Todo o Marrocos citadino é destino de eterno retorno para quem consiga pairar ‘au-dessus de la mêlée’ que é como quem diz ‘acima da confusão’. Na casa dos árabes, ou seja, de Tânger à Turquia, o caos é uma forma de harmonia sem conflito. Como se outro cenário, do tipo suíço, por exemplo, fosse um presságio de loucura, um convite ao desvario. Comecemos por Agadir, o destino balnear da burguesia berbere (também ‘chez les’ árabes há destas coisas malsãs).
Vista de raspão, a cidade tem ares de Albufeira no pino do Verão, numa variante menos camone e mais moscovita (os novos russos já deram a esta costa). Porém, ao demorarmos o olhar, vemos mais qualquer coisa do que tovariches a emborcar absintos ‘a la menthe’ e a exibirem as tatuagens do camarada cifrão enquanto sacam compulsivamente dos dirhams (e falemos já a seguir dos ditames dos dirhams).
Vemos uma paisagem feliz de estrangeiros de variada procedência unidos pela adoração ao sol e ao ritual da comida e da bebida – a maioria livre das punições do Ramadão. Vemos uma praia a perder de vista que o mais certo é ir dali ao Cabo da Boa Esperança e cuja única tormenta para um viajante incauto serão os futebóis dos discípulos de Zidane. Nada como uma bolada na testa para dissuadir um viajante a uma ida ao areal o que neste caso é um mal menor. A praia quilométrica e banhada por um Atlântico turvo é apenas um dez avos do manancial de apelos de Agadir.
A nós, falou-nos mais ao coração a subida ao promontório do antigo Kasbagh, que apesar de devastado por terramotos e turistas em sobressalto ainda é o posto de vigia e observação mais adequado. E lá do alto da gávea, entre camelos em pousio e tapetes de sarja de aladinos em meditação, a panorâmica leva-nos da pesca à poesia sufi, da guerra da petinga ao Cântico dos Cânticos.
Um Mohamed bigodudo garante-nos que o porto de Agadir, embora atulhado de cargueiros ferrugentos e balsas carcomidas, é um dos mais prolíficos de África, e gaba-se de terem dado o bigode aos algarvios na guerra da petinga. Vamos acreditar que sim, que aquela frota de marujos de doca seca, de ar ronceiro e aposentado, ainda dá lições de marear aos algarvios de Tavira. Mas não é de compita que se fala agora. Fala-se da arte de lançar as redes e a julgar pelo que aporta às mesas dos restaurantes da doca como o Le Port, os marroquinos não perderam o jeito de encantar sardinhas e camarões desde a batalha de Alcácer-Quibir.
Entrego-me pois a um sargo assado na brasa e a um vinho de Meknès em nome do defunto Sebastião que os indígenas dizem ter fugido com um mouro bem apessoado, um encantador de serpentes de Taroudant ou coisa parecida. Taroudant, uma cidadezinha catita a duas horas de Agadir, é outra das alternativas para quem vá de passeio a Agadir. Trata-se de uma das cidades mais antigas e preservadas do país e os contrafortes da Medina estão lá para provar da justa fama.
Os programas das agências costumam incluir a adenda do giro a Taroudant pelo que não tem que se preocupar com estratégias de locomoção. E uma vez na cidade, perder-se nas ruas caóticas e incensadas a especiarias e caca de burro é a melhor maneira de entrar no espírito de comarca exótica. A ida ao souk, o mercado tradicional onde se vende de tudo, é inevitável. Todo o Marrocos é na verdade um souk, segundo o princípio árabe de que tudo está à venda ou é passível de negociação. A regra do regateio (o ditame do dirham) é descer a parada no mínimo para metade do que lhe é pedido. Ou então, se quiser deixar um marroquino em estado de anabiose, ofereça o dobro do que ele lhe pede.
O mais provável é este ficar de bigodes alçados ao tecto da tenda e premiar-lhe a ousadia com uma mélange (miscelânea) de chás invariavelmente magníficos e um pires de tâmaras (e talvez umas passas de pólen num narguilé). Depois, já a convalescer da tripa forrada de estímulos pagãos, ouvirá o charmoso árabe contar-lhe a sua vida desde pequenino ou o rescaldo do serão de véspera. Pensará então para consigo: afinal estes tipos com cara de perigosos meliantes não fazem mal a uma mosca.
COMO IR?
Marrocos é o país do Magreb mais acessível a quem viaja a partir da Península Ibérica. É possível organizar uma viagem em viatura própria, não necessariamente um todo-o-terreno, embora o acesso a certas regiões aconselhe um veículo desse tipo. Os viajantes que optem pela via terrestre podem transportar o veículo para África num dos ‘ferries’ que ligam Algeciras, no Sul de Espanha, a Ceuta ou a Tânger. Ao tratar das formalidades de fronteira, é necessário regularizar no local o seguro automóvel.
Outra opção é a viagem aérea através da Royal Air Maroc. Em qualquer uma destas duas cidades é possível alugar uma viatura. As principais empresas internacionais de rent-a-car têm delegações nas principais cidades de Marrocos. Há estações de serviço com gasolina sem chumbo por toda a parte, mesmo no Sul. Convém, contudo, circular sempre com o depósito cheio. Os comboios, de tecnologia belga, são rápidos e confortáveis.
ONDE FICAR?
Fora de épocas especiais como a Páscoa, é fácil encontrar alojamento. Os preços são substancialmente inferiores aos praticados na Europa. Há centenas de hotéis e pousadas. Os hotéis junto à praia têm a vantagem de poder ir dar um mergulho antes de começarem as partidas de futebol. Gostámos e recomendamos o Khisia.
GASTRONOMIA
A gastronomia marroquina baseia-se essencialmente no couscous, cozinhado com carne de borrego ou vaca, nas tajines, um guisado em pote de barro de carne ou de peixe (no Litoral) e em espetadas de carne (brochettes). Há sopas, como a harira, um caldo de tomate e coentros ligeiramente picante.
DINHEIRO
A moeda local é o Dirham que vale actualmente a cerca de um euro. Nas principais cidades, nomeadamente em Mèknes, Marraquexe e Ouarzazate, há máquinas para levantamento automático. Os melhores estabelecimentos hoteleiros e restaurantes aceitam pagamento com cartões de crédito.
INFORMAÇÕES ÚTEIS
Para os cidadãos da União Europeia não é necessário visto para Marrocos se a estadia for inferior a três meses. Não é necessário nenhum tipo de vacina, embora se recomende algum cuidado no consumo de alimentos nas ruas. Aconselha-se também o consumo de água mineral engarrafada. Nas cidades fala-se, geralmente, árabe e francês. No interior e nas pequenas aldeias, o berbere é a língua mais falada.
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