"Fiquei chofer de Jaime Neves. Ele era um cowboy que dava ordens de olhos fechados, mas via mais do que todos nós".
Estive 29 meses no batalhão de Comando em Monte Puez, Cabo Delgado. Embarquei no Niassa a 22 de julho de 1970. Levámos 28 dias a chegar a Moçambique. Eu, que era cabo, fui primeiro para chofer do Júlio Faria de Oliveira, na altura capitão, que ainda é vivo, antes de ficar ao serviço de Jaime Neves [1936-2013; cumpriu quatro comissões em Angola e Moçambique, participou no 25 de Abril e no 25 de Novembro]. Ao serviço dele tive uma vez de ir buscar o Kaúlza de Arriaga, para uma entrega de crachás; e lá fui com o Jaime Neves, que gostava muito de conduzir e, por isso, preferia ir ao volante - eu, que era o chofer, seguia ao seu lado. No regresso, quando eu já vinha no banco de trás - o Neves e o Kaúlza à frente - aquilo parou. Os dois saltaram para outra viatura e safaram--se, e eu lá fiquei.
De outra vez, uma berliet capotou e debaixo dela morreram sete. Estava a tomar banho, quando ouvi:
- O cabo Mongas voltou a berliet!
- Não fui eu! Foi o Almeida, respondi, mas tive de arrancar para prestar socorro. Por debaixo da viatura, viam-se as cabeças dos indivíduos encarcerados; e a gente sem força para levantar aquilo. O ácido das baterias caía na cara de um deles - não desejo tal coisa ao meu pior inimigo -, mas lá atrelámos a viatura acidentada a um Unimog e conseguimos movê-la.
Morriam mais em acidentes
Vínhamos do mato quando vimos um gajo agarrar numa granada -convencido de que a cavilha estava presa -, mas explodiu. Morriam mais em acidentes do que na guerra ou porque rebentavam minas ou porque se disparava acidentalmente um tiro ou porque se virava uma viatura.
Uma vez fomos para Tete em coluna, durante oito dias, com o Jaime Neves à frente. Atravessámos o Zambeze em jangadas, com a ajuda de cabos de aço - fomos à Beira, a Vila Perry até Cahora Bassa. A nossa chegada foi celebrada pela tropa:
- Eh pá, caíram do céu. Quando vamos buscar lenha, somos sempre atacados.
Nós tínhamos dois héli e fomos buscar combustível a Tete e, uma vez lá, damos com uma viatura Mercedes; lá dentro, um tipo com um tiro no joelho, que lhe abrira um buraco na rótula - levámo-lo no estrado do Unimog. Ele tinha sido assaltado. Ainda hoje tenho a impressão que se lhes tivéssemos dado rádios e bicicletas, tinha bastado para ganharmos a guerra.
Cheguei a ver turras na linha de tiro dos sipaios [soldados indianos do exército da Companhia Britânica das Índias Orientais que Portugal manteve na Índia portuguesa e, mais tarde, noutros territórios, passando o termo a designar uma força de policiamento local e rural] e até enviei fotografias à minha mulher para ela ver que era verdade - os turras jogavam à bola com as cabeças de dois sipaios que tinham degolado depois de um ataque.
Fui voluntário e, uma vez lá, esqueci-me de tudo. Só no final da comissão comecei a estar farto. Por não saber notícias minhas, a minha mulher chegou a ligar à Cruz Vemelha e estes ao Jaime Neves, que me repreendeu:
- Então não escreves à tua mulher?! Lembro-me muito do Jaime Neves. Dele não gostar nada de andar sozinho e de a malta sair, uma vez, de Nampula, fardada, e de vir ele e dizer-nos:
- Venham mais eu.
E fomos para uma ‘boate’ - ou lá o que aquilo era - num edifício da Força Aérea, e dele pedir ao empregado:
- Uma garrafa de uísque.
E deste dizer-lhe que não serviam garrafas, a gente calados e o Jaime Neves a responder-lhe:
- Trazes que eu pago ou não trazes e a gente parte tudo. Lembro--me também que ele perguntava àqueles a quem tinha de impor disciplina: "Duas peras ou um castigo?"
Jaime Neves era um cowboy que dava ordens de olhos fechados, mas via mais do que todos nós. Desse tempo guardo, de recordação, duas munições de G3.
Testemunho
Júlio Amado Mogas
Comissão
1970-72
Força
Comp. de comandos e serviço
+info
Mecânico reformado. Nascido
e criado em Santarém, onde vive. aos 69 anos, tem seis filhos e onze netos
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