Os preços subiram em Março (inflação média mensal), em Portugal, 0,1 por cento, enquanto relativamente a igual mês de 2002 (inflação homóloga) aumentaram 3,9 por cento. A subida foi, contudo, atenuada pelo custo dos bens alimentares, nomeadamente da carne e bens hortícolas, que recuaram significativamente.
A crise no consumo de frango, provocada pela chamada ‘crise dos nitrofuranos’, terá estado na origem da evolução.
De acordo com os números ontem divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o andamento dos preços em Portugal, em Março, foi fortemente marcado pela classe dos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas, cujo custo desceu, em média, 0,7 por cento relativamente a Fevereiro. Do lado oposto - bens que mais aumentaram - estiveram os transportes, com um encarecimento de 0,9 por cento em igual período.
“Há só uma quebra de 25 por cento no consumo de carne de frango. Com a recuperação do consumo, o preço está a aumentar também”, disse em declarações ao Correio da Manhã Jacinto Bento, da Associação de Comerciantes de Carnes do Concelho de Lisboa, que assim deixa antever uma recuperação do mercado de carnes de aves: “Mais 15 dias, e o sector geral da carne estará estabilizado”.
Uma ideia partilhada por Manuel Lima, da Associação Portuguesa das Associações Avícolas, que considera que há sinais positivos de recuperação no mercado dos frangos.
No que respeita à comparação dos preços face a igual período do ano passado, os produtos alimentares subiram 1,6 por cento, mas mesmo assim em forte desaceleração em relação a Fevereiro, quando o aumento era de 2,9 por cento. Também neste caso o subgrupo que mais contribuiu para a desaceleração da taxa de inflação foi o da carne, com uma descida de cerca de 0,06 por cento.
A inflação homóloga abrandou, aliás, de 4,2 para os 3,9 por cento. As classes bebidas alcoólicas e tabaco, em conjunto com os transportes e restaurantes e hotéis foram as que mais influenciaram a subida dos preços em geral, com um ‘disparo’ de sete por cento face ao mês de Março do ano passado. Em sentido inverso e em termos de classes de produtos, as comunicações foram o único bem a registar descida de preço (menos 1,4 por cento).
A variação média dos últimos 12 meses (inflação média anual) manteve-se inalterada face a Fevereiro último, estando nos 3,8 por cento, o que, de acordo com estimativas preliminares do gabinete comunitário de estatísticas (Eurostat), deixa Portugal com o mesmo diferencial em relação à Zona Euro (mais 1,6 pontos percentuais).
A evolução dos preços em Março ficou ainda marcada por um acentuado agravamento da classe de transportes ( 0,9 por cento), comportamento este que estará “associado ao aumento dos preços dos combustíveis”, como salienta o INE.
Por regiões, o Centro foi o que registou maior subida homóloga de preços (mais 4,1 por cento), seguido de Lisboa e Algarve (quatro por cento).
COMÉRCIO GANHA À CUSTA DO COMÉRCIO
A redução dos preços das carnes de aves, em especial de frango, foi fundamental para inverter a tendência de subida da inflação em Março. Só na região de Lisboa, segundo a Direcção-Geral do Comércio e da Concorrência (DGCC), o preço médio do frango, com miúdos, e do bife de peru ao consumidor diminuiu, respectivamente, 5,3 por cento e 4,2 por cento por quilo, descidas muito inferiores às quebras registadas na produção. Coincidindo esta quebra dos preços com a crise de segurança alimentar provocada pela detecção de resíduos de nitrofurano nas carnes de aves, Jacinto Bento, responsável da Associação de Comerciantes de Carnes do Concelho de Lisboa, reconhece que, regra geral, os talhos “venderam o frango ao preço da chuva”. Nalguns talhos, “vendeu-se frango a 50 cêntimos o quilo, quando o preço médio ronda os dois euros o quilo”, recorda. Os dados da DGCC mostram também que a descida dos preços na produção/matadouro ascendem a 28,1 por cento no frango, com miúdos, e 14,1 por cento no bife de peru, descidas muito superiores às quebras registadas no consumidor. O que significa que “a variação do preço na produção nem sempre se repercute no consumo”, como diz Manuel Lima, da Federação Portuguesa das Associações Avícolas (FEPASA). Mesmo assim, segundo este responsável, a redução dos preços na produção terá sido muito superior, até porque “a produção ficou sem preço”. Com a redução do consumo de carne de aves, aumentou a procura de carne de vaca. O preço desta carne teve um aumento de 4,2 por cento.
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