Três dos maiores mitos do planeta, Elvis Presley, Marilyn Monroe e Diana de Gales, morreram de forma trágica durante o mês de Agosto. Todos eram jovens e belos, e ainda hoje são idolatrados
Eram belos, famosos, ricos e detinham a fórmula da juventude eterna. Elvis Presley, Marilyn Monroe e Diana Spencer pareciam não pertencer ao mundo terreno, mas acabariam por morrer como qualquer mortal. Todos perderam a vida numa trágica noite de Agosto. Enquanto os seus cadáveres se esfumavam em direcção ao restrito olimpo, o seu mito permaneceria imutável para a eternidade.
O rei do rock tem hoje mais fãs do que nunca. A sua mansão em Graceland transformou-se numa lucrativa mistura de túmulo faraónico, centro comercial religioso e meca do rock. O rei é venerado como um Deus e depois de morto já vendeu mais discos do que enquanto esteve vivo. Os crentes denominam-se “presleyterianos” e abrem igrejas em Memphis, Las Vegas e na Internet. Há até quem sugira que o dia do seu nascimento, 8 de Janeiro, seja considerado feriado nacional nos Estados Unidos.
«Para os gregos, todos os deuses eram mitos. Para nós, a crença de que o Elvis nunca morreu e viaja ainda hoje na sua Harley Davidson, algures pelas ruas de Las Vegas, pode ter o mesmo significado. O mito constrói-se no pressuposto desta incerteza. Serão histórias verdadeiras ou falsas?» A pergunta é de Paulo Sargento dos Santos, subdirector do departamento de psicologia da Universidade Lusófona. «É geralmente na adolescência que se seguem os grandes ídolos», conta.
Os mais jovens costumam fazer parte de uma contra-identidade, oposta aos valores dominantes no resto da sociedade. Para o psicólogo, a existência de mitos, mesmo que tenham uma carga demasiado folclórica, não tem qualquer carácter negativo. Pelo contrário. «Os mitos sempre fizeram parte de todas as sociedades. Eles não são mais do que uma narrativa fabulosa que passa entre gerações.»
OS HOMENS PREFEREM AS LOURAS?
Mas não são apenas os mais novos que seguem os seus ídolos para qualquer lado e conhecem todos os pormenores da sua vida privada. Filipa Barroso tem 27 anos, é advogada e é uma das maiores fãs da Marilyn em Portugal. Começou a admirar a actriz de Os Homens Preferem As Louras, aos oito anos. Hoje, depois da leitura de várias biografias, não tem dúvidas de que ela «foi assassinada, devido a seu envolvimento amoroso com Kennedy».
A sua tese é corroborada pelo facto de a autópsia de Marilyn nunca ter sido revelada publicamente. «Era improvável que ela tivesse tomado uma dose tão anormal de barbitúricos. Só se tivesse sido injectada.»
No Carnaval do ano passado, mascarou-se e encarnou a sua actriz preferida, comprando de propósito uma peruca loira e um vestuário ousado, tal como os que a actriz vestia. «Prestei homenagem à maior diva de Hollywood de todos os tempos», assegura. Filipa defende que Marilyn era uma «mulher extremamente sensível e inteligente, ou não teria casado com um dos intelectuais da época, Arthur Miller».
Luís Lima, de 31 anos, vendedor de publicidade, tem uma popa e umas “costeletas” (patilhas) à Elvis Presley. Já pertenceu ao clube de fãs do Elvis, em Almada, pertence a uma empresa de sósias e venceu vários concursos de imitação ao rei do rock. «O Elvis encarnou como ninguém o espírito rebelde. Ele teve uma vida que eu gostaria de ter vivido.» Luís já viu todos os filmes interpretados pelo cantor nascido em Tupelo, no Mississipi, e sabe todas as histórias que estão por detrás das letras das suas canções. «Always On My Mind é uma das minhas músicas preferidas. Ela fala do divórcio com a sua mulher, Priscilla, num dos momentos em que o rei mais sofreu.»
Os suicídios de Elvis e Marilyn ainda hoje fazem correr muita tinta nos jornais. Uma das teses mais em voga é a que acusa a indústria de entretenimento de os ter levado a tão desesperado acto. O psicólogo Paulo Sargento dos Santos discorda. «A causalidade linear é muito perigosa. Não gosto de dizer isto desta forma, mas os dois eram pessoas perturbadas do ponto de vista emocional. Quando somos mais frágeis a pressão ataca-nos muito mais.»
AS DIVAS DO POVO
A princesa Diana não se suicidou. Ela morreu a 31 de Agosto de 1997, num desastre de automóvel nas ruas de Paris, deixando órfãos um sem-número de fãs, entre eles muitos portugueses. Marta Oliveira, de 26 anos, estudante, considera-a «o maior de todos os mitos». Ela seguia a par e passo a vida da princesa do povo. «Diana foi a pessoa mais fotografada de sempre, participou nas grandes causas humanitárias, como a luta contra a Sida e as minas pessoais, e fartou-se de sofrer [com a frieza real no Palácio de Buckingham]», sustenta.
Prosseguindo: «Nunca uma personalidade teve a sua vida tão exposta como a princesa Diana.» Marta aponta o dedo aos paparazzi, que obrigaram o motorista do milionário egípcio Dody Al-Faed a manobras arriscadas nas ruas da capital francesa. «Estava-lhe traçado um fim trágico.» A estudante de matemática classifica a sua morte de «injusta» e uma «enorme perda para a humanidade».
«Diana também morreu nova e bela, tal como o Elvis e a Marilyn. Imaginemos que ela tivesse falecido com a idade da Rainha Mãe. Alguém falaria dela com tamanha nostalgia?», interroga-se o psicólogo.
O único paralelo de idolatria que encontramos em Portugal é o do mito de Amália Rodrigues. «Nós ouvimos os seus discos da altura em que ela se encontrava na sua plenitude artística. As fotos que aparecem nas revistas são quase todas da época em que ela era nova. A Amália velha não está na alma dos portugueses», explica Paulo Sargento dos Santos. Para os fãs, a maior fadista de todos os tempos talvez tenha morrido sem rugas, com o timbre de voz perfeito e uma beleza jovial. «Do ponto de vista simbólico tenho dúvidas de que qualquer um destes mitos tenha efectivamente morrido», assegura o especialista.
ELVIS O REI
Em Dezembro de 1970, Elvis encontrou-se com o Presidente dos Estados Unidos. «Vestes-te de forma muito radical, não é?», terá dito Richard Nixon. O rei do rock n’roll respondeu-lhe: «Sr. Presidente, o senhor tem o seu espectáculo para encenar. Eu cá tenho o meu.» Elvis Aaron Presley nasceu a 8 de Janeiro de 1935, no seio de uma família pobre na pequena cidade de Tupelo, no Mississippi. Ele foi o gémeo sobrevivente de um parto difícil, numa longa noite fria. O pai, Vernon Presley, terá exclamado: «Uma forte luz azul brilhou sobre a casa.» Estava-lhe ditado um destino ao lado das estrelas. Aos dez anos já cantava Oldv Sheep, num festival de música infantil.
Uns anos mais tarde, a família mudava-se para Memphis, no Tennessee. O filho único do casal Presley grava em 1954, o primeiro single, That’s All Right. O primeiro período de glória deu-se entre 1955 e 1956. O cantor revolucionou o mundo da música - fundindo o rock n’roll, o country, o R & B e o gospel - e as mentalidades, pouco habituadas a ver um branco a dançar e a cantar como um negro. O seu rock trazia à juventude dos anos 50 uma lufada de ar fresco. Heartbreak Hotel e I Was The One estavam semanas consecutivas nos tops. Mas o cantor queria também ser actor.
Em 1956, era a estrela da longa-metragem Love Me Tender. No ano seguinte, mudou-se com a família para a mansão de Graceland e brilhava nos ecrãs com Loving You. Em 1958, era chamado a servir o exército norte-americano na Alemanha, país onde conheceria Priscilla Ann, tinha ela 15 anos. Em 1960, quando regressou aos Estados Unidos, a sua popularidade diminuiu. Era a altura dos Beatles, Rolling Stones e The Doors entrarem em cena.
A 1 de Maio de 1967 casou-se com Priscilla, em Las Vegas, numa cerimónia semi-secreta. O seu regresso estava para breve. Em 1969, num concerto de Natal, filmado para televisão, o rei voltava a pôr as golas de fora. Nos quatro anos seguintes, os concertos voltaram a esgotar-se e os discos venderam milhões de cópias. A decadência despoletou-se após o fracasso do seu casamento com Priscilla Presley, que terminou em divórcio, em 1973. Músicas como Always On My Mind espelhavam a sua tristeza.
Os barbitúricos e a comida de plástico passaram a ser os seus vícios. Elvis engordaria uns bons quilos, e a sua saúde deteriorou-se exponencialmente. Na madrugada de 16 de Agosto de 1977 foi encontrado morto, num quarto de hotel. Uma falha cardíaca acabava com o homem, mas não com o mito.
MARILYN MONROE: A RAINHA
A 19 de Maio de 1962, Marilyn Monroe era a estrela do aniversário do Presidente norte-americano John Fitzerald Kennedy. Ela ofuscou a primeira dama, Jackie Kennedy, quando cantou num sussurro lascivo, “Happy Birthday Mr. President”. A audiência de 17 mil pessoas ficou muda e a suspirar pela loira mais desejada do planeta. A 5 de Agosto, três meses depois da sua melhor performance fora dos ecrãs, a diva aparecia morta em Los Angeles, com uma dose excessiva de barbitúricos.
Afinal, não era imortal. Norman Jeane Baker terminava com 36 anos de vida. Era o fim do carrossel de casamentos falhados com estrelas do desporto como Joe Di Maggio, ou génios da literatura, como Arthur Miller. Era a hora de fechar o pano a filmes memoráveis. Quem se pode esquecer de O Pecado Mora Ao Lado ou Os Homens preferem As Louras? Era o adeus da deusa que ganhou sem oposição o campeonato das louras, constituído por Jean Harlow, Carole Lombard, Jayne Mansfield ou Mamie Van Doren.
Nunca mais se iriam ouvir as suas frases insinuantes: «À noite só durmo com uma gota de Chanel N.º 5» ou «O que acha dos meus seios para uma mulher de 36 anos?». A actriz morena, Jane Russel perguntou-lhe um dia, com doses desmesuradas de ciúme: «O que é que usas no teu bâton? Anestésico?» Nascida a 1 de Junho de 1927, na cidade dos anjos, Norman Jeane viveu o sonho americano como uma eterna criança.
Mas tal como acontece em qualquer conto de fadas, tinha bruxas más ao virar da esquina. Num tributo à deusa máxima de Hollywood a Time Magazine contou a outra face do estrelato da loira que chegou a posar nua para ganhar a vida, anos antes da fama lhe bater à porta. «A sua morte foi sempre atribuída a uma overdose acidental, mas também se fala num complot político envolvendo os Kennedy ou a máfia.»
Verdade ou mito, o que é certo é que a vida privada da actriz era mais negra do que se supunha e não faltam histórias de abortos, depressões e conferências de imprensa anunciando o desejo de ficar sozinha. «No auge da sua carreira, Marilyn era um símbolo, tal como a Coca-Cola ou a Levis. Ela era algo de lindo e irrepreensivelmente americano.»
DIANA A PRINCESA
Na madrugada de 31 de Agosto de 1997, Diana Spencer fugia a toda a velocidade num Mercedes 280S, dos paparazzi, que não largavam um minuto a princesa sem coroa. No automóvel, seguia também o seu mais recente namorado, o milionário egípcio Dodi Al-Fayed, que lhe havia oferecido poucas horas antes um anel no valor de 200 mil euros.
A inglesa vivia um dos momentos mais felizes da sua vida. Mas a alegria seria fugaz. Numa curva apertada, num túnel parisiense, o carro despistava-se e deixava o playboy sem vida. Diana viria a morrer horas depois, no hospital, 36 anos e um mês depois de ter nascido em Sandringham, no seio de uma família aristocrata. A separação dos progenitores - lorde Johnnie Spencer e Frances Spencer - quando ela tinha sete anos, acabou por marcar a sua infância.
Diana afirmava nunca se ter esquecido da cena da sua mãe a fazer as malas e a partir da casa da família em Norfolk, no interior de Inglaterra. A juventude foi menos traumática. Em Londres dividia um apartamento com algumas amigas e trabalhava como baby-sitter e empregada de mesa. O seu caminho cruzou-se com o do príncipe Carlos, em 1977, nos campos de Althorp, propriedade de sua família. Ele namorava com a sua irmã mais velha, Sarah, mas não resistiu aos encantos da cândida rapariga - então com 16 anos.
O namoro acabou por dar lugar ao casamento do século, em Julho de 1981, mas a história de príncipes encantados teria os dias contados. Uma semana antes do matrimónio, Diana pensou em acabar com a relação, depois de descobrir a existência de uma amante, Camilla Parker-Bowles. Os anos do casamento foram de sofrimento. Diana padecia de disfunções alimentares. Carlos de uma frieza tipicamente britânica.
Os súbditos desconfiaram que algo não ia bem quando, em 1987, os dois chegaram separados ao País de Gales, região assolada por cheias, e nunca trocaram uma palavra. James Hewitt foi um amante de ocasião. Em 1992, o livro de Andrew Morton, contando as peripécias do casal real, despoletou o divórcio. A Grã-bretanha estava chocada.
Em 1995, Diana foi à televisão britânica contar toda a história. A mãe de William e Charles (os dois príncipes) ganhava a simpatia dos súbditos ingleses e vestia a camisola da caridade para com as crianças de Angola, vítimas de minas de guerra. Mas seria o namoro com o playboy egípcio que iria chamar a atenção dos tablóides ingleses, que só a deixariam em paz em Agosto de 1997. Esse dia em que ela partiu definitivamente.
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