É padre no interior do País, mas arranjou mais uma função: ouvir as pessoas através da internet
Há um confessionário que tem a porta aberta independentemente da hora da missa. Falta-lhe o suporte de madeira, o banco onde se ajoelham os fiéis, o silêncio da igreja. Mas não carece de visitas - o contador soma quase 300 mil entradas neste confessionário com sede na internet - nem de um sacerdote atento às confissões dos cibernautas que o procuram.
Este padre, de 38 anos, não reza só na internet, no blogue eupadre.blogspot.com - é responsável por uma mão-cheia de paróquias no interior do País e veste a batina há mais de uma década. Prefere o anonimato "para que as pessoas se sintam mais à-vontade" nos e-mails que trocam, mas tem a bênção do bispo da sua diocese - que ele mesmo pediu - para seguir com a empreitada. "Dei conhecimento ao meu bispo e ele disse para eu continuar este trabalho de evangelização".
O blogue começou por ser, em 2003, um espaço "onde deixava fluir os sentimentos, a forma de entender Deus e a Igreja". Em pouco tempo transcendeu o objectivo inicial: "As pessoas começaram a usá-lo como um confessionário também para elas, a mandar e-mails a pedir auxílio e conselhos espirituais, a contar detalhadamente o que as preocupava". O facto de ser virtual não retira empenho a uns ou a outros. "Os penitentes confiam em mim e eu faço o que posso para os ajudar. Respondo a todos".
PADRE, VOLTE
Depois de um interregno de um ano, o blogue renasceu a 25 de Dezembro de 2005, data que simboliza o nascimento para os católicos - dando ouvidos aos insistentes pedidos dos seguidores deste confessionário, que lhe inundaram a caixa de e-mails: Padre, volte. E ele voltou a escrever. ‘Falou, falou, falou. Era o que precisava a senhora de lenço ao pescoço. Doutorada. Culta. Utilizava expressões medidas. Faz parte daquele grupo de pessoas que usa a confissão, não porque tenham pecados para confessar, graça para obter, perdão para alcançar, mas porque não têm com quem falar verdadeiramente de si, sem esconder e mentir. Faz parte daquela sociedade que tem tempo para tudo menos para as pessoas', escreveu em Março.
"Pego na vida concreta das pessoas, no que vejo e no que vivo e simplifico. Um pouco como as parábolas de Jesus. Com isso medito, assimilo e fico com uma ideia mais clara. É a minha forma de rezar". Escreveu sobre a senhora do lenço mas também sobre a ‘senhora do xaile. Falava extremamente alto, de forma que a dez metros seria possível perceber cada palavra que proferia. Pedi três vezes para baixar o volume da voz, mas possuía, supostamente, uma audição fraca (...). Decidi sair do confessionário e abordar a senhora cara-a-cara (...), dei a volta, aproximei-me dela. Toquei-lhe no ombro. Ela virou-se. Olhou-me com ar mais zangado do que espantado e falou num tom de voz ainda mais elevado: Tenha paciência. Espere pela sua vez, que agora estou eu a confessar-me'.
O confessionário é cego mas não é surdo, por isso o padre armazena conversas que transpõe para o seu espaço na internet - com o objectivo de chegar aos que o lêem.
ATÉ SONDAGENS
Mas não só de fragmentos de confissões se escreve este blogue. Também há sondagens - a última não podia ser mais actual: ‘Vais participar na visita do Papa?' E os leitores respondem, participam, não se esquivam de entrar, independentemente da convicção ou da hora tardia. "Também chegam ao meu blogue alguns ateus mas principalmente evangélicos, que têm uma presença muito activa na internet".
Uma coisa o padre não sabe: Se converteu alguém. Lembra-se, sim, de quando evitou uma desgraça. "Percebi pelo e-mail que a pessoa estava à beira do suicídio e identifiquei-me, disse onde estava, pedi para não o fazer". Porque o anonimato é opção mas não é fundamentalista - "se a pessoa precisar mais do que de um conselho eu vou ter com quem necessita".
Quem se fica pelo correio electrónico não deixa de agradecer os conselhos do sacerdote. "Algumas pedem auxílio continuado, estamos sempre em contacto". Não lhes receita pais-nossos - mas esperança. Real, não virtual.
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