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Vozes do dia-a-dia

Muitos objectos e serviços que usamos têm voz; mas quem fala por eles?

03 de julho de 2011 às 22:00

A voz ficou gravada dentro das máquinas, nas 249 vias manuais das portagens da Brisa, de Norte a Sul do País, às quais se lembraram os funcionários de alcunhar de ‘Andreas': "Efectue o pagamento" - repete a gravação à passagem de cada veículo.

Andrea Sá Couto, 35 anos, deixou lá a voz. Foi por acaso (ou então não). Natural de Lisboa, licenciada em Informática e Gestão de Empresas, como se vê não é locutora: integra os quadros de uma empresa de tecnologias de informação, a Glintt, que desde 2003 é parceira da Brisa no projecto para a modernização das portagens.

Recomecemos: Andrea trabalhava no processo de desenvolvimento da via manual, uma portagem que é operada pelo próprio condutor; e tudo parecia bem quando em 2008 estrearam a e-Toll na A17, nó de Mira; assim que o veículo parava, por sinais de luzes, a máquina indicava ao condutor que teria de introduzir o ticket de portagem e qual o modo de pagamento (multibanco, moedas ou notas). Acontece que muitas pessoas bloqueavam. E isso obrigava à intervenção remota de um operador, colocado numa central de controlo.

"Por analogia às bombas de gasolina, achámos que a via manual deveria ter voz" - conta Andrea Sá Couto. Sem mais voluntários para gravar as vozes de teste, Andrea avançou e quis o destino que a Brisa propusesse usar aquelas gravações. "Tenho três filhos, um rapaz com oito anos e duas meninas, com cinco e três anos, e na primeira vez que passámos juntos numa via manual, vindos do Algarve, o meu filho, que estava a dormir na altura, ficou furioso por não ter ouvido" - recorda Andrea. "No início eu ficava envergonhada mas é um orgulho para mim: sinto esta máquina como minha. Foi tudo feito em Portugal, investigação, concepção e desenvolvimento".

Andrea e Susana Lázaro não se conhecem mas já se ouviram. A prova disso é que Susana, 39 anos, é a voz amável e feminina das bombas de gasolina da Galp. Há clientes que abastecem o carro e até falam com a máquina, como se lhes respondesse.

Aos 15 anos, Susana sentou-se pela primeira vez ao microfone da rádio Ocidente, em Sintra, e pensou que tinha nascido para aquilo mesmo. "Trabalhava por amor à camisola". Passou por diversas rádios até ir parar à Nova Antena, onde conheceu o homem com quem viria a casar: José Lázaro.

Decidiram abandonar a rádio e só fazer locução de publicidade. O casal só não dá voz a temas de sexo e religião. É o seu pacto. "Somos tipo INEM: temos o telemóvel sempre ligado", explica a locutora. O cliente - que pode ser uma televisão, rádio, instituição, empresa - pede um casting aos estúdios para escolher a voz do comercial, de uma linha telefónica ou qualquer serviço.

"Como consumidora comum, vou a alguns sítios, oiço-me e surpreendo-me porque já nem me lembrava de ter gravado aquilo", conta Susana, que é também a voz promocional do canal por cabo Sony. "Há uns tempos fiz um trabalho para uma agência de publicidade e precisei de falar com eles. Quando liguei para lá, fui atendida por mim própria. Ainda fiquei uns segundos a ouvir para perceber se era mesmo eu - nem me lembrava".

Faz parte da vida de um locutor de publicidade - que afinal exerce uma profissão que nunca foi reconhecida. Ainda assim, um grupo de locutores juntou-se para regular este trabalho e estipular uma tabela de preços - 630 euros por uma gravação de televisão e 315 por uma de rádio, que, em média, têm a duração de 30 segundos.

Vozes da sorte e do dinheiro

Nascido em Vila Viçosa, José Lázaro, 42 anos, cresceu em Odivelas. Aos 12 começou a aprender guitarra na escola de música do famoso cantor popular Emanuel. Com 16 anos já era DJ: "As pessoas divertiam-se, mas acho que eu as incomodava, falava demais". Então a rádio pirata acabou por absorvê-lo. Começou na Nova Antena.

Hoje, a sofisticação no meio da locução, onde trabalha, está a léguas dos improvisos da rádio das décadas de 1980-90. Lázaro entra nos estúdios da On Air, no Lumiar, e grava a voz promocional do canal de televisão por cabo AXN, como se estivesse em Madrid. É como se ele estivesse em Portugal apenas na cabina de locução e, através de uma linha telefónica de alta qualidade, em Espanha está o estúdio de gravação. Já não são precisas viagens.

Tal como existem agências de modelos e de actores, existem agências de voz. A Addvoices é a maior delas, conta com actores, locutores, apresentadores, como Ana Zanatti e António Pedro Cerdeira nos jogos electrónicos, Mané Ribeiro e Catarina Wallenstein no som das lojas Pingo Doce, ou Luís Franco-Bastos e Cláudia Vieira nos filmes de animação. Outra é a Voxmedia, que trabalha com José Lázaro nas linhas de atendimento da CGD e no Centro de Emprego de Vila Nova de Gaia; ou com Rui Jerónimo, a voz dos Jogos Santa Casa.

Se quiser saber se é um euromilionário, Rui Jerónimo, 43 anos, diz-lhe por telefone. Funcionário da TAP há 20 anos, começou na rádio Nova Antena e agora usa o tempo livre para a locução. Ganha menos do que os profissionais, mas não se importa - pode ser que, por ironia, um dia lhe saia o Euromilhões.

"Este mercado é efémero: hoje estamos na mó de cima; amanhã, ninguém nos conhece", lamenta. "Cada vez mais a voz está associada à imagem. Antigamente interessava o timbre, uma boa dicção. Mas já nada disso importa", critica Rui, que chegou a ser a voz do mestre de ‘Masterplan' (SIC), apresentado por Herman José e Marisa Cruz e que deu a conhecer Gisela Serrano, mas a ele não.

Na verdade, a maioria dos locutores, não só Rui Jerónimo mas também Susana e José Lázaro, prefere o anonimato. Cultivam a velha mística da rádio: "É bom conhecer a voz e não a pessoa". Condição que tem vindo a desaparecer à medida que a internet invadiu as rádios.

Duas desta vozes conhecidas, Celestino Alves, 45 anos, e Carla Rocha, 38, gravaram também as indicações dos GPS da NDrive, uma marca nacional. Pode dizer-se que Carla Rocha acumula em muitos carros o programa de rádio da RFM ‘Café da Manhã', com as indicações de navegação na estrada. "Já tenho recebido e-mails de pessoas - principalmente homens - a dizer que se enganaram graças às minhas indicações. Do tipo: ‘Estava em Barcelona e fui dar a um sítio ermo. Veja lá isso'" - conta em tom de brincadeira a animadora de rádio.

Carla e o marido preferem a voz de Celestino Alves no GPS: "Estou farta de me ouvir. E quando o faço é num sentido crítico". Já Celestino, que estava esta semana no deserto em Marrocos, preferia estar a ser ‘conduzido' no GPS pela colega e amiga: "Se eu me enganar, sempre lhe posso dizer que foi ela que me enganou", brinca. Celestino explica que a NDrive quis humanizar aqueles aparelhos, com as duas vozes, não como acontece hoje com a maioria dos equipamentos, que usam vozes produzidas por computador.

O primeiro sintoma de cansaço físico manifesta-se na voz. Mário Andrea, director do departamento de Otorrinolaringologia, Voz e Perturbações da Comunicação do Hospital de Santa Maria - que em Setembro vai abrir a Unidade de Voz Profissional -, alerta para que, à mais pequena alteração da voz, se procure um médico. Isso permite um diagnóstico precoce. "Oiça a sua voz; goste da sua voz. É um lugar comum: ninguém gosta de ouvir a sua voz gravada. Mas se a pessoa estiver atenta, vai cuidar melhor dela. E vai estar atenta às suas alterações, vai fazer melhor gestão da voz, decidir a importância de uma boa respiração, da postura, dos cuidados a ter para evitar refluxo, da necessidade de descansar a voz e de saber que depois de um período de esforço a voz tem de descansar" - explica o médico que criou em 2003 o Dia Mundial da Voz (www.diamundialdavoz.com).

O serviço despertar

Ana do Carmo, 48 anos, conhece bem os cuidados a ter. Foi apresentadora de televisão, fez os ‘Jogos sem Fronteiras', festivais da canção, talk shows. Saiu pelos seus próprios pés da RTP em 1988 e hoje é assessora numa missão diplomática. Mas a voz é o seu dom. "Fazer locuções para  os dois programas de música que passam a bordo dos aviões da TAP é um prazer pessoal".

Também Margarida Guimarães, 52 anos, trocou a comunicação pela assessoria de imprensa. Foi directora de informação da Rádio Comercial, até 2000, e hoje é directora de comunicação da Unimagem. Quando mudou de funções, quis continuar a usar a voz através da locução em documentários nos canais por cabo Travel, Odisseia, História e Bio. Entretanto, gravou o áudio-guia do Museu do Azulejo, em Lisboa. "Gostava de pensar que este espaço é um pouco meu, mas é abusivo.  Mas agrada-me estar ligada a este museu, pela voz."

A voz pode acordar-nos, como a de Isabel Bernardo, 44 anos, que se ouve no serviço de despertar da PT - "deve ter sido gravada há pelo menos 15 anos, depois foi sofrendo uns ajustes". Mas a locutora continuou sempre a dar voz à PT, ciosa do seu anonimato: "Não gosto nada de me expor e o facto de trabalhar só com a voz é fantástico", conta. A voz tem destas coisas, fica no ouvido. Pode envolver-nos, revoltar-nos. Adormecer-nos. Ser uma ordem, um desejo.

Eládio Clímaco será sempre o ‘senhor Voz'

Há uma voz que fala por si. Pode ser simplesmente identificada por ‘Eládio Clímaco', uma espécie de instituição (humana) que todos os portugueses já ouviram. Instituição por isso, por ser património do País. "Tenho pena de ter a idade que tenho [69 anos], sinto-me com tanta genica para fazer televisão. Suponho que mais ou menos todos conhecem a minha voz. Mas acho que ainda hoje aprendo a forma de utilizá-la. E não há em Portugal quem ensine a fazê-lo. É um dom que nasce com as pessoas. Eu não trabalhei a voz, trabalhei a leitura - sempre me disseram que tinha de trabalhar a leitura. E eu fi-lo. Com a minha voz gostei muito de fazer documentários - era o que mais me permitia dar asas à imaginação. Gostei particularmente do ‘Cosmos' , de Carl Sagan, e dos documentários bíblicos, sobre a evolução da espécie humana. Gosto, sim, é pouco de me ouvir porque ponho sempre defeitos em tudo, temos sempre a possibilidade de fazer melhor". Eládio Clímaco entrou para a RTP em 1972, mas antes já tinha passado pelo teatro, no Grupo Fernando Amado, e por diversas rádios, estreando-se aos 20 anos na Rádio Peninsular. A sua voz assume várias personalidades de tal forma que, nos documentários sobre a vida animal, só os bichos falam por si.

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