O que sobra da URSS para Milhazes? Uma parte da sua vida – de que faz aqui um relato pessoal, sem desculpas.
Depois de acompanhar o americano até à pista do aeroporto, Leonid Brejnev cumprimenta-o e beijam-se (há aquela foto de Brejnev e Honecker, lembram-se?); o americano sobe as escadas do avião e Brejnev fica na pista até que, vendo-o a chorar, Suslov se aproxima: "Então, deixa-te disso. Ele não presta como político." Responde Brejnev: "Pode ser mau político, mas beija tão bem!"
É uma das anedotas que José Milhazes recorda no seu livro ‘As Minhas Aventuras no País dos Sovietes’ (Oficina do Livro), trezentas páginas de recordações sobre a sua conversão ao comunismo, ida para a URSS, desilusão e demissão do PCP – e relatos de trinta anos como jornalista especializado em "assuntos russos", de que é o nosso melhor comentador.
Caso único de repórter
Todos conhecemos essas anedotas – mas muito menos as experiências dos portugueses que estudaram e viveram na URSS depois de novembro de 1975. O jornalista e historiador José Milhazes (militante do PCP até 1991) é um deles – foi estudante de História e língua russa, tradutor (tanto de filmes como de propaganda soviética, de documentos do comité central do PCUS ou de discursos do próprio Gorbatchov), viveu em Moscovo desde 1977, onde criou uma família durante a existência da URSS, a cuja queda assistiu. Foi através dos ‘diretos’ de Milhazes, através da TSF, que assistimos ao desmoronamento da URSS, à queda de Gorbatchov ou ao Golpe de Agosto. A sua naturalidade e grande conhecimento do terreno fizeram de Milhazes um caso único de repórter.
O livro é franco, direto, fiel e um documento vivido e turbulento – as recordações da infância e adolescência na Póvoa de Varzim são notáveis (bem como a ida para o seminário); a amargura de um desiludido, também. E escutamos, em certas páginas, o som das ruínas do "socialismo real" e das suas cómicas contradições. A par das histórias pessoais, Milhazes desenha um retrato vivo da agonia soviética, de Brejnev a Chernobyl, de Andropov ao "renascimento imperial" de Putin, passando pelo consulado de Ieltsin. "Vivi e tento continuar a viver intensamente", escreve a terminar. Dá para perceber porquê.
Starks, Targaryens, Lannisters e afins
Comecei ‘A Guerra dos Tronos’ tardiamente; gastei uma semana de férias a papar quatro temporadas. Vai a xaropada na sua 7.ª temporada e continuo a gostar, embora haja menos sangue (uma pena) e ainda ninguém tivesse dado umas palmadas no rabo da Daenerys. Os bons ameaçam tomar conta da coisa, o que é um risco.
Comemorar a cozinha lá de casa
Chegue cedo ou reserve mesa. O resto é o seguinte: bolinhos de bacalhau, arroz de vitela, bacalhaus (vários e acima da média), polvo (lagareiro, forno e filetes), costela mendinha, rabo de boi, petingas maravilhosas, broa e pão de ló – para abreviar. Com um estilo assim, é pena que às vezes seja lento – mas vá cedinho.
Aventuras & desistências extraordinárias
São três novelas de Herman Melville num só volume: ‘Billy Budd’, o notável ‘Benito Cereno’ e o sempre extraordinário, inesperado e controverso ‘Bartleby’. Um naufrágio real e um naufrágio humano para reler, mesmo citando Bartleby, que "preferia não o fazer", lema para levar pregado na testa durante todo o verão.
FUGIR DE:
Mortos-Vivos
Admiráveis como nunca antes se viram, aí estão eles de regresso à estrada, os candidatos a autarcas. Tenho admiração por eles – não é todos os dias que se vê um cidadão entregar-se nos braços da administração pública local para espatifar a sua vida pessoal e ser escrutinado dos pés à cabeça. Mas, se é essa a decisão, então ao menos que não se pareçam com mostrengos nos ‘outdoors’ de campanha, dignos de competir com os mortos-vivos da série ‘The Walking Dead’. Custa a acreditar que os mostrengos não tenham família que os avise da figura que fazem.
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