"Ainda não estamos num choque petrolífero", avisa ex-ministro da Economia

António Costa Silva diz que, se a guerra terminar rapidamente, não terá efeito a longo prazo, mas sublinha que neste momento "não há nenhum sinal" que isso aconteça.

07 de março de 2026 às 09:55
António Costa Silva Foto: DR
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O antigo ministro da Economia António Costa Silva salienta, em entrevista à Lusa, que o mundo ainda não está num choque petrolífero, mas que a situação será gravíssima se o conflito no Irão se prolongar no tempo.

"Ainda não estamos num choque petrolífero, não podemos dramatizar e ser muito alarmistas", salienta o antigo governante, advertindo, contudo, que "a situação é gravíssima se se prolongar no tempo".

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Na opinião do especialista em energia, em termos de futuro imediato existem dois cenários.

"Ou isto é contido rapidamente e, portanto, não vai ter grandes efeitos no futuro, (ou) será um episódio pontual se o conflito terminar rapidamente (...), mas atenção - nesta altura - não há nenhum sinal que o conflito vá terminar rapidamente", salienta António Costa Silva.

Se terminar rapidamente, "podemos ter aqui esta turbulência que está a existir no mercado, algum efeito na inflação, porque a inflação também já está a crescer", uma vez que o preço da energia "tem um impacto significativo".

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"Podemos ter uma inflação temporária que vai crescer", mas sem consequências em termos da taxa de juros e da política, quer do Banco Central Europeu (BCE), quer da Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, diz.

Portanto, similar ao cenário que se passou com o ataque dos EUA ao Irão em junho do ano passado, "em que os preços do petróleo subiram e do gás", mas como foi um conflito de 12 dias "o efeito foi temporário" e a economia recuperou.

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Em suma, "um espirro, mas não haverá uma constipação prolongada" neste cenário.

Contudo, o Presidente Trump diz que o conflito "vai durar quatro a cinco semanas e tem capacidade para continuar mais".

"Penso que esta Administração americana é totalmente irresponsável, porque este conflito faz lembrar muito o que se passou no Iraque em 2003", com similaridades "muito grandes", prossegue.

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Trump ataca o Irão com base "em pressupostos errados", que tinha mísseis balísticos e iam atingir os EUA, o que "não é verdade, é uma falácia" e há seis meses dizia que tinha obliterado "a capacidade nuclear do Irão", enfatiza.

"Há uma incoerência total e é completamente errático. Isto não significa que o regime iraniano não seja um regime execrável, porque assassinou milhares e milhares de cidadãos ainda há poucas semanas, é uma teocracia autoritária e extremamente repressiva", critica.

Agora, "como se provou no Iraque, os regimes não se mudam, não há mudança de regime através do exterior e, sobretudo, com uma invasão", recorda António Costa Silva, lamentando que Israel esteja a "condicionar a política externa dos EUA", o que classifica de "inquietante" com consequências "gravíssimas", destabilizando todo o Médio Oriente.

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O regime iraniano está desesperado" e "dispara para todo o lado, o que leva para um segundo cenário "mais preocupante", que é a persistência dos preços altos no mercado. O petróleo passou a barreira dos 85 dólares, o aumento semanal mais elevado em dois anos, e o preço do gás também está muito elevado, lembra.

"Se o conflito persiste, os preços vão continuar a disparar" e "muito provavelmente vamos ter um surto inflacionista grande e o Banco Central Europeu e a Reserva Federal dos Estados Unidos vão ser obrigados a intervir", admite, o que a acontecer, "vai ser muito difícil para as economias.

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Os mercados já estão a antecipar "um aumento de 25 pontos base na taxa de juro, há 50% de probabilidade" este ano, numa reversão da tendência que existia.

"Se as taxas de juros realmente aumentarem, é um sério risco porque vai alargar o 'spread' das obrigações soberanas dos países do euro e, portanto, lá voltamos de nós àquela situação anterior", adverte.

Atualmente, os impactos mais significativos são a paralisação de infraestruturas críticas em toda a grande região do Médio Oriente, sublinha.

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Na Península Arábica, mais Irão e Iraque concentram-se 65% das reservas mundiais de petróleo e gás.

"Nesta altura, duas das mais críticas infraestruturas estão paralisadas: uma tem a ver com a Arábia Saudita, que é o porto de Ras Tanura, que está ligado ao maior complexo petroquímico do mundo, que é o complexo de Abequeia (Abqaiq), onde se processam oito milhões de barris por dia" e tem ao lado o maior campo de petróleo do mundo, Ghawar.

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Isto "é muito significativo porque é o coração do sistema petrolífero internacional" e depois o Qatar, que tem o maior campo de gás do mundo, que é o do Northfield, que tem continuidade para o lado do Irão, crucial para os mercados de gás e exporta através do porto de Raj Laffan, também está paralisado.

"Queria só recordar que os 20 milhões de barris de petróleo que passam pelo Estreito de Ormuz significam" muito para os países asiáticos: mais de 84% deste petróleo que passa vai para os países asiáticos.

Ou seja, representa para o Japão 86% das importações de petróleo, para a Coreia do Sul 84%, China 42% e União Europeia (UE) 22%.

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A UE, na sequência da guerra da Ucrânia, conseguiu diversificar a sua dependência do gás russo e agora importa dos EUA.

Depois, "a outra parte do gás europeu é importado do Qatar, que é exatamente a estrutura que está paralisada", diz.


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