Criadora abandona o Cais do Sodré, em Lisboa.
Primeiro foi o Cais do Sodré, onde ocupou uma loja abandonada, e, mais tarde, o desativado Bar Luso, numa rua bem conhecida pela prática da prostituição. Mas agora que o Cais do Sodré está na moda – transformado em ponto nevrálgico da vida noturna e da rede turística lisboeta –, a encenadora Mónica Calle, de 48 anos, já não quer lá estar.
Arrumou as tralhas e acaba de se mudar para o centro da Zona J, no coração de Chelas, onde diz que vai "começar tudo outra vez". Vinte e dois anos depois de fundar a companhia Casa Conveniente, quer recomeçar do zero, com o espírito de sempre: estar com as pessoas; misturar-se e trabalhar com elas; atrair ‘não artistas’ para a arte.
"Quando fui para o Cais do Sodré, em 1992, foi desde logo com a intenção de me envolver com a comunidade", conta. "Para mim, nunca fez sentido fazer teatro só por si. Inicialmente, atraiu-me a mistura que o sítio permitia, as pessoas de origens diferentes que lá viviam ou por lá passavam. Mas as dinâmicas humanas que existiam desapareceram, e viemos para aqui, para um bairro social. Onde acredito que tudo é possível e vai acontecer."
Encantada com o "fervilhar de criatividade" de Chelas, onde diz ter encontrado "vontade de fazer coisas" e talentos naturais em áreas que vão da música às artes de rua, passando pela dança e pelas artes plásticas, a encenadora fez uma primeira aproximação ao bairro no ano passado, quando aí preparou uma recriação da obra ‘A Sagração da Primavera’, de Stravinsky. Mas há quatro anos que estava a tentar implantar-se numa zona tida por ‘problemática’. "Comecei a pensar nisto em 2010. A achar que fazia sentido.
Há três anos iniciei os contactos com a Câmara Municipal de Lisboa [CML]." Candidatou-se ao Bip/Zip (que apoia projetos em "bairros e zonas de intervenção prioritária"), recebeu 50 mil euros e lançou-se ao trabalho. A CML cedeu-lhe ainda um espaço de cem metros quadrados que foi inicialmente concebido como loja, depois transformado em apartamento e que Calle vai reconverter em espaço aberto, com a colaboração do ateliê Artéria. As obras vão custar 30 mil euros e a encenadora vai pagar uma renda (simbólica) de 45 euros por mês. "Já temos duas arquitetas a trabalhar connosco e quando estrearmos o primeiro espetáculo aqui, um texto inspirado em Bertolt Brecht, em janeiro, teremos quase tudo pronto." Ali nascerá um espaço para a cultura com duas portas de entrada – como ela tanto gosta. Um teatro aberto. Que todos os moradores de Chelas sintam como algo que lhes pertence.
Espalhar a palavra
Mais de uma dezena de pessoas – atores profissionais e não profissionais – fazem uma roda na rua com cadeiras de cores e origens diferentes. Sentam-se e leem um texto em voz alta. Dividem as falas, lançando para o ar palavras de revolução. São palavras escritas por Heiner Müller (1929-1995), o alemão enigmático que muitos consideram ter escrito um teatro ilegível. As mulheres do bairro passam com as compras e olham. As crianças correm atrás de uma bola e param. Os jovens tiram os auscultadores, desligam a música, e ficam a ouvir. Sorriem. Mónica Calle, que depois de se ter imposto um ano quase sabático – não concorreu a subsídios estatais na temporada passada – está de volta com a mesma convicção: a de que as pessoas, independentemente do grau de instrução, compreendem sempre o que é importante.
Assim que fez saber que ia instalar uma companhia de teatro no pátio – e que receberia todos os que quisessem trabalhar com ela – os candidatos apareceram. Além dos profissionais da Casa Conveniente/Zona Não Vigiada (novo nome do grupo), há quem venha aos ensaios nos tempos livres, nos dias de folga, nas pausas entre os turnos de trabalho. Há os que vêm num dia mas depois desaparecem. Mas outros ficam. Luís Afonso, nascido e criado em Chelas e que profissionalmente compra e vende automóveis, está, aos 33 anos, apostado em desenvolver os seus dotes de ator. Acompanha Mónica Calle "há algum tempo" e diz que o projeto vai ser "muito positivo" para Chelas. "Aqui não há nada. Faltam as associações culturais para trabalhar com os miúdos, para ocupar os tempos livres dos jovens. Só por aí, a coisa vale. Mas será muito mais do que isso", reflete. "Vai acabar com o estigma de Chelas como bairro problemático. O público que aqui vier vai perceber que não há problema algum, que este é um bairro como outro qualquer."
A segunda vida de Calle
No primeiro dia em Chelas, Mónica Calle mandou retirar os taipais que cobriam o seu novo espaço de trabalho. "Na Câmara disseram-me para não o fazer – que havia o risco de alguém ocupar o apartamento. Respondi-lhes que não. Que não teríamos problemas desses. Que as pessoas já tinham percebido o que estamos aqui a fazer e sabem que isto é para elas."
É uma opinião partilhada por quem rodeia a criadora. Entre os amadores, o guineense Tomás Camara, de 40 anos, é dos mais entusiastas. Há seis anos a viver no nosso país, trabalha na construção civil e fala um português em se que misturam palavras inglesas. "É uma ideia excelente para a comunidade", diz. "O projeto vai unir-nos porque andamos ‘desaproximados’. A Mónica vai trazer a comédia."
Para já, com um apoio pontual de 25 mil euros (para refazer ‘A Boa Alma de Setsuan’, de Brecht) e cinco mil da Gulbenkian (para ‘Os Sete Pecados Capitais’ também de Brecht), Mónica Calle e trupe estão garantidos até abril. Até lá, a criadora promete voltar a concorrer aos concursos plurianuais. Volta ao ativo, e em pleno.
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