As observações de Houellebecq sobre a vacuidade do mundo contemporâneo continuam a gelar até o mais céptico.
Em maio de 68, Paris amanheceu com uma proposta radical: se os militantes subvertessem as instituições e as leis da República, encontrariam a praia por baixo das pedras da calçada.
A ideia é poética, embora não original: Rousseau, dois séculos antes, já tinha sugerido algo de semelhante ao atribuir à "civilização" a raiz dos nossos males.
A liberdade, para o genebrino e para os ‘soixante-huitards’, seria o prémio final para quando os homens quebrassem as grilhetas que os aprisionavam.
Michel Houellebecq, um dos mais importantes escritores do nosso tempo, discorda. E defende, romance após romance, que a liberdade radical é um caminho destrutivo e autodestrutivo.
O personagem de ‘Serotonina’ ilustra o ponto: chama-se Florent-Claude Labrouste, tem 46 anos e, como normalmente acontece nos ‘alter-egos’ de Houellebecq, vai naufragando aos nossos olhos. Pelo menos, até encontrar dois colírios para os seus males.
O primeiro é um antidepressivo que lhe permite "manter o desespero num nível aceitável" (bela frase), ainda que privando-o dos prazeres da líbido.
A segunda terapia é desaparecer do convívio social. Esse processo de apagamento permitirá a Florent-Claude vislumbrar a fragmentação social e económica do país profundo (uma antecipação do movimento dos "coletes amarelos"); mas também contemplar a sua própria fragmentação pessoal, determinada pela ilusão das "infinitas possibilidades" que a vida moderna lhe prometeu – e que apenas levaram ao "endurecimento do coração".
A prosa de Houellebecq continua soberba; as suas observações sobre a vacuidade do mundo contemporâneo continuam a gelar até um céptico como eu; e o humor, que só por eufemismo podemos classificar de "transgressivo", não é aconselhável aos beatos que gostam de andar por aí a sinalizar a respectiva virtude.
Mas o essencial, por paradoxal que pareça, está no romantismo de Houellebecq, entendendo-se pelo termo uma nostalgia profunda pela "santidade dos afectos do coração", como diria John Keats.
Só mais uma coisa: a tradução, de Valério Romão, é excepcional.
Série Para rir e para tremer
Dvd Bizarro ensaio filosófico
O Urso de Berlim foi muito bem entregue a este bizarro ensaio filosófico de Nadav Lapid.
Livro
Autópsia definitiva
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