<font size="4">Detenções de inocentes e torturas feitas pelos antecessores da PIDE são contadas pelo jornalista no livro ‘Histórias Secretas do Atentado a Salazar’.</font>
Mais de três décadas antes de ceder o poder, após a queda da cadeira que o incapacitou, Salazar sobreviveu em 1937 a uma bomba que deixou uma cratera nas Avenidas Novas, em Lisboa. A detenção de inocentes, forçados a confessar pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), após torturas que provocaram uma morte e um suicídio, é contada pelo jornalista Valdemar Cruz no livro ‘Histórias Secretas do Atentado a Salazar’ (Temas e Debates).
- Relata a acareação entre dois grupos de detidos que tinham confessado a autoria do atentado bombista contra Salazar, na qual os verdadeiros culpados são forçados a voltar atrás com a confissão. Foi o episódio mais estranho que a polícia política viveu ao longo do Estado Novo?
- Se um dos grupos de presos se deixasse desmentir pelo outro, isso faria ruir todo o edifício acusatório construído pela PVDE. O que é grave é que o grupo que se pretendia manter preso era o que não tinha nada a ver com o atentado. É um paradoxo absoluto. Mas na história da polícia política portuguesa há situações bem mais graves.
- Até que ponto este atentado, ocorrido num domingo, quando Salazar ia ouvir missa em casa de um amigo, contribuiu para o mito do ditador?
- Através dos jornais – e imagine-se o que seria isto se já existisse televisão –, foi possível estender de Norte a Sul de Portugal uma onda de choque perante um atentado no qual Salazar não sofreu sequer um arranhão. A Igreja Católica teve um papel importantíssimo a estimular a veneração do líder que só por proteção divina teria sido salvo. É uma bomba poderosíssima, que tem um efeito devastador em tudo o que estava à volta. Salazar não sofre nada apenas porque foi mal colocada.
- Acredita mesmo que Salazar disse “como fiquei vivo, terei de continuar a trabalhar” ou será uma criação comparável à das últimas palavras de Sidónio Pais?
- Essa frase é reproduzida nos jornais da época, que estavam todos bem sintonizados com o poder, pelo que terei de partir do princípio que foi mesmo dita.
- A detenção sucessiva de pessoas que a PVDE [antecessora da PIDE no início do Estado Novo] considera estarem ligadas ao PCP tem a ver com a pressão para encontrarem culpados, ou é uma estratégia política para justificar o apoio do regime a Franco?
- É uma estratégia política. Do ponto de vista da PVDE havia uma necessidade absoluta de identificar um inimigo. Por comodidade de estratégia era-lhes conveniente centrar todo e qualquer oposição nos comunistas, embora o PCP não tivesse o monopólio da oposição e muito menos das ações violentas, que nem eram muito acarinhadas pelo partido.
- Descrever a brutalidade dos interrogatórios que levaram às falsas confissões torna-se mais importante num momento em que se reforça a ideia de que o Estado Novo foi uma ditadura branda?
- A memória é fundamental. Aceito que na Espanha de Franco houve muito mais violência, mas não estamos a fazer uma tabela comparativa. Em Portugal houve presos, houve tortura, alguns presos morreram nessas torturas… Isso não pode ser escamoteado, pois faz parte da nossa História.
- Descreve a morte de um dos suspeitos devido às torturas e o suicídio de outro, que saltou de um terceiro andar…
- Foi mesmo assim.
- Menciona que Salazar recebeu mensagens de Hitler e de Mussolini após sobreviver ao atentado. Não houve outros estadistas a fazerem o mesmo?
- Se houve, não aparecem referenciados na imprensa. Citei essas duas mensagens porque a imprensa da época lhes deu destaque. Parece-me natural que tenha havido outras, nem que fosse por razões diplomáticas.
- No livro sobressai a figura de Baleizão do Passo, um capitão da PSP que desmonta os erros da investigação da PVDE. Aquilo que o movia era a busca da verdade ou o ódio pessoal pelos responsáveis da polícia política, de onde tinha sido afastado?
- Há um momento em que as duas coisas se cruzam. Não tenho grandes dúvidas que no início é o despeito que o move, mas pela leitura do processo parece-me que ele começou a perceber que estava a conseguir chegar onde a polícia política, por cegueira ou opção, não conseguia. Demonstrou que podia chegar sozinho mais perto da verdade do que toda uma estrutura policial que se tinha até em muito boa conta.
- Também há uma grande guerra de facções dentro da PVDE?
- Estamos numa fase em que a estrutura da polícia política não é muito sólida. Ainda há pessoas oriundas de diversos setores. Todos estes choques são evidentes e naturais.
- Baleizão do Passo corria riscos ao fazer as denúncias que deram origem ao processo?
- Apesar de tudo, fazia parte da hierarquia e do circuito do poder. O risco seria sempre relativo. A denúncia que ele fez seria vista com olhos completamente diversos caso fosse feita por um opositor. Ele teve acesso ao ministro. Foi-lhe dada credibilidade.
- Um juiz ouve todos os intervenientes…
- Mas o ministro do Interior manda arquivar o processo, sem que dele resulte qualquer consequência.
- Quais são as hipóteses de Salazar ter tomado conhecimento do que se passou?
- Investigações históricas demonstram que praticamente não havia nada que lhe passasse ao lado. E estamos a falar de algo que lhe dizia diretamente respeito. É altamente improvável que não tivesse conhecimento disto.
- Quando se torna evidente que os verdadeiros culpados são outros, a liderança da PVDE mantém a tese inicial para não perder a face ou porque convinha ao regime que fosse um atentado cometido por comunistas e não por anarco-sindicalistas?
- A partir de determinada altura, todos têm medo de ficarem mal na fotografia. Seria o reconhecimento do monumental fracasso de uma investigação que teve todos os meios disponíveis para chegar com êxito à identificação dos autores do atentado. E naquela altura qualquer preso por actividades conspirativas era rotulado de comunista.
- Depois de serem torturados e presos, os implicados acabam por ser postos em liberdade, como se nada tivesse acontecido...
- Sem qualquer pedido de desculpas ou ato que os redimisse. Mas isso estava na natureza do regime, no qual as pessoas contavam pouco. Falar de Direitos Humanos no Estado Novo é um absurdo. É como estarmos na Terra e falarmos em algo que se encontra em Neptuno.
- O certo é que Salazar nunca mais sofreu qualquer atentado.
- Isso tem a ver com a estratégia oposicionista do PCP. Para os comunistas, a questão era o regime e não o homem. Salazar tinha a personalidade que tinha, e representava o que representava, mas a prioridade era derrubar o Estado Novo.
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