Foi pouco depois do meio-dia de ontem que o euro ultrapassou a moeda americana. A moeda única europeia cotou-se nos 1,0075 dólares, o valor mais alto desde Fevereiro de 2000.
No final da sessão, as cotações indicativas do Banco Central Europeu (BCE) indicavam o valor do dólar nos 1,0024 euros.
Recorde-se que a moeda única europeia estreou-se a valer 1,17 dólares em Janeiro de 1999. O seu máximo histórico foi conseguido três dias depois com a cotação a atingir os 1,18 dólares.
O mínimo foi atingido em Fevereiro de 2000, altura em que o euro não valia mais do que 0,8255 dólares.
Segundo a maior parte dos analistas a economia portuguesa só tem a ganhar com a escalada do euro face ao dólar norte-americano, que provocará um abrandamento da inflação e o adiamento da subida das taxas de juro, mantendo a competitividade das empresas praticamente inalterada.
Economistas dos principais bancos, contactados pela Lusa, são unânimes na opinião de que a valorização da moeda única não afectará as exportações portuguesas, essencialmente destinadas à Zona Euro e, assim, facturadas nesta moedas.
Os efeitos do fortalecimento da moeda única nas exportações, tornando-as mais caras, são mínimos, porque mais de 80 por cento das vendas portuguesas para o exterior são dirigidas ao espaço europeu e, em particular, à Zona Euro, segundo os economistas.
Ao contrário, "menos de 15 por cento das exportações portuguesas são destinadas ao espaço dólar", sublinhou Luís Rosa, para quem o encarecimento das exportações terá um impacte muito limitado e apenas, eventualmente, em sectores como o da indústria de moldes.
No entanto, a vida poderá não ser fácil para os produtos portugueses, que terão de se confrontar com concorrência mais forte por parte "dos produtos norte-americanos, subitamente mais baratos", e também de produtos originários de países com moedas ligadas ao dólar.
"É o caso do sector têxtil e da China que, com uma moeda colada ao dólar, poderá ter capacidade de oferecer produtos mais baratos, em certos segmentos", adiantou o economista.
Mas, para a economista-chefe do BPI, Cristina Casalinho, os produtos portugueses continuarão a ser competitivos no espaço europeu, beneficiados por custos de transporte mais baixos e pela ausência de risco cambial.
Se para a economia portuguesa os efeitos do encarecimento das exportações são "desprezíveis", poderão no entanto, afectar o dinamismo da maior economia da Zona Euro, a alemã, mais dependente da procura externa, referiu.
Para o economista-chefe do BCP, Gonçalo Pascoal, a desvalorização do dólar é "verdadeiramente providencial" para a economia portuguesa, que "tem um problema com a inflação, ainda mais elevada que a dos restantes parceiros".
O abrandamento da inflação, por via das importações e, em particular, do petróleo, é uma das consequências benéficas para a qual todos os analistas apontam e que levará a uma outra: o adiamento da subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu (BCE).
"O controlo da inflação e o adiamento da subida das taxas de juro vão permitir consolidar a retoma da economia europeia", frisou Cristina Casalinho.
“Haveria vantagens numa paridade mais baixa”
Para o economista João Ferreira do Amaral, a paridade agora atingida deve-se, fundamentalmente, à “desconfiança dos investidores em relação à economia americana”, e não deve ser tomada como “um aumento do dinamismo da economia europeia”.
“Pessoalmente, julgo que, apesar de tudo, a Europa teria mais vantagens numa paridade mais baixa”, disse ao Correio da Manhã, aquele economista.
Os Estados Unidos estão a ser penalizados por factores “que não são propriamente económicos”. As questões levantadas sobre a contabilidade das empresas cotadas e o medo permanente do terrorismo, tem contribuído em muito para a deterioração da confiança dos agentes económicos americanos.
Para Portugal, “tem coisas boas e coisas más”. “As importações vão ficar mais baratas, o que é especialmente significativo no que se refere ao petróleo. Por outro lado, as exportações ficarão mais difíceis e menos competitivas”.
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