O falso mundo da literatura
Philip Roth não recebeu o Nobel. Com ‘O Escritor Fantasma’ pode começar a perceber porquê. Por saber demais.
Há coisa de cinco anos, em meados de 2012, Philip Roth escreveu à Wikipedia pedindo que, na página sobre o romance ‘A Mancha Humana’
A Wikipedia, mundo de abismos e desastres naturais, mantinha que uma personagem foi "alegadamente" inspirada pela figura de Anatole Broyard, crítico e "mandarim literário" nova-iorquino – e respondeu a Roth dizendo-lhe que ele, autor, "não era uma fonte credível". Roth mantém que se inspirou num "acontecimento infeliz" na vida do amigo Melvin Tumin – mas o "mexerico" ficou.
Ora bem. Se a Wikipedia é um mundo de abismos, Roth é o precipício propriamente dito. Quatro dos seus romances são exclusivamente dedicados a um personagem literário, Nathan Zuckerman, considerado o alter-ego do próprio Roth – no total, Zuckerman surge como narrador de nove livros (incluindo ‘Pastoral Americana’, ‘Casei com um Comunista’ e ‘A Mancha Humana’).
A saga começou em 1979, com ‘O Escritor Fantasma’ (‘The Ghost Writer’, dedicado a Milan Kundera) – em que o jovem Zuckerman visita E. I. Lonoff, um escritor que admira e idolatra e que, embora ensine numa universidade, vive afastado do mundo literário, preferindo passar os dias a "trabalhar as suas frases". A visita, que devia concluir-se antes do jantar, prolonga-se pelo serão e Zuckerman fica a dormir em casa de Lonoff, assistindo a uma crise conjugal e à aparição da jovem Amy Bellette, uma refugiada escapada ao nazismo e em quem ele identifica Anne Frank. A história leva-nos a um conjunto notável de paródias sobre mundo literário, pose dos escritores, judaísmo, subterrâneos das revistas literárias e elogios mútuos ou negociados em nome do sucesso. Em ‘A Mancha Humana’ (publicado 20 anos depois), Zuckerman pergunta-se por que é que os escritores "ficam assim": "É o resultado de passar toda a vida com pessoas como nós." Já em 1979 era Roth no seu melhor.
DISCOS
OUÇAMOS A TRISTE VOZ
DE JOÃO FERREIRA ROSA
Os deuses sabem como sou reticente em relação ao fado mas João Ferreira Rosa (1937-2017) é uma exceção; ouvir ‘Fragata’, ‘Despedia’, ‘Triste Sorte’, ‘Os Lugares por Onde Andámos’ ou ‘Pedi a Deus’ é um caminho de melancolia, entre sombras do passado que celebram a perda e a derrota. Ouçamo-lo com respeito.
RESTAURANTE
UMA CAÇADA AO MELHOR MARISCO DE LISBOA
Sou fã, absolutamente fã, de restaurantes destes, tradicionais e sem arrebiques, onde o marisco (um pecado) é fresco, trazendo mar com ele. Do melhor de Lisboa. Sou também fã das lulinhas fritas (outro pecado) com arroz de "espargos do mar" – e da sua simpatia e excelentes modos. O sábado à noite é de primeira ordem.
LIVRO
UMA VIAGEM PELO SADO
EM BUSCA DO PASSADO
Depois de um curiosíssimo romance de estreia sobre o mundo lisboeta e caboverdiano, ‘A Verdade de Chindo Luz’, o novo livro de Joaquim Arena é uma investigação em jeito de ‘road-movie’ pelos campos do Sado, em busca de antepassados escravos que trabalharam nos campos de arroz. Um documentário notável.
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