<span lang="PT">JJ Cale morreu na semana passada. Era um génio, um talento único</span>
De facto, "Magnolia" é uma das grandes canções da minha vida, não porque esteja ligada a algum momento especial, mas porque é uma experiência de amor perdido. Desse álbum primitivo saltaram para a lista outras canções, como a inevitável "Call me the Breeze" (certamente a conheceram primeiro em versões dos Lynyrd Skynyrd ou de Johnny Cash), a indispensável "After Midnight" (certamente que só conhecem a versão de Eric Clapton, que inclusive a gravou antes do seu verdadeiro autor - ou quando muito uma atuação dos dois, diabólica) ou "River Runs Deep" e "Bringing It Back". Mas nada como "Magnolia".
O encantamento durou. Durou muito e atravessou todas as estações do ano de muitos anos. Continuou com "Cocaine", "Devil in Disguise", "Anyway the Wind Blows" ou "I'll Make Love to You Anytime", uma das grandes canções de John Weldon Cale, aliás J. J. Cale, aliás JJ Cale - onde o ritmo inicial anuncia uma corrida pelas estradas poeirentas de Oklahoma, logo desfeita com aquela nunca disfarçada ironia da sua guitarra, que (como deve) manda travar a imaginação e o delírio.
Falemos, pois da sua guitarra: não há outra igual. Neil Young juntava-lhe a de Jimi Hendrix, mas Cale tinha duas vantagens suplementares que andavam de braço dado com a guitarra elétrica: uma voz que nunca se esforçava para ultrapassar o tom, como se cantasse sempre a mesma canção (uma procura da perfeição e da "segunda linha"), e uma busca do laconismo, da discrição, da passagem sem levantar suspeitas (mesmo em "Cocaine", mesmo aí). E desse emparelhamento resultava que JJ Cale nunca abandonou a terra natal nem os cenários dessa poeira das estradas em redor de Tulsa (mesmo as exceções, como "Downtown L.A." - de ‘Grasshopper', de 1982 - ou algumas das canções do álbum ‘Travel Log', de 1990, mantêm o seu ar de imigrado).
As fotografias não nos enganam, nem o seu rosto sem fadiga - só com drogas, álcool, música, leituras afáveis, amizades duradouras e uma indiferença feliz e amável em relação à gente aborrecida que o acusava de ser um depredador de blues, de country, de rock ou de seja o que for. Eles tinham razão (à parte a inveja, claro): JJ Cale desprezava o purismo dos géneros; as únicas coisas que valia a pena manter íntegras eram a voz e a guitarra e, mesmo aí, ele preferia a guitarra, como o prova aquela experiência de quase-música-de-ambiente que é "Cloudy day". Os géneros passaram por JJ Cale e foram vencidos; ele atravessava as trincheiras e as muralhas munido dessa artilharia invencível: o desejo de não ser notado, a honestidade que lhe garantiam a solidão, o amor próprio, o tempo para compor as suas canções, o espaço das grandes planícies e das vedações dos bosques onde a sua música ainda hoje se espalha, pelo menos em sonhos.
E, portanto, "Magnolia", desse primeiro álbum, ‘Naturally' - que emparceira com "My Baby And Me". Se houvesse uma canção, seria "Magnolia". Tem tudo: a gravação, a fogo, dos sinais do ‘Tulsa style' (de que é o primeiro e excelente príncipe); o talento maior do ‘rockabilly' que se transforma em tdoso os sons; a marca de água dos grandes momentos; a ventania que agita um campo de árvores abandonadas; uma dança tão desesperada como lenta, enlaçada com a noite, junto do rio. É uma grande, grande canção de amor - sem esforço nem falso pudor literário (que JJ Cale nunca manifestou), sem fingimento nem dor, sem estilo. E este "sem estilo" é fundamental: é a sua grande marca, a sua grande travessia, a sua genialidade, a sua lágrima invisível. Quando se falava do seu estilo ‘laid back', era disso que se falava: de uma lágrima invisível.
Música Rodrigo Leão
A semana começa mal; na terça há um cantor de sucesso que vai ao Coliseu e cujas letras têm versos como ‘tiririroririri, picuípicuí' e semelhantes. Fujo para o Alto Minho, e Rodrigo Leão está na sexta em Viana do Castelo. Ora, "se o meu sangue não me engana/como engana a fantasia/havemos de ir a Viana" ver o Rodrigo.
Local Centro Cultural de Viana do Castelo
Data: 9 de Agosto, 22h00
Exposição Joana Vasconcelos
Desenganem-se os puristas do regime: a exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda é um dos grandes momentos do ano. Depois da sua passagem por Versailles e Veneza, é uma pena perder a exposição, que já ultrapassou as 150 mil visitas. E sim, tremam de inveja, bertoldinhos e almas sensíveis. Há mais mundos.
Local: Palácio Nacional da Ajuda, LisboaHorário: 10h00/19h00 exceto quartas. Sábados até às 21h00
Livro ‘A Última Canção da Noite'
Francisco Camacho é um narrador inteligente porque se está nas tintas para a "literatura". Depois de ‘Niassa' (2007), um ‘roadbook' luso-moçambicano, Camacho mostra que escreve com razoabilidade (um dom), que imagina histórias que já aconteceram e que continuam a acontecer (é preciso talento) - e tem música, música com paixão.
Editora: Dom Quixote
Fugir de: Indicações meteorológicas
Andamos com a meteorologia na internet do computador, no jornal, no iPhone, na rádio - e eu proponho que encolhamos os ombros. Chove? Vamos para a praia. Faz frio? Tudo em biquíni. Neva no Algarve? Atolemo-
-nos em bronzeador. O Planeta arrefece ? Tudo em manga curta nas noites do Minho. Vem aí um tufão? Roupa estendida nos varais. Resistir ao tempo é isto: fugir das indicações meteorológicas.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.