Albarran descobriu-a numa agência de manequins. Balsemão convenceu-a a deixar de ser jornalista. Sufoca com Carrilho.
Conta-se. Quando se enganava ou o teleponto se avariava, em ‘Páginas Soltas’, na SIC Notícias, ai meu Deus; lá vinham os dramas. Conta-se a história de um realizador que, após três ou quatro horas de sucessivos enganos, largou o estúdio. Conta-se que o casamento com Pedro Miguel Ramos, numa praia em Punta Cana, acabou com muito pouca cultura, e o senhor que logo se seguiu, ainda que tivesse zelado por tal pasta no governo de Guterres – e lhe tivesse enchido o regaço de flores e namorado com jantares –, tornou-lhe depois a vida num folhetim. O próprio contou a revista: "Três dias antes do nosso casamento ela surpreendeu-me com a notícia de que era casada com o Pedro Miguel Ramos. […] O que ela fez foi agarrar numa amiga e ir direita a Punta Cana." O que esquisito começa, nunca se torna perfeito.
Conta-se que quando era a menina da SIC passava os dias ao telefone com a mãe, e que então nunca se separava de uma pequena ‘lulu’, fosse na televisão ou nos restaurantes, com os amigos. Conta-se, conta-se.
OS 600 CONTOS
Bárbara dos Santos Guimarães, que não é um provérbio, gosta de Paris e de aletria. Salgados, com calma, porque estamos a falar de iguarias camaradas da celulite: feijoadas, dobradas e cozidos à portuguesa. Curiosa. Generosa. E teimosa. Coloca os sentimentos à frente da racionalidade. A propósito do namorico com Kiki Neves, não deu ouvidos à sugestão de uma amiga, que lhe aconselhava recato. Isto é; não devia, ou não podia, aparecer acompanhada, quando existe processo em tribunal e filhos metidos ao barulho. No passado longínquo, namorou com João Rocha, ex-comissário da PSP que, nos anos 90, ficou afamado de ‘super-polícia’. Conheceram-se nos bastidores do Universo da moda; ele era manequim e Bárbara Guimarães uma das alunas do inglês Brian McCarthy. A autoridade policial não gostou da possibilidade de ser trocada. Fez esperas e alguns telefonemas. Em vão. O coração já tem novo dono. Pedro Miguel Ramos, seu colega, com quem mais adiante casa, em segredo, na praia em Punta Cana. Esse enlace ia dando cana, em 2001, no momento em que a apresentadora e o antigo ministro decidem casar. Adiou-se a conservatória, mas a data da festa manteve-se. Bárbara dos Santos Guimarães, a tal noiva que se escondeu debaixo de um pano preto, tem um ex-marido que lhe faz a vida da mesma cor. O divórcio duríssimo e traumático e o processo de violência doméstica que moveu contra Manuel Maria Carrilho já haviam sido motivos suficientes para que a auto-estima roçasse no chão. Recentemente, em Março, dia 7, com a perda da guarda do filho Dinis, de 12 anos, o seu coração de mãe estará a meia haste. O seu pensamento – assegura a jornalista Ana Leal – possui um exclusivo: "Proteger os filhos." A amiga de longuíssima data resume que uma lutadora como a Bárbara não cambaleia quando o assunto envolve o maior amor – a descendência. Quem é próximo do processo reforça: "O pior de tudo é que, com vintena de queixas em tribunal, ela andará nisto até aos 50, porque o Carrilho não a vai deixar em paz, pelo menos enquanto os filhos forem menores."
Bárbara e Ana Leal encontraram-se na TVI, nos meados dos anos 90. A amiga chama-a "sonhadora"; uma idealista com os pés na terra. "Lutou para ser jornalista. E foi." Artur Albarran, em 1993, descobriu-a num casting e levou-a para o ‘Novo Jornal’. O curso de Relações Internacionais seguiu o caminho do bilhar grande. Estreou-se na informação, ao lado de Sofia Carvalho, no noticiário nocturno, que ia para o ar às 23h30. Quando o formato do programa expirou, viram-na choramingar por pena, e medo, de vir a ser dispensada. Acabou por substituir Maria João Silveira, que fora arredada quatro dias antes de entrar ao serviço, e voltou para o ecrã, em pé e ao lado de José Carlos Castro. Nas águas-furtadas onde vivia, na zona da Estefânia, em dia de festarola ninguém ficava de fora – desde José Ribeiro e Castro, o director-geral e administrador da TVI, à telefonista. Uma profissional dedicada à procura da perfeição é a primeira lembrança que Bárbara deixou a antigos colegas na Televisão Independente. Mas alguns realizadores e produtores desesperavam com ela. Outros recordam a ‘gaffe’ no apelido do então primeiro-ministro britânico – John Major – à moda portuguesa. Não se atrapalhou. A gralha é de segunda divisão. Quando surgiu o convite da SIC, teve tudo menos vontade de rir: "Eu via-a chorar por estar dividida", diz Ana Leal. A divisória interior situava-se entre continuar a ser jornalista ou abraçar a nova proposta: apresentação. Ponderou recusar os 600 contos – uma fortuna à época – que Francisco Pinto Balsemão oferecia à substituta de Catarina Furtado. Não terá sido o vil mental o monopólio que a motivou a aceitar. A precária situação da TVI e também os previstos efeitos do desafio empolgaram-na, evidentemente. As luzes de uma ribalta personificada no ‘Chuva de Estrelas’ serviram de decisivo incentivo.
EM NOITE DE TROVOADA
Depois da separação dos pais, e de ter vivido com a mãe, em São João da Madeira, a mudança para a capital assenta nessa freguesia de Oeiras. Praticou corfebol no Clube de Carnaxide Cultura e Desporto e completa o liceu em Carnaxide. Revela-se uma aluna atenta, empenhada, interventiva, "gostava de falar, de participar nas actividades, de apresentar os trabalhos", revive Magda Sousa, a sua querida professora de Língua Portuguesa, no documentário do Biography Channel.
Bárbara é filha do escultor João Antero, autor do Monumento aos Combatentes do Ultramar, que em 1973 estava em África a cumprir o serviço militar obrigatório. O soldado encontrava-se com Isabel Amorim dos Santos, na altura sua esposa, grávida, no Lubango, em Angola. As dores de nascimento encaminharam-se na tardinha de 21 de Abril. Mas, e como a parteira que ia acudir à parturiente estava "tocada", e não era de música, ao médico Rodrigo Guedes de Carvalho (pai do jornalista) não lhe sobra alternativa e faz o parto em casa. Os trovões rasgavam o céu africano. A padroeira contra os raios e tempestade – Bárbara – foi o nome óbvio.
Madalena Barata, ginecologista obstetra e fundadora e coordenadora da Unidade Funcional de Medicina da Reprodução do British Hospital, conheceu Bárbara ainda no tempo da TVI: "Era uma jovem jornalista que, por motivos profissionais, pediu-me autorização para filmar um parto." Anos mais tarde, já casada com Carrilho, e mãe de Dinis, escolheu-a para ser a médica na sua segunda gravidez. O ponto de ruptura do casal aconteceria após o nascimento da filha e coincidiu com o regresso de Carrilho de Paris, onde esteve como Embaixador da UNESCO. Bárbara pode ter dado à luz dois bonequinhos, mas é bom que fique dito: "A Bárbara não é uma boneca. É consistente, consciente, responsável e uma pessoa maravilhosa." Madalena Barata esteve na festa privada do 40º aniversário, no restaurante Can the Can, no Terreiro do Paço. Assistiu à história da cadela. Na inicial audiência do julgamento de violência doméstica, lá está a referência: "O arguido, ao ver a cadela, transfigurou-se, empalideceu e num tom imperativo e zangado disse, perante todos os convidados que ali se encontravam, ‘esse cão não entra lá em casa, se o cão entra saio eu’ e, dirigindo-se às amigas da assistente, ‘suas estúpidas, que ideia mais estúpida, acabaram com o meu casamento, o que é que vos passou pela cabeça?’".
Para o público, o tal casamento de sonho estoirava-se pesadelo quando Bárbara mudou a fechadura da casa. A sua atitude amparava-se com a acusação gravíssima de violência doméstica. Durante os dias em que se viu impedido de ver as crianças, o antigo ministro espanca verbalmente a mulher, com referências a álcool e comprimidos. Fonte próxima do processo diz que "ela não se sabe defender dos ataques que ele lhe faz em público". Já Francisco Moita Flores rasga-lhe elogios mas refere que na última vez que a viu notou "que estava desorientada, e não era para menos". Maya deslumbrou-se com a simplicidade de Bárbara e com a proximidade que ela tem com as pessoas. Nuno Graciano, parceiro de Maya no programa ‘Manhã CM’, na CMTV, não precisou de intermediários para exprimir a sua opinião sobre a forma como Carrilho utiliza os filhos num divórcio: "Você droga-se ou injecta-se com lixívia?"
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