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Vida e Morte de Cristo em ópereta

Já é uma tradição na freguesia de Bustelo. De cinco em cinco anos, os habitantes da terra transformam-se em actores muito especiais.

27 de março de 2005 às 00:00

De cinco em cinco anos a história repete-se. No dia da Páscoa a freguesia de Bustelo , concelho de Chaves, transforma-se num gigantesco palco. A representação do Auto da Paixão - Vida e Morte de Jesus faz parte da tradição da terra e toda comunidade mobiliza-se durante meses a fio para que no dia ‘D’ tudo corra pelo melhor. Os actores são os próprios habitantes que se submetem a rigorosos ensaios, que é como quem diz, decoram os textos e os passos que o Criador trilhou quando caminhou pelo mundo. De realçar que todos os actos são interpretados em prosa, em jeito de opereta.

As personagens, em especial os mais importantes, estão entregues à mesma pessoa há mais de vinte anos. É por isso que, na aldeia, é vulgar tratarem o Cristo por ‘José Cristo’, e assim sucessivamente com os demais intervenientes. Entre legiões, personagens bíblicas e figurantes, são sessenta e duas as pessoas que deram corpo ao Auto da Paixão que chama milhares de visitantes ao Alto Tâmega para assistirem a esta interpretação bíblica.

Durante esta interpretação cénica, o espectador é confrontado com algumas passagens que não constam nas Sagradas Escrituras. O diálogo e a forma como Judas e o Diabo combinam a traição e o pagamento, regateado; durante a Última Ceia, que aparece aos olhos dos católicos como um momento de paz e tranquilidade, neste caso passa-se precisamente o contrário, quando o Diabo interfere na refeição quando rouba parte do pão do vinho, e se vangloria desse feito. A personagem que interpreta o papel de Cristo tem o privilégio de lhe ser posta a cabeleira do Santo - Senhor dos Aflitos - existente na capela de Bustelo.

A população de Bustelo fervilha de emoção com a aproximação do dia da apresentação. “Ó Barrabás, não te metas nos copos e chega a tempo e horas para fazeres o teu papel”, gritava da janela uma vizinha, para o homem que foi solto por Ponçio Pilatos a pedido do povo. Apesar da recomendação, algum tempo depois a ‘Domingo Magazine’ foi encontrá-lo em frente ao balcão com um copo de tinto nas mãos. “Para que tanta pressa, só entro no fim e só tenho de rasgar toda a roupa para fugir. Com os copos até faço isto melhor”, explicou a personagem, sempre bem disposta.

José Carlos, 45 anos, faz de Cristo há vinte e um anos, “na aldeia sempre me tratam por José Cristo e eu não me importo. Normalmente, as pessoas que fazem estes papéis mais vezes, ficam a ser conhecidas pelos nomes que desempenham no Auto da Paixão. Entre a população de Bustelo o Auto da paixão está tão enraizado que se adoecer alguém encontra-se facilmente outra pessoa que saiba todo o texto e os passos a seguir”, explicou. “O Diabo, tal como eu, nos últimos quatro anos (vinte anos) foi sempre o mesmo, enquanto Judas já tivemos três, porque os primeiros dois morreram. Quando olhamos para o papel dessa personagem deparamos que ele se adapta à sociedade actual. Hoje, vendem-se semelhantes e até a própria família e, em alguns casos, por bem menos que as trinta moedas”, finalizou.

José da Costa, 42 anos, é o ‘Diabo’ da aldeia há mais de vinte anos. “Já ‘matei’ dois Judas (eram idosos e morreram de doença) e espero que este agora, que até é meu primo carnal, não morra também, porque caso contrário as pessoas têm medo de fazer este papel e perde-se a tradição na aldeia, como já esteve parada durante muitos anos”.

Confrontado como que sente ao interpretar esta personagem, José da Costa foi peremptório: “Gosto muito deste papel, muito embora nunca tenha imaginado o que é verdadeiramente esse ser medonho e nem sei o que faria se o tivesse de enfrentar. Represento o Diabo, mas não gostava nada de ser o Diabo. Sou católico, acredito mais em Cristo do que no Diabo”. Disse.

Maria da Conceição, 37 anos, é estreante nestas andanças e tem a responsabilidade de representar a mãe de Jesus. Quando confrontada com essa realidade os seus olhos brilham com uma outra intensidade, em especial quando recorda “a forma carinhosa como me chamam na aldeia, de Nossa Senhora, Mãe de Jesus. Deixa-me muito feliz, porque se trata de um papel muito emotivo e sério, em especial na parte final do Auto em que os factos vividos mexem um pouco connosco”, disse.

Mónica, 26 anos, interpreta Maria Madalena, pela primeira vez, e por esse facto ainda não é conhecida na aldeia por esse nome, “só nesta altura é que vão começando a chamar-me assim”, disse, ao mesmo tempo que sabe a responsabilidade que é representar a mulher que teve um papel importante na vida de Jesus. O ensaio já decorria há largos minutos quando começou a chover com alguma intensidade. Maria Madalena chegou junto à estrutura de apoio ao Auto da Paixão e solicitou: “Emprestem um guarda-chuva para a mãe de Jesus”.

Joaquim Martins, 41 anos, é o Judas desta interpretação bíblica, papel que vai representar pela primeira vez, muita embora tenha feito outros papéis em Autos anteriores, mas já é tratado como o ‘Judas’ da aldeia. ”Jamais pensei em vender alguém, e muito menos o amigo José Cristo, mas ao encarnar este papel, com a intensidade que sou obrigado a fazer sentir, sinto-me muitas vezes constrangido”, disse.

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