Chegou a apanhar todos os dias o avião para Espanha. Ex-colega ajudou-o a chegar ao cargo sobre o qual chovem balas.
A água, por norma, é a bebida predileta. A não ser que haja cabrito assado. Aí, a regra muda. O manjar acompanha-se com vinho, e do tinto, claro. Excessos, nunca. Tido como uma pessoa "sincera, honesta e recta" por conterrâneos de Cesar, em Oliveira de Azeméis, Carlos da Silva Costa, ou Carlitos, possui uma casa de férias em Vilamoura e é com sacrifício que deposita os pés na praia. O mar do governador do Banco de Portugal não tem ondas, está no campo e denomina-se golfe. João de Deus Pinheiro pegou-lhe o gosto pelo desporto escocês no período em que lhe chefiou o gabinete em Bruxelas.
A descompressão, não só de tacadas vem. No apartamento no Parque das Nações, as prateleiras enchem-se com Eça de Queirós, Vergílio Ferreira, Lobo Antunes, Alberto Caeiro, Jorge de Sena, Ruy Belo, Eugénio de Andrade ou O’Neill. E Jacques Prévert, Rainer Maria Rilke, Friedrich Hölderlin. Na música, prefere a clássica. Mozart, Beethoven e Franz Liszt. No cinema, Fellini, Visconti, Bergman, Jean-Luc Godard, Bernardo Bertolucci são os realizadores de eleição de um benfiquista convicto. No estádio, e temos pena, transforma-se num adepto moderado. O cargo abafa-lhe os nervos. Quando o Benfica contemplou a luz da Taça dos Campeões Europeus, em 1961, os pulos que deu não foram poucos; bastantes. O amigo de infância, Aníbal Campos, presidente do conselho de administração da Silampos, lembra-se, e bem, desse glorioso momento: "Nós, os três – Carlos da Silva Costa, o irmão, José da Silva Costa, e eu – abraçámo-nos e começámos aos saltos de tanta alegria". Por amor à camisola, o trio arranjou jeito de estar actualizado: "Aprendemos os fusos horários para seguirmos os jogos". Da idêntica marca – Benfica – compunha-se a nicotina bafejada entre sacos de sal na mercearia de um familiar. A intensidade clubística, os pontuais cigarros inalados no esconderijo, o futebol desenrascado na areia batida, os jogos dos matraquilhos e do monopólio, as figas a acertarem nos pássaros ou a fruta arrancada da árvore sem aval do vizinho nunca desviaram Carlos da Silva Costa do itinerário: estudos. Na Escola Primária 5 de Outubro não houve educando que se igualasse a ele: "Foi o melhor que por lá passou" – palavra do descendente do homem que trouxe a panela de pressão para Portugal. O veredicto que a turma ouviu do professor mantinha-se: "Olhem para este rapaz, olhem". Olhavam e viam um garoto que, embora não prescindisse da brincadeira, passava horas a instruir-se. Responsabilidade e disciplina parecem substantivos exclusivos de adultos, porque uma criança, caramba, não logra tanto. Mas considerando que o maná caído no deserto não abrangeu o estreito Olimpo de Cesar, talvez alteremos de opinião. O exemplo em casa não lhe dava asas para adejar no desleixo.
FAMÍLIA
Filho de um operário da fábrica de lápis Viarco e de uma costureira, Carlos da Silva Costa, nascido no terceiro dia de Novembro de 1949, tinha motivos para perceber que fácil, fácil, nessa ocasião, nem a canja. Aplicou-se e determinou-se. A escassez de meios económicos não suportava explicador que o ajudasse na preparação do exame da quarta classe, mas passou com distinção. Até chegar à Faculdade de Economia da Universidade do Porto, onde encontrará Daniel Bessa, director-geral da Cotec, Carlos Tavares, presidente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários, e Alberto de Castro, presidente do conselho de administração do Banco de Fomento, muita transpiração correu-lhe no rosto. Completa o Curso Geral de Comércio na Escola Comercial de Oliveira de Azeméis, logo conclui o Curso de Contabilista e, em simultâneo, a habilitação ao Ensino Superior e parte do curso de Perito Aduaneiro, no Instituto Comercial do Porto. Em 1968, aluga um quarto e inicia o trâmite académico.
É na Invicta que conhecerá Maria Alexandra Taveira, a mulher com quem mais adiante casará e terá dois filhos, Mariana e João. A antiga deputada do Partido Comunista Português, Ilda Figueiredo, calhou ser sua colega, embora a memória que guarda de Carlos Costa não nos ajude: "Lembro-me dele, mas quase não tive contactos, dado que eu trabalhava e quase só ia a aulas práticas que eram obrigatórias". Carlos Costa ia a todas, a todas as aulas, bem entendido, e a determinada altura, para aliviar os gastos suportados pelos pais - Senhora Felismina da Silva e o Senhor Ernesto Alves da Costa - começou a dar explicações. Sobrava-lhe mais disposição do que tempo para participar na vida intelectual da cidade, preenchida pelas múltiplas tertúlias nos cafés, que se constituíram no palco soberano de variados temas de discussão. Fernando Teixeira dos Santos, ministro das Finanças do governo de José Sócrates, e igualmente seu companheiro de licenciatura, frequentava o café da universidade e o Piolho/Âncora d’Ouro e não se recorda de por essas bandas ter visto Carlos Costa. Vê-lo-ia com frequência noutra circunstância; já recém-licenciados, foram assistentes na mesma faculdade que os formou. Sobre o seu amigo de longa data, Teixeira dos Santos não manda recado por ninguém: "Carlos da Silva Costa é um homem com sentido de rigor e uma pessoa consciente das suas responsabilidades." Quando, em 2010, Victor Constâncio desacertara as previsões macroeconómicas e de falhas na supervisão bancária por não ter agido atempadamente nos casos BPN, BCP e BPP e, imagine-se, acabou vice-presidente do Banco Central Europeu, o seu lugar acabaria por ser preenchido por Carlos Costa: "É verdade que a sugestão partiu de mim e também do Engº José Sócrates."
Uma verdade nunca surge sozinha; enquanto vice-presidente do BEI (Banco Europeu de Investimento), com responsabilidade pela direcção financeira e pelas operações de crédito para investimento, Carlos Costa ajudara a desbloquear financiamentos para as parcerias público-privadas durante a administração de José Sócrates. O convite para liderar o Banco de Portugal não tardou. Em 7 de Junho de 2010 toma posse. Um amigo da terra não dá o nome, dá o que pode: elogios ao carácter e a frase que lhe disse: "Vais-te meter numa grande alhada." O troco que recebeu, contudo, descansou-o: "O comboio só pára uma vez neste tipo de estações."
SALGADÍSSIMO
Dois anos depois, estalou com os indícios de que Ricardo Salgado andava insonso: o BES (Banco Espírito Santo) fez aumento de capital, declinando valer-se da linha de capitalização da troika disponível para a banca nacional. A derrocada dar-se-ia em Agosto de 2014. O tempero sobraria para Carlos Costa. Renomeado governador, em 2015, pelo governo PSD/CDS, as balas em sua direcção disparam em diferentes canos. Francisco Louçã aponta o indicador a Costa. Acredita que dominava detalhes da "vinculação tóxica entre o Grupo Espírito Santo (GES) e o BES" quase um ano antes da resolução do banco, e acusa-o de não ter actuado. Em relação ao Banif, o tiroteio não muda: "Actuou pessimamente. Ou por decisão própria, ou por impulso de Frankfurt". Nuno Morais Sarmento ficou de boca aberta com a recondução. Censurou a pobre atitude do Banco de Portugal face à proposta de substituição da regência de Ricardo Salgado, que precedeu a referida ruína do BES: "O problema está em que essa decisão surge 45 dias mais tarde", uma duração q.b. para que "desaparecesse mais de 50% do valor do Grupo Espírito Santo". Recorrendo-se ao bom português, afirmou que o Banco de Portugal permaneceu na situação caricata "nem o pai morre nem a gente almoça".
António Bagão Félix digere com tolerância a actuação do governador: "Num contexto complexo, nacionalmente e nos bancos centrais da União Monetária, Carlos da Silva Costa tem tido uma actuação possível, ainda que não isenta de erros – erros de avaliação e resultantes de um aparelho de supervisão lento e pesado." Trabalho novo teve, em Setembro de 2014, António Varela. Chegou ao Banco de Portugal. O administrador com o pelouro da supervisão demitiu-se, agora, a 7 de Março. A demissão surge antes de se principiar a comissão parlamentar de inquérito ao Banif, onde será chamado a depor. Se Carlos Costa já tinha uma sucursal de problemas, agora, que Deus lhe valha. O ambiente entre os Costas anda poluído. António Costa assumiu-se contra a sua postura na busca de uma solução para os investidores que colocaram dinheiro em papel comercial do BES. Mas este Costa não se demite nem se sente pressionado, apesar da rajada de críticas. De resto, os estatutos de independência do Banco de Portugal impedem que seja afastado pelo Governo, a não ser em caso de falha grave de conduta. Resistente, não falhava o avião das seis da manhã quando diariamente ia a Espanha para presidir o Banco Caixa Geral (Espanha). Agora recusa-se a abandonar o barco.
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