Mata mulher e filha por ciúmes

Sérgio não aceitava que Zulmira se prostituísse e ontem assassinou-a com várias facadas. A ela e à pequena Índia, de apenas dez anos.

23 de maio de 2010 às 00:37
Mata mulher e filha por ciúmes Foto: Nuno Fernandes Veiga
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Há vários anos que Sérgio Estorãos, 38 anos, ameaçava matar a companheira e a filha de ambos. Ontem, ao início da manhã, cumpriu. Não só assassinou Zulmira Tarmamade, 33 anos, por ciúmes, como também a pequena Índia, de dez, com várias facadas. Depois, o homicida refugiou-se em casa e tentou suicidar-se com a mesma faca de cozinha que usara para matar mãe e filha. Desferiu pelo menos dez golpes no próprio abdómen, mas sobreviveu.

'Sempre dissemos que ele, por ciúmes, seria a desgraça dela', disse ontem ao CM, ainda lavada em lágrimas, Neusa Araújo, irmã da mulher que foi brutalmente assassinada na casa onde vivia, no número 27 da rua Luís Soares Barbosa, em São Vítor, Braga. O cadáver da moçambicana foi encontrado pela sua melhor amiga quando ia buscá-la para o trabalho: aos gritos, ligou a familiares e alertou os bombeiros.

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Zulmira, que a PJ ainda não apurou se morreu antes ou depois da filha, tentou escapar à fúria de Sérgio. Ainda bateu à porta de um vizinho, mas em vão. O corpo da mulher ficou estendido numa poça de sangue, no hall de entrada do sétimo andar, onde vivia. A PSP e a PJ de Braga foram de imediato para o local, onde se depararam com a porta do apartamento fechada. E no interior o cenário era horrível. As paredes e o chão de todas as divisões têm sangue. O frágil corpo de Índia estava na sala, repleto de golpes de faca. Ao seu lado, Sérgio estava a agonizar devido aos mais de dez golpes que desferiu na barriga.

Foi levado para o Hospital de São Marcos, onde foi submetido a uma cirurgia, e continua internado, mas livre de perigo, sob vigilância da PJ de Braga. Devido ao estado de saúde ainda não foi interrogado.

Zulmira conheceu o companheiro em Moçambique. Veio para Portugal há dez anos, atrás de Sérgio, que inicialmente a rejeitava. A vítima dedicava-se à prostituição há alguns anos. Ao CM, os irmãos de Zulmira garantiram que Sérgio não aceitava a profissão da companheira e que terá sido esse o motivo do crime. A relação não seria fácil: após várias separações, viviam juntos desde Fevereiro.

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Hugo Mendonça, irmão de Zulmira, não se apercebeu de nada, apesar de viver no primeiro andar do mesmo prédio. 'Fui acordado pela polícia, que me pediu para confirmar se era a minha irmã', disse ao CM. Hugo reconheceu o cadáver da irmã, mas não teve coragem para entrar na casa.

PORMENORES

BOMBEIROS EM CHOQUE

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A equipa da Viatura Médica de Emergência e Reanimação e os bombeiros dos sapadores de Braga que estiveram no local do crime tiveram de receber apoio dos dois psicólogos disponibilizados pelo INEM.

AVÓ ERA TUTORA

A tutoria da pequena Índia Estorãos, de dez anos, estava entregue à avó materna – que também vive em Braga – devido às constantes cenas de violência doméstica e agressões de que Zulmira era alvo por parte de Sérgio.

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CONSTRUÇÃO CIVIL

O homicida era trabalhador da construção civil. Quando conheceu Zulmira, Sérgio estava a trabalhar em Moçambique, contratado por uma empresa portuguesa. Nos últimos tempos não trabalhava.

AUTÓPSIAS AMANHÃ

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Os cadáveres de Zulmira Tarmamade e da filha Índia só deverão ser autopsiados amanhã de manhã. Os exames serão realizados por peritos do Instituto de Medicina Legal do Porto.

GRITOS DE DOR E DESESPERO QUANDO RETIRARAM A MENINA

Assim que souberam da notícia da tragédia, muitos familiares e amigos juntaram-se ontem no apartamento onde vive o irmão de Zulmira, Hugo Mendonça, ainda incrédulo com a atitude de Sérgio, apesar de este ter sempre ameaçado que iria matar mãe e filha. Na rua ecoavam o choro convulsivo e os gritos de desespero pela morte da mãe e da pequena Índia.

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Uma equipa de psicólogos do INEM foi de imediato chamada à habitação e esteve no apartamento a dar apoio à família.

O corpo de Zulmira foi o primeiro a ser levado pelos Sapadores de Braga, para a morgue, já Sérgio tinha sido transportado pelo INEM para o Hospital de São Marcos. Quando o corpo da menina de dez anos foi retirado do prédio, os gritos de dor e revolta intensificaram--se. Os familiares e amigos desataram num pranto.

O corpo da menina e de Zulmira foram levados para o Instituto de Medicina Legal, no Hospital de Braga, onde deverão ser autopsiados amanhã. Só os exames dos técnicos poderão esclarecer quem Sérgio matou primeiro e quantos golpes desferiu nas duas vítimas com a faca de cozinha.

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POLÍCIA CHAMADA POR VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Não era a primeira vez que a polícia era chamada ao número 50 do sétimo andar das torres cinzentas, junto ao Braga Parque, por queixas de violência doméstica. Ontem, ao chegar ao local, os agentes depararam-se com um cenário de matança. A mulher, dona do apartamento há mais de três anos, estava estendida sobre uma poça de sangue. Pelas marcas na parede, Zulmira ainda terá tentado pedir ajuda na casa ao lado, tocando à campainha do vizinho – mas quando foi encontrada, cerca das 07h30, a imigrante já não tinha sinais vitais.

Zulmira conheceu o companheiro há dez anos, em Moçambique, onde terá engravidado. A mulher, muito jovem na altura, decidiu depois viajar para Portugal para procurar o pai da filha. Sérgio não terá gostado da sua vinda para o país e Zulmira, que ficou sozinha, teve de se dedicar à prostituição para sobreviver e sustentar a filha. O assassino acabou por reconhecer a paternidade de Índia e passou a viver em Braga com as duas. 'Ele teve sempre muitos ciúmes dela e nunca aceitou a sua profissão', disse ontem ao CM Hugo Mendonça, irmão da vítima.

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O casal esteve separado várias vezes, devido aos ciúmes, mas Zulmira acabava sempre por perdoar Sérgio e deixava-o regressar a casa. Nos últimos tempos, Sérgio estava desempregado e, segundo os familiares, era Zulmira quem o sustentava. Anteontem, Sérgio dispensou os serviços da ama de Índia, que vivia no apartamento, mas ninguém esperava este desfecho trágico.

CURIOSOS JUNTARAM-SE EM FRENTE AO PRÉDIO DO CRIME

O aparato policial e as sirenes dos bombeiros chamaram ontem a atenção de muitos curiosos, que se juntaram em frente à torre de apartamentos, junto ao Braga Parque, onde mãe e filha foram assassinadas. O casal e a menina eram conhecidos nas redondezas e costumavam frequentar os cafés.

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'Estou em estado de choque', disse ao Correio da Manhã o dono de um minimercado situado no edifício, após saber do duplo homicídio. O homem, que preferiu manter o anonimato, confessou total surpresa com os acontecimentos. 'Não tinha o Sérgio como violento. Conhecia-os de virem cá, mas nunca me apercebi de problemas entre os dois', disse o comerciante. Os gritos de socorro da vítima, ao início da manhã de ontem, foram ouvidos pela maior parte dos moradores, no entanto, os habitantes só se aperceberam da tragédia quando começaram a chegar os bombeiros e a polícia.

'Ouvi algum barulho, ainda muito cedo, mas quando me apercebi do que se passava já estavam a levar o homem para o hospital', contou um morador do 12º andar, que sublinhou que 'que os gritos na casa eram habituais'.

OUTROS CASOS

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MATOU MULHER E FILHO

A 2 de Abril deste ano, Daniel Oliveira, de 41 anos, esfaqueou até à morte a mulher, Elizabeth, de 40, e asfixiou o filho Rafael, que contava apenas dois anos. De seguida, suicidou-se, com facadas na garganta. Na origem do acto tresloucado, em Albergaria-a--Velha, estava o pedido de divórcio de Elizabeth.

ASFIXIOU FILHA DE 7 ANOS

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Em Maio de 2009, S. Mamede de Infesta, em Matosinhos, ficou em choque. João Pinto, hoje com 46 anos, estrangulou a filha Maria João, de apenas sete, com um cinto de um roupão, dentro da própria casa, enquanto ouvia ‘Tu Levaste a Minha Vida', de Tony Carreira. Foi condenado pelo Tribunal de Matosinhos, em Março último, a 16 anos de prisão.

ASSASSINOU A FAMÍLIA

A 1 de Outubro de 2005, Ricardo Nuno pegou numa caçadeira e acabou com a vida da mulher, Ana Isabel Oliveira, cabeleireira de 34 anos, e do filho Nuno Ricardo, de apenas oito, no apartamento onde viviam, na rua Morais Soares, em Lisboa. Depois de assassinar a tiro a família, Ricardo suicidou-se com a mesma arma.

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NOTAS

IRMÃ: AMEAÇAVA MATAR AS DUAS

'Ele sempre disse que quando matasse a mulher também mataria a menina', disse ao ‘CM’ Neusa Araújo, irmã de Zulmira. Mas os familiares não acreditavam que as ameaças se concretizassem

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VIAGEM: FORAM A MOÇAMBIQUE

Há cerca de um mês, Zulmira e a filha viajaram até Moçambique para a pequena Índia conhecer o avô paterno. Foi a primeira vez em dez anos que a mulher voltou ao seu país de origem

SÉRGIO: INTERNADO NO HOSPITAL

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O homicida está internado no sob vigilância permanente da Polícia Judiciária. Quanto tiver alta, Sérgio Estorãos, de 38 anos, será presente a um juiz de instrução

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