As operações Vendaval e Xeque-mate foram das mais importantes em que estive envolvido. Na retirada da primeira ficaram feridos dois camaradas.
Quando pensava que havia escapado à Guerra do Ultramar, foi--me comunicado, 4 de Março de 1966, que tinha sido destacado para Moçambique, em substituição de um camarada que, devido a uma acção disciplinar, fora despromovido e mobilizado para a Guiné como soldado. Chegámos a Lourenço Marques a 26 de Novembro e depois seguimos para Nacala (no navio ‘Império’), Nova Freixo (de comboio) e para Muhôco (em carros piores que velhos).
A missão da minha companhia era entrar logo de início em intensa actividade operacional na limpeza da área. Mal tínhamos aquecido as cubatas, cheias de ratazanas que passeavam pelos nossos corpos, quando fomos atacados por fogo inimigo. Um mês depois, a poucos quilómetros da base, caímos numa emboscada. As cinco viaturas em que seguíamos ficaram muito danificadas. Ao primeiro tiro do inimigo, saltámos. ‘Enterramo-nos’ no chão e lembro-me de ver as balas passar a poucos centímetros de mim. Senti no momento que a minha vida acabava ali, mas nenhum de nós foi ferido.
Das operações que se seguiram, realço duas: Vendaval e a Xeque-mate. A primeira decorreu de 14 a 16 de Março de 1967. Saímos da base em viaturas, que nos deixaram passados 18 km. Dali seguimos a pé quase 20 km, sempre por mata densa e atravessando rios, até a 800 metros da base inimiga. Como estava mau tempo, os aviões não puderam actuar, a operação foi adiada e nós dormirmos ao relento. Na manhã seguinte, os bombardeiros apareceram cedo e atacaram as forças inimigas. Depois de muito tempo de combate, efectuamos o assalto final ao terreno do inimigo. A sua base era bem estruturada com salas e quadros onde estavam escritas as tácticas de guerrilha.
Nesta operação, dois militares foram feridos na altura da retirada: Rui Manuel Lopes Morgado Alves, atingido na espinal-medula e Eduardo Teixeira Maiato, atingido por uma bala inimiga numa nádega, onde ficou alojada, paralisando-lhe os movimentos da perna. Foram evacuados para a Metrópole e não voltaram à guerra. Quando regressámos com os dois ao ponto onde as viaturas nos tinham deixado, o militar de transmissões tentou comunicar o sucedido, via rádio, para a nossa base, mas o aparelho não funcionou. O meu pelotão, já exausto, teve de andar a pé mais de 18 km. Muitos a partir dos 2 ou 3 km começaram a desfalecer e a ficar para trás à espera das viaturas. Da forma que estavam, nada lhes importava que fossem apanhados pelo inimigo! Apenas eu, o alferes Pires e o furriel Rego conseguimos resistência para chegar ao acampamento e dar a notícia.
A operação Xeque-mate decorreu entre 31 de Março a 2 de Abril de 1967. Tratou-se de um ataque-surpresa. No assalto à base inimiga, ao deparar-me com um terrorista que me apontou uma arma ao peito, envolvemo-nos numa luta de corpo-a-corpo que só não terminou com a minha morte porque deitei-lhe a mão à arma e desarmei-o. A maior alegria foi ver, entre vários corpos, uma criança com três anos a chorar. Agarrei nela e levei-a para a nossa base, onde viveu muito feliz connosco, até final da comissão.
Foi a partir desta operação que o inimigo não mais teve a possibilidade de se reorganizar na região, isto como consequência dos êxitos obtidos pela companhia, não só nestas operações, mas noutras de menor envergadura, mas não menos importantes, nunca se poupando a qualquer esforço para o neutralizar.
Nesta altura, a população do lado inimigo já se ia sentindo protegida pelas nossas tropas, cuja presença lhes inspirava maior confiança. Viam-se constantemente grupos, em autêntica romaria, a caminhar para a sede da companhia, onde lhes eram distribuídas sobras do rancho geral e prestada assistência sanitária. Foi um ano de um esforço enorme. As horas que deveriam ser de repouso eram dedicadas à construção do aquartelamento e dos itinerários e à assistência à população.
Em tempo geral, a companhia de Artilharia 1626 (CART 1626) esteve 19 meses consecutivos em operações, a maior parte em Muhoco-Revia, sempre em operações de combate por Napuruma, Nipep, Moluco, Muapula, Catur, Massangulo, Majune e Muembe. Apreendemos centenas de armas, destruímos numerosos refúgios e bases inimigas e depois recebemos muitas menções honrosas pelo nosso trabalho.
No fim deste esforço difícil de imaginar por quem não o tenha feito, a minha companhia foi transferida para a região Centro de Moçambique, onde se envolveu numa tarefa bem mais suave: assegurar a tranquilidade e a ordem da sua área, esforçando-se por auxiliar e valorizar as populações locais. Quero aqui prestar a minha homenagem a Pereira Leite, que foi o primeiro da companhia a tombar em pleno mato. Os heróis não morrem. Nunca esquecerei que foste voluntário na operação Hiena.
EXERCI FUNÇÕES COMO AS DOS GOVERNADORES CIVIS
José de Almeida Marques nasceu em Pinheiro, Castro Daire, mas reside em Lamego. Depois de regressar do Ultramar casou, em 1970, com uma auxiliar de acção educativa, com quem teve três filhos – um rapaz e duas raparigas. No final de 1970 regressou a Moçambique e foi revisor de provas no jornal de Lourenço Marques. De seguida, entrou na Função Pública e foi governador na região. 'Nos últimos tempos em que combati em Moçambique estabeleci bons contactos e boas relações com pessoas importantes, que depois me convidaram a regressar para trabalhar. Exerci funções semelhantes às dos nossos governadores civis', refere José Marques, salientando que guarda 'boas recordações de África'. Em 1975 regressou à Metrópole e ingressou na Câmara de Lamego, como tesoureiro. Está aposentado.
COMISSÃO
A 9 de Novembro de 1966 parti, como furriel miliciano, para Moçambique, a bordo do navio ‘Império’. No mesmo embarcaram também as companhias de Artilharia 1625 e 1627, um batalhão e outros militares em rendição individual. Regressei à metrópole a bordo do ‘Niassa’, em 18 de Dezembro de 1968. Um dos momentos mais gratificantes entre muitos difíceis foi encontrar uma criança viva no meio de cadáveres, que levei para a base.
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