André disse ser o preferido de Pedroso
A principal testemunha do processo Casa Pia assegurou ontem ao Tribunal que era o jovem preferido por Paulo Pedroso. ‘André’ referiu--se ao nome do ex-deputado do PS quando o procurador João Aibéo lhe perguntou se os clientes da pedofilia tinham casapianos preferidos. O jovem falou então em Pedroso e frisou que Carlos Cruz tinha uma predilecção especial por um seu colega.
Este último jovem, ‘Pedro’, de 20 anos, já prestou depoimento no julgamento do processo Casa Pia. Admitiu que era o preferido do apresentador e também implicou Pedroso nos abusos sexuais, garantindo, na 62.ª sessão, que o viu na casa de Elvas.
Antes das vítimas, também Carlos Silvino já havia mencionado o nome do ex-ministro do Trabalho.
Paulo Pedroso foi constituído arguido em Maio de 2003, acusado de 23 crimes de abuso sexual de crianças. O político socialista esteve detido de 21 de Maio a 8 de Outubro, sendo libertado por um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa: os desembargadores Carlos Almeida e Telo Lucas (Morais Rocha votou vencido) consideraram que os depoimentos das vítimas que o acusaram não eram credíveis. As vítimas em causa são as mesmas que acusam Carlos Cruz, Ferreira Diniz, Hugo Marçal, Jorge Ritto e Carlos Silvino. Estão todos a ser julgados.
Em 31 de Maio do ano passado, a juíza de Instrução Criminal Ana Teixeira e Silva recorreu a grande parte do acórdão que teve como relator Carlos Almeida para não levar Pedroso a julgamento. Além disso, Ana Teixeira e Silva, no despacho de não pronúncia, considerou não válido o método de reconhecimento utilizado pelas autoridades em relação a Pedroso.
A Casa Pia e o Ministério Público recorreram da não ida do arguido a julgamento e, em Julho de 2004, avançaram para o Tribunal da Relação de Lisboa. Até ontem, o recurso ainda não fora analisado. Sabe-se, apenas, que tem como relator o desembargador Rodrigues Simão.
Mas, como o CM noticiou (22/1/2005), o desembargador Varges Gomes, que chegou a ser relator do recurso antes de Carlos Almeida – que foi afastado pelo Supremo – elaborou um projecto de acórdão que ilibava o político do PS.
Confrontado com as declarações da vítima e de Serra Lopes, João Pedroso, advogado e irmão de Paulo Pedroso, disse: “Não me pronuncio sobre aquilo que não conheço”.
'BIBI' NEGA SER DONO DAS AGENDAS
Carlos Silvino garantiu ontem que as agendas entregues por ‘André’ à juíza Ana Peres, na sessão de quarta-feira, não lhe pertencem.
‘Bibi’, que foi ouvido sem a presença da vítima na sala de audiências, frisou que as agendas que utilizava eram maiores do que aquelas que o jovem confiou ao Tribunal. Chegou mesmo a observar que a letra dos escritos não era a sua e, na curta declaração que prestou, referiu ainda que não tinha fotografias.
Depois das declarações de ‘Bibi’, ‘André’ voltou a prestar depoimento. Falou de Paulo Pedroso e de Carlos Cruz. Afirmou não se lembrar se o apresentador era circuncidado. Mas foi peremptório ao dizer que o arguido tem uma mancha no pénis.
Na parte da tarde, o jovem foi questionado pelo Ministério Público sobre alguns dos escritos, de sua autoria, que Catalina Pestana entregou ao Tribunal. Da lista de nomes que escreveu, sob o título ‘clientes da pedofilia’, ‘André’ deu a entender que alguns só estão na lista por, de alguma forma, estarem relacionados com o processo Casa Pia, nomeadamente na sua denúncia pública e defesa das vítimas. Informou o Tribunal que os escritos foram feitos numa altura em que se encontrava muito abalado psicologicamente, observando que se refugiava na escrita e recolha de informação para se reconfortar.
Antes de o advogado José António Barreiros pedir a interrupção da sessão, por cansaço do jovem, este ainda enunciou as casas e locais relacionados com a pedofilia – Av. das Forças Armadas, Ajuda, Cascais, Elvas, Vila Viçosa, Tagus Parque, Churrasqueira do Campo Grande – que reconheceu na companhia da Polícia Judiciária.
GRANJA ELOGIA VÍTIMA, ABRANTES ATACA
Adelino Granja garante que ‘André’, o chamado braço-direito de ‘Bibi’, tem um discurso “fluente” e “certinho”. “Como não estou dentro do processo, não sei se há contradições ou não. Agora que ele está a falar com calma e serenidade, isso está, embora se sinta um bocado cansado”, afirmou ontem, à saída do Tribunal, o advogado de ‘Joel’, o jovem que denunciou ‘Bibi’.
Manuel Abrantes tem opinião contrária. “O discurso do cavalheiro já não é tão pensado como estava a ser. A partir do intervalo de hoje, quando começou a ler cábulas, acho que estragou tudo”, afirmou o ex-provedor-adjunto da Casa Pia, acusado de 38 crimes de abuso sexual sobre este jovem.
Recorde-se que após a primeira sessão em que o braço-direito de ‘Bibi’ foi ouvido, na segunda-feira, Abrantes afirmou que ‘André’ tinha um discurso “muito direito”.
DETIDO NO PARLAMENTO
A 21 de Maio de 2003, o juiz Rui Teixeira deslocou-se à Assembleia da República para pedir o levantamento da imunidade parlamentar de Paulo Pedroso e solicitar a sua audição como arguido do processo Casa Pia. Na mesma altura, Ferro Rodrigues, então líder do PS, revelou que o seu nome também podia estar envolvido no processo e acusou terceiros de “testemunhos forjados” para “manchar a honra e credibilidade do partido”. Pedroso acabou por ficar em prisão preventiva.
FESTA NA ASSEMBLEIA
Quase cinco meses depois de ter sido preso, Paulo Pedroso foi o primeiro arguido do processo Casa Pia a ser solto, por determinação do Tribunal da Relação. Almeida Santos, Jorge Lacão, Ferro Rodrigues, o actual ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa, e o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, fizeram questão de proporcionar uma recepção apoteótica ao ex-porta-voz do PS na Assembleia da República.
A NÃO PRONÚNCIA
Acusado de 15 crimes de abuso sexual, Pedroso foi o único dos arguidos acusado pelas principais testemunhas que não foi levado a julgamento pela juíza Ana Teixeira e Silva, que desvalorizou o depoimento das vítimas e considerou ilegal a forma como o deputado foi reconhecido. O Ministério Público recorreu para a Relação, onde o processo ainda se encontra.
POLÍCIAS ARRUMADORES
Com o início do ano judicial, os agentes da PSP em serviço no Tribunal da Boa-Hora passam a maior parte do tempo a arrumar carros de juízes.
MUDANÇA DE PROCESSO
Os 144 volumes do processo Casa Pia, com cerca de 35 mil folhas, voltam hoje a ser transferidos de Tribunal: da Boa-Hora para Monsanto.
REGRESSO A MONSANTO
‘André’ vai continuar a ser ouvido no julgamento de pedofilia, mas a partir de segunda-feira as sessões decorrerão em Monsanto.
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