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Uma magnólia para JJ Cale

<span lang="PT">JJ Cale morreu na semana passada. Era um génio, um talento único</span>

04 de agosto de 2013 às 15:00

De facto, "Magnolia" é uma das grandes canções da minha vida, não porque esteja ligada a algum momento especial, mas porque é uma experiência de amor perdido. Desse álbum primitivo saltaram para a lista outras canções, como a inevitável "Call me the Breeze" (certamente a conheceram primeiro em versões dos Lynyrd Skynyrd ou de Johnny Cash), a indispensável "After Midnight" (certamente que só conhecem a versão de Eric Clapton, que inclusive a gravou antes do seu verdadeiro autor - ou quando muito uma atuação dos dois, diabólica) ou "River Runs Deep" e "Bringing It Back". Mas nada como "Magnolia".

O encantamento durou. Durou muito e atravessou todas as estações do ano de muitos anos. Continuou com "Cocaine", "Devil in Disguise", "Anyway the Wind Blows" ou "I'll Make Love to You Anytime", uma das grandes canções de John Weldon Cale, aliás J. J. Cale, aliás JJ Cale - onde o ritmo inicial anuncia uma corrida pelas estradas poeirentas de Oklahoma, logo desfeita com aquela nunca disfarçada ironia da sua guitarra, que (como deve) manda travar a imaginação e o delírio.

Falemos, pois da sua guitarra: não há outra igual. Neil Young juntava-lhe a de Jimi Hendrix, mas Cale tinha duas vantagens suplementares que andavam de braço dado com a guitarra elétrica: uma voz que nunca se esforçava para ultrapassar o tom, como se cantasse sempre a mesma canção (uma procura da perfeição e da "segunda linha"), e uma busca do laconismo, da discrição, da passagem sem levantar suspeitas (mesmo em "Cocaine", mesmo aí). E desse emparelhamento resultava que JJ Cale nunca abandonou a terra natal nem os cenários dessa poeira das estradas em redor de Tulsa (mesmo as exceções, como "Downtown L.A." - de ‘Grasshopper', de 1982 - ou algumas das canções do álbum ‘Travel Log', de 1990, mantêm o seu ar de imigrado).

As fotografias não nos enganam, nem o seu rosto sem fadiga - só com drogas, álcool, música, leituras afáveis, amizades duradouras e uma indiferença feliz e amável em relação à gente aborrecida que o acusava de ser um depredador de blues, de country, de rock ou de seja o que for. Eles tinham razão (à parte a inveja, claro): JJ Cale desprezava o purismo dos géneros; as únicas coisas que valia a pena manter íntegras eram a voz e a guitarra e, mesmo aí, ele preferia a guitarra, como o prova aquela experiência de quase-música-de-ambiente que é "Cloudy day". Os géneros passaram por JJ Cale e foram vencidos; ele atravessava as trincheiras e as muralhas munido dessa artilharia invencível: o desejo de não ser notado, a honestidade que lhe garantiam a solidão, o amor próprio, o tempo para compor as suas canções, o espaço das grandes planícies e das vedações dos bosques onde a sua música ainda hoje se espalha, pelo menos em sonhos.

E, portanto, "Magnolia", desse primeiro álbum, ‘Naturally' - que emparceira com "My Baby And Me". Se houvesse uma canção, seria "Magnolia". Tem tudo: a gravação, a fogo, dos sinais do ‘Tulsa style' (de que é o primeiro e excelente príncipe); o talento maior do ‘rockabilly' que se transforma em tdoso os sons; a marca de água dos grandes momentos; a ventania que agita um campo de árvores abandonadas; uma dança tão desesperada como lenta, enlaçada com a noite, junto do rio. É uma grande, grande canção de amor - sem esforço nem falso pudor literário (que JJ Cale nunca manifestou), sem fingimento nem dor, sem estilo. E este "sem estilo" é fundamental: é a sua grande marca, a sua grande travessia, a sua genialidade, a sua lágrima invisível. Quando se falava do seu estilo ‘laid back', era disso que se falava: de uma lágrima invisível.

Música

Rodrigo Leão

A semana começa mal; na terça há um cantor de sucesso que vai ao Coliseu e cujas letras têm versos como ‘tiririroririri, picuípicuí' e semelhantes. Fujo para o Alto Minho, e Rodrigo Leão está na sexta em Viana do Castelo. Ora, "se o meu sangue não me engana/como engana a fantasia/havemos de ir a Viana" ver o Rodrigo.

Local Centro Cultural de Viana do Castelo

Data: 9 de Agosto, 22h00

Exposição

Joana Vasconcelos

Desenganem-se os puristas do regime: a exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda é um dos grandes momentos do ano. Depois da sua passagem por Versailles e Veneza, é uma pena perder a exposição, que já ultrapassou as 150 mil visitas. E sim, tremam de inveja, bertoldinhos e almas sensíveis. Há mais mundos.

Local: Palácio Nacional da Ajuda, LisboaHorário: 10h00/19h00 exceto quartas. Sábados até às 21h00

Livro

‘A Última Canção da Noite'

Francisco Camacho é um narrador inteligente porque se está nas tintas para a "literatura". Depois de ‘Niassa' (2007), um ‘roadbook' luso-moçambicano, Camacho mostra que escreve com razoabilidade (um dom), que imagina histórias que já aconteceram e que continuam a acontecer (é preciso talento) - e tem música, música com paixão.

Editora: Dom Quixote

Fugir de:

Indicações meteorológicas

Andamos com a meteorologia na internet do computador, no jornal, no iPhone, na rádio - e eu proponho que encolhamos os ombros. Chove? Vamos para a praia. Faz frio? Tudo em biquíni. Neva no Algarve? Atolemo-

-nos em bronzeador. O Planeta arrefece ? Tudo em manga curta nas noites do Minho. Vem aí um tufão? Roupa estendida nos varais. Resistir ao tempo é isto: fugir das indicações meteorológicas.

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