Spínola ainda conseguiu inverter a sorte da guerra – mas, em Março de 1973, os guerrilheiros do PAIGC, armados com mísseis ‘Strella’, começam a abater aviões. O 25 de Abril salvou os militares de uma humilhante retirada.
As tropas portuguesas passaram na Guiné as maiores provações. O movimenCabral, o PAIGC, muito bem armado e servido por bases no Senegal e na Guiné-Conacri, tinha capacidade de combate e um aliado de peso – o terreno exíguo, pouco maior do que o Alentejo, entrecortado por centenas de braços de rios, grandes manchas alagadas e pantanosas. A Guiné era um atoleiro, comparável ao que o Vietname representou para a América.
Os guerrilheiros lançaram o primeiro ataque em 20 de Janeiro de 1963, vigoroso e mortífero, contra o aquartelamento de Tite, a sul de Bissau. Em meados do ano, já ocupam as ilhas de Caiar, Como e Catungo. A região, farta em arroz e pastagens, era um formidável ponto de abastecimento e uma base de onde flagelava todo o Sudoeste. A vila de Catió, a segunda mais populosa da província, era abastecida por mar – e as barcaças de mantimentos recebiam o fogo da guerrilha no estreito canal que separa o continente das ilhas.
Os chefes militares em Bissau hesitam na resposta. Só na semana do Natal, o comandante-chefe, brigadeiro Louro de Sousa, decide agir. Planeia a ‘Operação Tridente’, apenas lançada em 15 de Janeiro de 1964, sob o comando do tenente-coronel Fernando Cavaleiro. Envolveu um milhar de homens – e, pela primeira vez na História da Armada, participam nos combates dois destacamentos de fuzileiros especiais: um comandado por Alpoim Calvão, outro por Pacheco Ribeiro.
A reocupação das ilhas não quebra a iniciativa militar do PAIGC. A partir de meados de 1964, os nacionalistas passam a dominar o Sul – onde os guerrilheiros se movimentam sob as ordens de um comandante de excepção, Nino Vieira. A guerra sofre um agravamento. Louro de Sousa é substituído como comandante-chefe por Arnaldo Schultz – que já exercera sem história o comando de um sector operacional em Angola. Schultz recebe consideráveis reforços. Ainda assim, é incapaz de travar a progressão da guerrilha. A tropa portuguesa perde a iniciativa. O general, que até aí enviava ao Governo enganadores telegramas sobre o curso da guerra, já não consegue disfarçar o embaraço. Salazar chama-o a Lisboa e faz avançar o brigadeiro Spínola, que chega a Bissau em Maio de 1968, na dupla condição de governador e comandante-chefe. Portugal estava à beira de uma desastrada derrota militar.
Foi o primeiro oficial-general a explicar ao regime que as guerras travadas em África não tinham solução militar. Como comandante-chefe mudou a estratégia. Nada na Guiné ficou como antes. Num primeiro momento, altera o dispositivo militar. Cria as chamadas ‘zonas de intervenção do comando-chefe’, em áreas de forte domínio do PAIGC, sobretudo no Sul, verdadeiro inferno à face da terra. Consegue uma reviravolta nos confrontos travados na Guiné. Os militares portugueses, que nem respiravam sob a ameaça da guerrilha, ganham combates.
Spínola, de camuflado e monóculo, fiel ao princípio de que um comandante está onde estão os seus homens, acompanha de perto as operações. Cultiva a imagem de valente cabo de guerra. Alimenta o mito. Monta em Bissau uma máquina de propaganda. A Imprensa estrangeira dedica-lhe manchetes como a nenhum outro português.
A par da demonstração de força, põe em marcha um ousado projecto político de conquista das populações traduzido no slogan ‘Uma Guiné Melhor’: o governador ouve os guineenses, nascem os Congressos do Povo – manifestação de democracia directa numa colónia de um regime avesso à liberdade.
O movimento de guerrilha passa agora por grandes dificuldades. Sucedem-se as operações de “curta duração e de grande violência” lançadas por tropas especiais. Spínola cria duas unidades de elite formadas exclusivamente por guineenses – o Batalhão de Comandos Africanos e o Destacamento de Fuzileiros Especiais 21. Os ‘fuzos’ deixam de estar sob as ordens do Comando de Defesa Marítima e são integrados, como os comandos e os pára-quedistas, em forças de reserva do comandante-chefe: já não actuam apenas até onde chega o bote, mas como infantaria com grande poder de combate. O comandante Alpoim Calvão, fuzileiro especial, um dos mais louvados combatentes, volta à Guiné a pedido de Spínola.
OPERAÇÕES EM TERRA
As operações em terra são executadas sempre com o apoio de bombardeamentos pela Força Aérea. O domínio do ar era um bem precioso para a vantagem militar. Aviões e helicópteros semeiam o terror entre os guerrilheiros, abrem caminho às tropas em terra, transportam material de guerra, evacuam feridos e mortos.
Os êxitos não lhe perturbam o espírito. Aos oficiais não pede que ganhem a guerra: exige-lhes que não percam – enquanto procura uma solução política. Inicia contactos com Leopold Senghor, presidente do Senegal. Spínola quer chegar a Amílcar Cabral. Imagina que importantes quadros do PAIGC podem abandonar o partido e aderir à nova política – meio caminho andado para forçar Cabral às negociações. Entrega aos majores Passos Ramos, Pereira da Silva e Magalhães Osório a missão de convencerem os nacionalistas a deporem as armas.
Os três majores montam uma rede de informações e encontram-se com dirigentes moderados do PAIGC. Reúnem-se com chefes guerrilheiros. Fazem a paz em todo o ‘Chão Manjaco’ e no vizinho ‘Chão Mancanho’, na região de Bula. Na manhã de 20 de Abril de 1970, partem desarmados para mais um encontro. Vão negociar a paz em ‘Chão Balanta’. Spínola estava para ir – mas um providencial acaso fê-lo ficar em Bissau. Os majores foram ao encontro da morte. Uma facção do PAIGC matou-os à catanada.
Spínola, já com as estrelas de general, não desiste de encontrar uma solução para a guerra. Sonha para as colónias um modelo de autodeterminação do tipo federal – a começar pela Guiné. Em Maio de 1972, encontra-se em Cap Skining, na costa senegalesa, com Leopold Senghor, que aceitara o papel de intermediário de Amílcar Cabral.
A reunião tem alguns riscos. Os oficiais mais próximos de Spínola receiam um atentado. Desconfiam de infiltrações da linha radical do PAIGC em sectores militares do Senegal. O general iria ao encontro de Senghor acompanhado pelo chefe de Gabinete, Nunes Barata (hoje, embaixador), e pelo chefe da PIDE, Fragoso Alas. A ocasião é boa para uma armadilha. É montada uma operação secreta de segurança.
Uma companhia de pára-quedistas toma posição na zona do encontro, enquanto aviões e helicópteros sobrevoam a área a grande altitude. O comandante da operação, Carlos Fabião, está a bordo de um ‘heli’. Ao mínimo sinal de perigo, toda a área seria bombardeada do ar. A seguir, avançavam os ‘páras’. Spínola não podia ser apanhado pelo PAIGC – nem vivo, nem morto.
O encontro entre Spínola e Senghor decorre sem problemas. Chegam a acordo: cessar-fogo por um período de transição de dez anos, após o qual seria sufragada uma solução para a Guiné – independência ou federalismo.
O comandante-chefe voa para Lisboa. É recebido pelo presidente do Conselho, Marcelo Caetano, na última semana de Maio de 1972. Mas o chefe do Governo, pressionado pelos ‘falcões’ do regime, rejeita o plano de paz – com o argumento de que mais vale uma derrota militar com honra a um acordo com terroristas. O cabo-de-guerra volta amargurado a Bissau. Pede ao Governo que dê por terminada a sua comissão na Guiné.
A recusa de Marcelo Caetano terá efeitos desastrosos. Senghor, irritado com a cegueira portuguesa, abre as fronteiras à instalação de bases da guerrilha. Meses depois do encontro de Cap Skining, em finais de 1972, a tropa portuguesa está outra vez em grandes dificuldades – apertada agora numa forte tenaz com uma garra em Guileje, no Sul, e outra em Guidaje, no Norte.
Um acontecimento surpreendente anuncia o pior aos portugueses: mísseis antiaéreos, os ‘Sam 7’, mais conhecidos como ‘Strella’, de fabrico soviético, assobiam nos céus do Sul. Os guerrilheiros fazem os disparos em Fevereiro de 1973, ainda sem êxito. Mas em 25 de Março abatem um avião. Um Fiat G-91, pilotado pelo capitão Miguel Pessoa, é atingido: o aparelho preparava-se para regressar à base, nos arredores de Bissau, após ter executado um bombardeamento na zona de Guileje. O piloto consegue ejectar-se. Os mísseis travam a Força Aérea – e as tropas terrestres, sem o apoio dos bombardeamentos, perdem vantagem. Spínola, que já pedira a demissão, é substituído, no Verão de 1973, pelo general Bettencourt Rodrigues. A situação da Guiné é tão desesperada como nunca. O 25 de Abril de ‘74 salva os militares portugueses de uma humilhante retirada.
QUEM SÃO OS FUZILEIROS?
MAR E TERRA
Os fuzileiros são tropas especiais que utilizam os meios da Marinha Portuguesa e helicópteros. No ‘teatro de operações’, comportam-se como a Infantaria Armada.
A partir de 1961, os fuzileiros vestiram os camuflados portugueses para mais uma vez partirem para a guerra com a Guiné, Moçambique e Angola. Foram 14 anos em que mais de 14 mil militares desta força especial combateram entre a selva e os rios. Para trás ficava um vasto historial daquelas que foram as tropas do Terço da Armada da Coroa de Portugal – criado em 1621.
Os cursos para fuzileiros são de extrema dureza física e psicológica. No curso de formação de grumetes (que sucede à recruta) testa-se a capacidade de decisão sobre cansaço e stress. Os alunos são largados à noite no mato e perseguidos até alcançarem a base militar, a 30 quilómetros, sem uso de instrumentos de orientação; entram no lodo, de G3 às costas, e fazem uma prova de esforço que dura horas; remam no Rio Sado, durante uma noite e parte de um dia, sem parar; dormem na mata, alimentam-se da ração, estudam técnicas de combate e aprendem a montar uma arma.
Cerca de 30 por cento destes aspirantes a fuzileiro desiste logo nas primeiras semanas de curso. Diz-se na Escola de Fuzileiros de Vale do Zebro, no Barreiro, que têm de merecer a boina desta ‘tropa de elite’ da Marinha – ramo das Forças Armadas ao qual pertencem. Os fuzileiros estão sempre preparados para a guerra.
Esta tropa especial está equipada com armas ligeiras – como as clássicas pistola-metralhadora Walter ou as espingardas automáticas G3 –, morteiros, armas anticarro – como o imponente canhão sem recuo Carl Gustaf de 84 milímetros – e meios anfíbios – lanchas de desembarque médias, viaturas e blindados anfíbios e os botes de borracha.
AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA
ALPOIM CALVÃO
Alpoim Calvão, oficial da Marinha, fuzileiro espacial, tirou o curso em Inglaterra. Cumpriu duas comissões na Guiné. A última já sob as ordens do comandante-chefe Spínola. A sua destreza na guerra colonial tornou-o lendário. É um dos militares portugueses mais medalhados. Fundou o MDLP inspirado em Spínola, que depois foi dissolvido em Abril de 1976 pelo próprio general.
- O general Spínola considerou exercer um plano socioeconómico a par de uma manobra militar; Considera que foi a estratégia adequada à Guiné?
- O objectivo da guerra não é militar, é de conquista de populações. Por conseguinte, a manobra socioeconómica era tão importante como a manobra militar.
- Nesse contexto, considera que se fez bom uso das unidades militares?
- Sim, foi feito um bom uso das forças militares e também se fez boa aplicação dos princípios da manobra socioeconómica.
- A ponto de considerar que os fuzileiros foram utilizados da melhor forma?
- Os fuzileiros ali eram uma força especial como outras. Vocacionados para o trabalho nas chamadas linhas interiores mas que pela topografia da Guiné os fuzileiros podiam ser empregues em qualquer sítio.
- Como avalia o comando militar do general Spínola?
Acho que foi um comando muito imaginativo, que se pode considerar brilhante.
- Entre 1968 e 1972, o comandante-chefe conseguiu atingir um equilíbrio táctico entre as forças portuguesas e a guerrilha. Mas depois Portugal começa, de novo, a sentir grandes dificuldades; Considera que poderia, de alguma forma, ter sido diferente?
- Estou de acordo com essa apreciação. A guerra, por estranho que pareça, não tem soluções militares. Tem soluções políticas. Tem intervenções militares que podem ajudar às soluções políticas. Por isso, o que aconteceu deveu-se a uma solução da guerra que é sempre política. Não é militar.
LUÍS BAÊNA
Luís Baêna, capitão-de-fragata fuzileiro, tirou o curso de Especialização em Fuzileiros Especiais. Cumpriu uma comissão na antiga província ultramarina da Guiné, entre 1972 e 1974, sob as ordens do comandante-chefe António Spínola. É autor do livro ‘Fuzileiros, factos e efeitos na guerra de África 1961-1964’ (Edições Inapa), que se foca numa recriação dos acontecimentos vividos pelos fuzileiros.
- Considera que a estratégia do general Spínola de executar um plano socioeconómico em consonância com a manobra militar foi o mais adequado?
- O investimento socioeconómico foi fundamental. Toda a parte de guerra psicológica – o investimento na população – revelou-se de fundamental importância.
- Nesse contexto, considera que se fez bom uso das unidades militares?
- Houve uma mudança nítida de estratégia, a partir de 1968, para passar a ser uma guerra mais ofensiva. O brigadeiro Spínola – que era brigadeiro que ele era na altura – tentou travar a infiltração inimiga no Rio Cacheu, no Norte, vinda do Senegal. E deixou algumas regiões do Sul mais desguarnecidas. Houve uma preocupação patente da Marinha pelo menor cuidado no Sul.
- Concorda com a estratégia usada para empenhar os fuzileiros?
- Com a utilização de forças especiais como forças de quadrícula, é evidente que não. Cansam-se, desgastam-se, desmotivam-se e, quando é necessário intervir em acções mais especiais, a força anímica está quebrada. Podiam ter tido um melhor emprego.
- Como avalia o comando de Spínola?
Não faço de maneira nenhuma uma crítica à estratégia de chefes. O mais interessante: a Marinha, no início, tinha o comando operacional das grandes operações feitas. Na ultima fase já não. Os fuzileiros estavam atribuídos aos comandos de grupos operacionais espalhados por todo o território.
- Mas isso tirava autonomia à Marinha?
Afirmativo que sim. Geraram-se situações complicadas entre os comandos.
PERFIL DE UM CABO-DE-GUERRA
GENERAL DO MONÓCULO
O jovem alferes, alto e seco de carnes, passeia elegância nos bailes de Cavalaria. Apaixona-se por Maria Helena, filha do general Monteiro de Barros, comandante-geral da GNR. Casam-se. Spínola passa a servir na Guarda Nacional Republicana. Faz hipismo – ganha medalhas, taças e um torção na coluna que o apoquenta o resto da vida. Durante a Segunda Guerra, visita a Escola de Carros de Combate e assiste, na Frente Leste, a manobras do general Rommel com a Divisão Panzer. Regressa encantado.
Generais famosos desse tempo tinham um marca única: Rommel usava a viseira de tanquista ao pescoço; MacArthur exibia os óculos Ray Ban e o cachimbo de maçaroca de milho; Patton apresentava-se de capacete e revólveres com as coronhas de marfim. Passou a usar monóculo. Comanda a força da Guarda que ocupa o Barreiro. Em 1961, quando estala em Angola a Guerra Colonial, Spínola, tenente-coronel, já tinha passado à reserva: Champalimaud levara-o para administrador da Siderurgia. Pede para ser reintegrado – mas a idade, tem 51 anos, não lhe permite ser mobilizado.
Oferece-se como voluntário. Embarca à frente de um batalhão e combate no Norte de Angola. Nunca mais volta à vida civil. Cheirava-lhe a guerra. Finda a comissão na Guiné, regressa à Metrópole carregado de prestígio. O Governo criou um cargo só para ele, o de vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. O chefe era o amigo Costa Gomes, o Chico, como Spínola o tratava. Zangaram-se irremediavelmente após o 25 de Abril. É autor do livro ‘Portugal e o Futuro’.
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