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VIDAS POR UM FIO

Escalam montanhas, limpam janelas de arranha-céus e voam de trapézios. Ganham a vida pendurados em cordas, tal como o herói mais popular da Marvel. Na semana em que estreia o filme de Sam Raimi, fomos descobrir quem são os Homens-Aranha da vida real.

11 de julho de 2004 às 00:00

Ele tem a cidade a seus pés. De uniforme amarelo florescente, desce vagarosamente pelos vidros espelhados de um edifício de 14 andares. Encontra-se a 40 metros do solo e as rajadas de vento estremecem as duas cordas que o sustentam, mas as batidas do coração não aceleram. Há nove anos que anda pendurado em edifícios, pontes e chaminés gigantes. “Para mim, é indiferente estar a 20 ou a 200 metros de altura”, conta Pedro Santos, de 31 anos, um dos maiores especialistas em trabalhos verticais em Portugal.

Ele é uma espécie de Homem-Aranha só que sem os seus super-poderes. Tal como o herói da Marvel, também tem a sua vida presa a um fio. “Nos dias em que estou menos bem psicologicamente, olho para as duas cordas a que estou amarrado e penso: ‘Só estou agarrado a elas. Será que isto vai correr mal?”

Sempre que isso acontece, afasta os maus pensamentos e concentra-se no trabalho árduo que tem pela frente. “Esta é uma profissão arriscada mas se cumprirmos as normas de segurança, o perigo será atenuado”, explica. O salário pode atingir os 1500 euros mensais, valor que já cobre a componente de risco. “Nunca assisti a acidentes graves ou grandes quedas, mas por vezes alguém torce um pé.”

O trabalho dele também tem momentos hilariantes. Pedro ri-se quando algum morador ou hóspede de hotel se assusta ao vê-lo passar rapidamente pela janela. “Deve ser estranho ver umas pernas a surgir do vazio, quando alguém está calmamente no seu quarto a arranjar-se para sair.”

Em miúdo, já desafiava as leis da gravidade nas encostas íngremes da Serra de Sintra ou da Arrábida. Talvez porque sempre sonhou em chegar a locais onde mais ninguém conseguia. “Por vezes sinto-me um verdadeiro Homem-Aranha.”

DO TRAPÉZIO PARA A FALÉSIA

As trapezistas Raquel Nicoletti, de 27 anos, e Fernanda Avellar, de 28 anos, estão desejosas por ver o novo filme de Sam Raimi, ‘Homem-Aranha 2’, que estreia a 15 de Julho. As duas brasileiras são fãs das aventuras aracnídeas de Peter Parker e confessam mesmo ter uma pontinha de inveja das acrobacias do actor Tobey Maguire. “É o herói fetiche para qualquer acrobata aéreo”, reconhecem as gaúchas, que chegaram há um ano a Portugal e dão aulas no Chapitô. “

Mas ao contrário do herói, que anda pendurado numa teia de brincar e sobe prédios com ajuda dos efeitos especiais, nós precisamos da ajuda de cordas verdadeiras, ferros e das pessoas que nos rodeiam.”

No seu espectáculo ‘Las Chicas Del Guapo Show’, as duas amigas parecem voar e rodopiam no ar. O medo das alturas é proibido para quem anda a fazer malabarismos sobre um trapézio, mas Fernanda Avellar confessa que quase todos os acrobatas já tiveram vertigens, como qualquer mortal.“Na primeira vez que fiquei de cabeça para baixo a nove metros de altura, lembro de querer descer, porque pensei que ia cair dali a baixo.” Os receios nunca mais se repetiram e hoje a rapariga que veste roupa de cores exuberantes até se ri do episódio. “O verdadeiro inimigo do trapezista é a desconcentração e o exibicionismo.”

A frase podia muito bem ter sido proferida por Carlos Simas, de 24 anos, numa das suas aulas de escalada no Forte da Guia, em Cascais. Cuca, como é conhecido no meio, apesar de não ser profissional conhece muito bem as serras mais altas e as falésias íngremes do país.

“Gerês, Sintra, Cabo da Roca, Serra da Estrela, ou Sagres, são os locais ideais para a escalada”, revela o jovem instrutor que nunca foi obrigado a salvar um instruendo de uma queda iminente mas já perdeu um amigo que escalava consigo nos famosos Picos da Europa, em 2001. “Estava uma manhã com o céu limpo. Parecia um dia perfeito para escalar, mas a proximidade daquelas montanhas com o mar favorece o traiçoeiro efeito Fohn, que gera chuvas fortes e repentinas.”

Foi o que aconteceu naquele dia. Quando a tempestade rebentou, ele e um colega optaram pela fuga para a frente, escalando os 120 metros de via restante. Mas na face leste, um dos escaladores da outra equipa não teve a mesma sorte. “Ao contrário do que acontece com os heróis na ficção, os perigos são reais para uma pessoa que sobe uma rocha, presa apenas por um fio”, alerta.

Ainda assim, Cuca não trocava as suas horas na montanha por um emprego de horário fixo em frente a uma secretária: “Lá nas alturas, não há a segurança desta vidinha do dia-a-dia que nos tira o ânimo aos poucos.”

Aos 15 anos, Carlos Simas descobriu os prazeres das alturas. “O risco dá-me uma adrenalina ímpar.” Desde o dia em que se inscreveu na Escola de Escalada da Guia nunca mais parou de trepar pelas serras de Portugal. Hoje é instrutor de escalada na Desnível, a mesma empresa de desporto e aventura onde trabalha o alpinista João Garcia. Não é profissional – Cuca estuda Geografia na Faculdade de Letras – mas todos os fins-de-semana ensina a dezenas de futuros montanhistas as técnicas de escalada: como usar o Baudrier, os pés de gato, o saco de magnésio, o mosquetão ou o pursik. Para o desportista de Cascais, com 24 anos, já não há segredos numa rocha, falésia ou escarpa, mas a segurança continua a ser a sua principal preocupação. Cuca corrobora a teoria de que a escalada “é a arte de procurar os maiores perigos fazendo tudo para os evitar”.

RAQUEL E FERNANDA - AS GAÚCHAS VOADORAS

As gaúchas Raquel Nicoletti e Fernanda Avelar dão aulas de acrobacia aérea no Chapitô. “Ensinamos os alunos a ser meninos-aranha”, brincam. As duas artistas aprenderam o bê-a-bá do trapézio em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Desde que começaram a fazer acrobacias a mais de vinte metros do chão para audiências de milhares de pessoas nunca mais quiseram parar. “É viciante e emocionante.” Medo? Nem querem ouvir falar dessa palavra. “Com o tempo a pessoa habitua-se às alturas.”

Um dia decidiram atravessar o Atlântico e tentar a sorte em Portugal. “Não há muitos trapezistas no vosso país ao contrário do que acontece no Brasil.” Raquel e Fernanda nunca despem os seus fatos de cores berrantes, porque estão o dia todo na escola alfacinha a treinar em cima do trapézio. “É um trabalho árduo e exigente.” Principalmente agora que treinam para o seu espectáculo circence chamado ‘Las Chicas del Guapo Show.’ “

Com duas cordas presas ao corpo, ele tem de limpar vidros de janelas e colocar algeroz ou pára-raios nos prédios mais altos de Lisboa. “Há sempre um pouco de ansiedade antes de nos pendurarmos, principalmente quando não conhecemos o edifício”, confessa Pedro Santos, que faz trabalhos verticais na ZWT.

Embora as alturas já não o impressionem, ele não se esquece a subida a uma chaminé da central termoeléctrica do Carregado, no Inverno do ano passado. “A minha equipa estava a 240 metros do solo e aquilo abanava por todo o lado, por causa do vento. Recordo-me de olharmos uns para os outros com sorrisos nervosos.”

Ninguém caiu e a missão foi cumprida sem percalços. “É preciso confiar no equipamento e ter uma boa condição física para se conseguir estar lá em cima.” Sim, porque este trabalho não é para todos.

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