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A música portuguesa atravessa grande frenesim produtivo, o que parece dar razão aos cínicos que postulam que as crises trazem bons incentivos
Dizem que as épocas de crise são propícias à criatividade e à produção artística. Não subscrevo tal entendimento, mas concedo que este início de 2014 aparenta dar razão a quem defende tão cínico postulado. De facto, parece que assistimos a uma vaga de frenesim na música portuguesa como há muito não acontecia. E com o primeiro trimestre do ano ainda mal completo, já se contam uma mão cheia de discos a ouvir com atenção e a juntar ao que de melhor temos para mostrar.
Capitão & co.
É o caso, talvez o mais surpreendente, do novo álbum dos Capitão Fausto, ‘Pesar o Sol’: é música densa, arrebatada, muito na linha de uns Tame Impala, é certo, mas bem feita, abrindo dimensões novas a um grupo que, depois da ligeireza pop de ‘Gazela’, o disco de estreia saído em 2011, parecia não ter mais que cançonetas radiofónicas e orelhudas. É também o caso do segundo álbum dos You Can’t Win, Charlie Brown, ‘Diffraction / Refraction’ – embora menos surpreendente, dada a continuidade evidente em relação a ‘Chromatic’, de 2011 –, onde o seu neo-folk feito de simplicidade electrónica continua a ser um embalo para os sentidos. Mais complicada era a tarefa de The Legendary Tigerman, depois da obra-prima que foi ‘Femina’, saído já em 2009, e que consagrou o homem tigre junto do grande público: suceder à diversidade e riqueza de duetos que compunham esse disco, sobretudo num projecto de ‘one’s man band’ que é por natureza frugal e cru. Mas Paulo Furtado soube sair-se bem da incumbência ao enriquecer a paleta do seu blues espartano com possibilidades surpreendentes e ‘True’ revela-se um álbum poderoso e cheio de artifícios, seja pelo acrescento de uma pontual secção de cordas, de um fugaz instrumento de sopro ou de um órgão gingão. Também entre os melhores se posiciona o novo registo dos Dead Combo, ‘A Bunch of Meninos’, continuidade da reinterpretação e da reinvenção da Lisboa fadista, africana e sul-americana que as velhas calçadas fazem ressoar em noites de álcool e de amores perdidos, agora contaminada por um respirar mais rock, mas sempre canalha. Finalmente, e enquanto aguardamos cheios de expectativa outras pérolas anunciadas, como o álbum de estreia dos Cadeira Eléctrica, juntamos a este lote o sexto disco de originais dos Clã, ‘Corrente’: também este sucede a uma obra-prima, ‘Disco Voador’, editado em 2011, e injustamente relegado para um lugar subalterno por culpa de um desastrado direcionamento ao mercado infantil, o que não impede que seja o grande disco da banda! Este ‘Corrente’ procura caminhos mais sisudos e mais rock e não se sai nada mal, mas não nos consegue fazer esquecer ‘Disco Voador’ e a sua surrealista euforia pop, linguagem que os Clã verdadeiramente dominam e onde se espraiam e crescem como ninguém…
Disco : ‘Pesar o sol’
Autor : Capitão Fausto
Editora: Sony
Disco : ’Diffraction/Refraction’
Disco : ’Diffraction/Refraction’Autor : You Can’t Twin Charlie Brown
Editora: Pataca Discos
Disco: ‘True’ Autor: The Legendary Tigerman
Disco: ‘True’ Autor: The Legendary Tigerman
‘A Brunch of Meninos’
Dead Combo
Disco: ‘A Brunch of Meninos’Autor: Dead ComboEditora: Universal
Disco: ‘Corrente’
Autor: Clã
Editora: Warner
Livro ‘Os Dias da Corja’
Poesia crua, de vincada originalidade, cantando a emancipação feminina e o indómito com palavras fortes e imagens de uma beleza agreste, sempre com um humor sibilino a corroer os nervos. Autora desconhecida que vale a pena seguir, tanto este (primeiro livro?) ‘Os Dias da Corja’ nos encantou e arrebatou.
+ Info
A autora nasceu em Lisboa em 1981 e dedicou-se ao ballet, teatro, pintura, cinema e escrita de ficção para TV, sendo a poesia a sua forma preferida de comunicação.
Autor: Cláudia R. Sampaio
Editora: Do Lado Esquerdo
Exposição
‘Íamos ou Vínhamos?’
Três exposições numa só: a ilustração de Raquel Costa, de forte inspiração literária e vitoriana, com o título ‘A Infância e Outros Demónios Familiares’, a pintura de Paulo Romão Brás em confronto com a poesia de Maria Sousa, de título ‘Maneiras de Respirar Ausências’, e o desenho depurado de Ana Ventura em ‘Das Raízes’.
Autores: Raquel costa, Paulo Romão Brás e Ana Ventura
Local: Mercearia da Arte, Coimbra
Data: até 17 de abril
Filme
‘A Imagem que Falta’
O cineasta cambojano continua o mergulho pela memória do horror Khmer Vermelho, que devastou o seu país durante a segunda metade da década de 1970. Aqui relata a sua infância, substituindo as inexistentes imagens por reconstituições com figuras de barro, suavizando a barbárie mas despertando o interesse pela narrativa do terror vivido.
Autor: Rithy Panh
Estreia nos cinemas na próxima quinta-feira
Fugir de
Paulo Coelho
Ainda está longe a data de edição do seu novo livro, ‘Adultério’, aprazada para 2 de Maio pela Pergaminho, mas a máquina promocional já ligou o seu rolo compressor e é certo e sabido que daqui até lá vamos levar com as banalidades humanistas mais chãs daquele que é o brasileiro mais lido no Mundo e um dos autores de sempre mais traduzidos à escala global. Porque será que isto não acontece com alguém que tenha realmente algo de interessante a dizer?
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