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Zeinal Bava, o executivo irrequieto

Chamaram-lhe "Messi das telecomunicações", mas Zeinal Bava quer ser comparado a Ronaldo.

11 de junho de 2014 às 12:43

Receber um nome novo aos 48 anos é algo que não é impossível para Zeinal Bava. Aconteceu-lhe, há poucas semanas, quando o gestor que acumula a presidência da Portugal Telecom e da Oi - e assim continuará quando a fusão das empresas estiver concluída, o que deverá ocorrer até ao final deste ano - foi à cidade de Campo Grande, capital do estado do Mato Grosso do Sul. Doravante poderá usar o nome sagrado Guyra Jyguaka Hovoy, o que significa "pássaro do cocar verde" em língua guarani.

A índia Dalila, que celebrou o rito, depois de o português ouvir a orquestra indígena Teko Arandu e observar o grupo de dança e canto Guaté, justificou a escolha do nome dizendo-lhe que esse pássaro "não fica parado num lugar e sempre busca voos mais altos". Nem de propósito, Zeinal estava ali devido a um road show que o fez percorrer dez estados, mostrando os investimentos da Oi para melhorar o serviço aos clientes de telefones fixos, telemóveis, internet e televisão por cabo.

Fazendo jus ao nome guarani, tem dividido o tempo em três partes, entre o Rio de Janeiro, onde está a sede da Oi - embora aproveite fins de semana para ir ao resto do país -, Lisboa, e as viagens a Nova Iorque e Londres, praças financeiras essenciais para o nascimento de um dos 20 maiores grupos de telecomunicações do Mundo, com 100 milhões de clientes no Brasil, em Portugal e África.

O aumento de capital agora realizado, de 8,250 mil milhões de reais (cerca de 2,670 mil milhões de euros), deveu-se sobretudo a entidades que investem pela primeira vez numa empresa sul-americana, na terceira maior operação de sempre no Brasil e quinta maior que teve lugar em todo o Mundo neste ano.

À frente da Oi há um ano, ainda antes da assinatura do memorando de entendimento com a Portugal Telecom, o que só aconteceu em outubro de 2013, o gestor que lidera o grupo português apressou-se a deixar marca na operadora nascida da compra da Brasil Telecom pela Telemar. Enquanto os dividendos dos acionistas eram reduzidos em 75 por cento, cinco mil trabalhadores foram contratados, muitos dos quais estavam antes em outsourcing.

Outra iniciativa foi mais original. "Deixem-me fazer isto enquanto não me conhecem", explicou aos mais próximos, ao decidir que integraria equipas de vendas porta a porta da empresa, ‘equipado' com boné e calças de ganga. Com o mesmo espírito, encarregou-se também de fazer de ‘cliente-mistério' nas lojas da Oi.

Quem com ele trabalha já se habituou à energia inesgotável - necessária para longas jornadas de trabalho que muitas vezes culminam em jantares com diretores da Oi - e o conhecimento do mais ínfimo detalhe de cada negócio, patente ao descobrir incongruências durante uma apresentação que forçam o regresso a um slide de Powerpoint apresentado minutos antes. Assim é em Portugal, assim continua a ser no Brasil.

ENGENHEIRO FINANCEIRO

Zeinal Abedin Mohamed Bava, nascido em 1965, quando Moçambique era Portugal e Maputo era Lourenço Marques, é casado com a advogada Maria de Fátima, mãe dos seus três filhos. O mais velho está a acabar os estudos universitários e passou algum tempo com o pai no Rio de Janeiro, mas, para estar com toda a família, o gestor precisa de passar a noite a atravessar o Atlântico num daqueles aviões que desde muito cedo fizeram parte da vida do muçulmano sunita, que tem os filhos mais novos a estudar num colégio católico.

A primeira grande viagem foi de Moçambique para Portugal, para onde a sua família, que tinha negócios no ramo do comércio e imobiliário, rumou após a independência da ex-colónia. Chegado no quente ano de 1975, preferiu ir estudar para Inglaterra aos 14 anos, beneficiando da presença de familiares, e por terras de sua Majestade tirou o curso de Engenharia Eletrónica.

Essa formação poderá explicar a vontade de saber como tudo funciona, mas o seu percurso está marcado pelo curso de Gestão, tirado na Universidade Nova de Lisboa. Financeiro de excelência, trabalhou na Warburg Dillon Read, Deutsche Morgan Grenfell e, finalmente, na Merrill Lynch. Foi enquanto diretor executivo dessa consultora que começou a seguir de perto a Portugal Telecom.

Contratado em 1999, Zeinal Bava chegou a um grupo em que o Estado detinha a ‘golden share' que garantia controlo, apesar das sucessivas vendas de capital social. E em que a liderança tinha laivos de rotativismo, passando do ex-ministro do PS Francisco Murteira Nabo para o ex-secretário de Estado do PSD Miguel Horta e Costa.

Aceitou o desafio, com apoio da mulher, que pretendia criar os filhos em Portugal, começando como administrador financeiro. Mais tarde, subiria à presidência da TV Cabo e da TMN, tendo assento no conselho de administração da Vivo, a operadora de telemóveis nascida na multimilionária privatização da Telesp Celular, que a Portugal Telecom acabou por vender em 2010 aos espanhóis da Telefónica, por 7,5 mil milhões de euros. "Nunca teríamos uma fusão de igual para igual com eles", comenta quem acompanhou o processo.

TRÊS HORAS DE LANCHA

Perder a Vivo não significou sair do mercado brasileiro, graças à entrada na Oi, muito endividada devido ao esforço financeiro da Telemar na compra da Brasil Telecom. Para a operação de fusão resultar - ainda que no Brasil haja quem considere que a Oi passou para mãos portuguesas e deste lado do Atlântico alguns defendam que a Portugal Telecom ficará em mãos brasileiras -, foi preciso fazer passar a ideia "uma ação, um voto".

Alterar mentalidades tem sido uma das prioridade do gestor, assim como lançar produtos adequados às necessidades dos clientes. No negócio da televisão por cabo, obteve um acordo com a Rede Globo que permite oferecer 46 canais, incluindo estações regionais, pois, num país de elevada migração para os grandes centros urbanos, todos querem continuar a ver notícias da terra de onde vieram. Tal como em Portugal, onde a Meo se impôs enquanto marca, está em curso a transformação de uma empresa de telefonia numa empresa de entretenimento.

Mantendo contacto entre os dois lados do Atlântico graças à Telepresença, sistema de videoconferência em que interlocutores a milhares de quilómetros aparecem em tamanho real, Zeinal não dispensa as visitas ao terreno. Numa ocasião, viajou três horas numa lancha até uma comunidade indígena que tem um orelhão (telefone público) da Oi, falando com o chefe para saber se está a ser utilizado.

Também foi já consigo à frente da Oi que decorreu a ligação à rede de fibra ótica de Macapá, a capital do Amapá, estado longínquo em que não havia um milímetro de fibra, o que permitiu ao governo brasileiro dizer que já não existe nenhum estado sem essa tecnologia.

Descrito pela imprensa espanhola como "o Messi das telecomunicações", Zeinal prefere ser comparado a Cristiano Ronaldo, embora ainda não saiba se assistirá aos jogos de Portugal no Mundial do Brasil, de que a Oi é patrocinadora. Seja como for, a sua política de recursos humanos não poderia ser mais diferente da que é seguida pelo Real Madrid. Em vez de contratações ‘galácticas' para a Portugal Telecom, este adepto do Benfica premeia a "geração talento interno", fazendo subir quem está dentro e rodando quadros pelas áreas de negócio, para que a qualquer momento possam assumir novas funções, sempre focados no "fazer acontecer" e no "criar valor".

CAIXA: HOMENAGEM AO EXPLORADOR QUE ALARGOU AS FRONTEIRAS DO BRASIL

Dois generais e um tenente-coronel brasileiros juntaram-se a Zeinal Bava na homenagem, realizada em Belém do Pará a 25 de maio, ao português Pedro Teixeira, cuja exploração do rio Amazonas foi essencial para que o Brasil tenha as fronteiras atuais. Nascido em Cantanhede em 1570, chegou ao Brasil em 1607, durante o domínio castelhano, combatendo franceses, ingleses e holandeses. Depois de fundar a cidade de Belém do Pará, foi encarregado de liderar a expedição para descobrir a nascente do rio Amazonas. Partiu em 1637, com 100 portugueses e mil índios, e foi até Quito (Equador). Voltou dois anos depois, reclamando milhares de quilómetros para a coroa portuguesa. Está desde 2009 no Livro de Heróis da Pátria do Brasil.

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