page view

Um romântico paradoxal

As observações de Houellebecq sobre a vacuidade do mundo contemporâneo continuam a gelar até o mais céptico.

14 de julho de 2019 às 01:30

Em maio de 68, Paris amanheceu com uma proposta radical: se os militantes subvertessem as instituições e as leis da República, encontrariam a praia por baixo das pedras da calçada.

A ideia é poética, embora não original: Rousseau, dois séculos antes, já tinha sugerido   algo   de   semelhante   ao atribuir à "civilização" a raiz dos nossos males.

A liberdade, para o genebrino e para os ‘soixante-huitards’, seria o prémio final para quando os homens quebrassem as grilhetas que os aprisionavam.

Michel Houellebecq,   um   dos mais   importantes escritores do nosso tempo, discorda. E defende, romance após romance, que a liberdade   radical é um caminho destrutivo e autodestrutivo.

O personagem de ‘Serotonina’ ilustra o ponto: chama-se Florent-Claude Labrouste, tem 46 anos e, como normalmente acontece nos ‘alter-egos’ de Houellebecq, vai naufragando aos nossos olhos. Pelo menos, até encontrar dois colírios para os seus males.

O primeiro é um antidepressivo que lhe permite "manter o desespero num nível aceitável" (bela frase), ainda que privando-o dos prazeres da líbido.

A segunda terapia é desaparecer do convívio social. Esse processo de apagamento permitirá a Florent-Claude vislumbrar a fragmentação social e económica do país profundo (uma antecipação do movimento dos "coletes   amarelos"); mas também contemplar a sua própria fragmentação pessoal, determinada pela ilusão das "infinitas possibilidades" que  a  vida moderna lhe prometeu – e que apenas levaram ao "endurecimento do coração".

A prosa de Houellebecq continua soberba; as suas observações sobre a vacuidade do mundo contemporâneo continuam a gelar até um céptico como eu; e o humor, que só por eufemismo podemos classificar de "transgressivo", não é aconselhável aos beatos que gostam de andar por aí a sinalizar a respectiva virtude.

Mas o essencial, por paradoxal que pareça, está no romantismo de Houellebecq, entendendo-se pelo termo uma nostalgia profunda pela "santidade   dos   afectos   do   coração", como diria John Keats.

Só mais uma coisa: a tradução, de Valério Romão, é excepcional.

Série

Para rir e para tremer

Dvd

Bizarro ensaio filosófico

O Urso de Berlim foi muito bem entregue a este bizarro ensaio filosófico de Nadav Lapid.

Livro

Autópsia definitiva

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8