O ‘Fatias de Cá’, em Tomar, tem programação regular há quase 40 anos, graças à paixão de muitos amadores.
São fatias de cultura e dedicação que o grupo de Teatro Fatias de Cá serve a cada espetáculo. Em palco, juntam-se "quase" profissionais e amadores. Às vezes mais de cem, com vidas que dificilmente se imaginaram a passar pela emoção dos aplausos. Um deles é António Lourenço dos Santos, 61 anos, ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação do governo de Durão Barroso, empresário e possível futuro candidato municipal. "Antes só tinha feito teatro no liceu, mas até aí fui reprovado no casting", brinca quando lhe perguntam as origens do hobby.
Depois veio a política, que durante mais de 30 anos o fez correr o País e o Mundo. Viveu em vários países, até que regressou às raízes, em Tomar. Por lá, reencontrou Carlos Carvalheira, que o desafiou para um papel. Tinha então 56 anos, mas não hesitou. "Porque era um desafio extraordinário: ter de subir a um palco, interpretar uma personagem, confrontar-me comigo e com o público. Sempre tive uma enorme exposição pública quando estava no governo, mas aqui é bem pior. Fica-se mais nervoso! Na Assembleia da República, era eu que tinha o jogo todo na mão, mas aqui não", confessa.
Não hesita também em dizer que o teatro lhe "mudou a vida", numa altura em que não esperava que tal coisa pudesse acontecer. "Não é fácil. Aos 60 anos já não se tem a mesma agilidade. Mas o convívio com os colegas compensa e resolve tudo. Sentimos que não podemos falhar por eles", justifica.
António tem filhas, que vivem no estrangeiro mas que já vieram propositadamente ver o pai nas estreias. "E adoram!", congratula-se.
Já o filho de Joana Jacob, 41 anos, estreou-se com o Fatias com apenas um ano. Hoje tem 11 e já participou em várias peças, seguindo as pisadas da mãe, que chegou ao grupo na adolescência, para participar numa versão de ‘A Flauta Mágica’. Foi professora. Às vezes ainda é, quando há colocação ou vagas para as AEC no ensino público. Pelo meio faz outras coisas no âmbito da animação cultural. Mas do teatro nunca saiu. "Foi mais o processo em si que me apaixonou do que o público. Ainda hoje é assim: uma construção muito intensa, às vezes um bocadinho sofrida, mas no final, quando tudo bate certo, sabe muito bem". Garante. Não é apenas atriz. Trata também da contabilidade, da organização e se for preciso tira cafés.
Humberto, o narrador
Humberto Dinis Machado é o mais velho do grupo. Oitenta e seis anos de vida, a maioria deles sem imaginar que um dia viria a ser ator. No novo espetáculo do grupo, ‘Viriato’, é o narrador, estatuto conferido pela sua voz e idade.
Trabalhou num armazém, foi desenhador, passou por África nos anos 90, até que assentou numa aldeia perto de Tomar e não muito longe do próprio castelo de Almourol, cenário da peça.
"Na nossa vida andamos sempre à procura de fazer aquilo que gostamos e eu sempre gostei de teatro, mas nunca tinha feito. Como era amigo do Carlos Carvalheiro (o encenador), um dia ele desafiou-me… e fui ficando", conta. Não se casou, não teve filhos e tem saudades dos tempos em que tinha namorada. Por isso, agora que tem quase todo o tempo do Mundo para o teatro, é quase sempre um dos protagonistas. O papel dos seus sonhos era o de Dom Quixote, que ainda não chegou ao seu currículo, mas já fez muitos outros que lhe valeram rasgados elogios do público e dos colegas, como em ‘O Nome da Rosa’ ou ‘Rei Lear’.
Alexandra Carvalho é uma das atrizes principais do elenco. Agora faz de Tangina, em ‘Viriato’, peça que o grupo tem em cena este verão em Almourol. Mas na verdade a antropóloga e hipnoterapeuta nunca fez propriamente planos para ser atriz. Até que um certo dia, há 12 anos, foi ver um espetáculo do Fatias de Cá e apaixonou-se perdidamente pela aquela possibilidade inovadora que a arte de Talma lhe propunha. "Foi a peça ‘O Nome da Rosa’, apresentada no Convento de Cristo. Foi mágico, místico. Percebi que havia outra forma de contar as histórias, de usar os espaços, de chegar ao outro, de refletir", recorda.
Alexandra vive em Lisboa, mas sempre que é preciso faz os cento e tal quilómetros que a separam de Tomar, terra mãe do grupo, para ensaiar. Ou para ajudar na contabilidade. Ou até para dar uma mãozinha na cozinha, já que os espetáculos do grupo incluem sempre jantar – uma oportunidade única para o público conviver com os artistas. "Pela experiência, pela possibilidade de aprender, de chegar ao outro, de nos unirmos em torno do objetivo maior que é contar a história. E no fundo o que é que distingue um profissional de um amador? É viver do teatro?", questiona.
Habituada a trabalhar com pessoas e emoções, Alexandra vê no teatro uma ferramenta com múltiplas utilidades. "Fazer teatro é ganhar mundo. Quando nos colocamos na pele do outro é impossível ficar-lhe indiferente. Um bom exemplo é quando se interpreta um mau da fita. Leva-nos a repensar e relativizar as nossas próprias convicções. Condena-se sempre os maus atos, claro, mas o nosso ajuizamento do outro muda. Fica mais difícil condenar, julgar. O teatro dá agilidade emocional", frisa. Sobretudo quando se é amador: "Quem faz os espetáculos serve os outros, mas também se serve. É uma troca. As pessoas emprestam o melhor de si, mesmo sem estarem treinadas, pois sabem que delas também depende o grupo".
O ano de 1979
Os papéis são quase sempre adaptados ao perfil de cada um e ao que faz melhor, explica, por seu turno o encenador, Carlos Carvalheiro. Começou a representar no liceu, passou pelo teatro universitário, fez engenharia, acabou professor. Mas o que sempre quis foi o teatro.
Criou o grupo em 1979. "Tomar era uma cidade muito feudal, muito hermética em termos culturais e quis fazer uma coisa que fosse uma pedrada no charco", diz. E pedras foram coisa que não faltou no seu caminho. O grupo legalizou-se em 1982 como associação cultural vocacionada para o teatro.
Mas só é assumido pelo Ministério da Cultura como entidade com atividade teatral de âmbito profissional em 1998. Pelo meio andou alguns anos (de 82 a 86) sem tecto para ensaiar. Recebeu o estatuto de utilidade pública em 2001 mas entre 1999 e 2003 ganhou asas e voou: implementou núcleos na Barquinha, Chamusca, Coimbra, Constância, Lisboa, Ourém e Torres Novas – assumindo-os como centros de produção teatral.
Daqui resultaram espetáculos em locais não convencionais, como a Destilaria da Brogueira, Torres Novas (‘Corto Maltese’), Castelo de Ourém (‘A Tempestade’), Museu Machado de Castro, Coimbra (‘Astérix no Criptopórtico’), os teatros no rio Tejo de Tancos e Arrepiado (‘Alcácer Quibir’) ou a Quinta das Lágrimas (‘Inês’).
‘Viriato’, baseado no livro ‘A voz dos Deuses’, de João de Aguiar, é o espetáculo agora em cena. A adaptação foi feita pelo encenador e ator Carlos Carvalheiro (diretor artístico da companhia) e por Filomena Oliveira. Nele participam cerca de 100 atores e, como há cenas com cargas de cavalaria, também foram ‘contratados’ 20 cavalos.
A peça, que se representa com o Tejo e o Castelo de Almourol como cenário, tem a duração de três horas, porque inclui jantar, e é constituída por duas partes: a primeira parte, antes do pôr do sol, altura em que acontece o casamento de Viriato com Tangina. A segunda parte decorre à noite, e no intervalo o público é convidado a participar no banquete de casamento de Viriato. "O teatro não vai até às pessoas, elas é que têm de vir. E aqui até têm de andar de um lado para o outro e participar", brinca Carvalheiro. E é um banquete bem à medida da época dos romanos, com carne assada no pão, vinho e fruta da época, tudo servido pelos atores e participantes. Até porque no Fatias de Cá o lema é simples: ‘Não resistir nem a uma ideia nova nem a um vinho velho’.
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