas românticos e suaves. Toda a sua música é um dueto. Há canções, como “Without the One You Love” ou a versão de “What a Difference a Day Made”, que não têm a ver com as suas três ou quatro mais conhecidas, “Respect” à cabeça, logo seguida de “I Never Loved A Man”, ambas um prodígio de voz, harmonia, ironia, inflexões que tanto lembram o jazz como abrem caminho pelos palcos de qualquer género. Essas são as duas faces de Aretha Franklin: doce (em “I Wish I Didn’t Love You So”), impagável e imponente, como em “Respect”, que ela – filha de um pregador do Tennessee – não deixou de cantar ao apresentar-se às portas do céu a 16 de agosto, carregada de prémios e aplausos, lá, sobre os telhados de Detroit.
“A liberdade é sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.”
George Orwell, ‘A Quinta dos Animais’, 1945.
‘A Quinta dos Animais’, ou ‘O Triunfo dos Porcos’ em tradução mais antiga, de George Orwell (1903-1950), é uma violenta sátira ao comunismo soviético e um dos livros mais marcantes do século XX, a par do outro livro do autor ‘1984’. Publicado há 80 anos.
Leon Trotsky (1879-1940) morreu há 85 anos. Aliás, foi assassinado no México a mando de Estaline, de quem, na URSS, foi adversário letal depois da morte de Lenine. “Inimigo do Povo”, o seu destino estava escrito. Ao contrário não teria sido diferente.
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