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Urologista do Hospital da Trofa entrega recomendações geradas por IA a paciente sem validação médica

Ordem dos Médicos alerta que IA não substitui o médico. Grupo de saúde recusou esclarecimentos.

15 de julho de 2026 às 14:59

Uma consulta no Trofa Saúde Hospital da Trofa terminou com um médico a entregar a uma paciente uma recomendação impressa diretamente do Gemini - a ferramenta de Inteligência Artificial da Google - e sem a devida validação clínica do profissional de saúde. Questionado pelo Correio da Manhã, o grupo de saúde privado não prestou esclarecimentos. Já a Ordem dos Médicos (OM) considera a conduta "profundamente inábil". 

Ao que o Correio da Manhã apurou, o caso ocorreu a 2 de junho durante uma consulta de urologia. Em vez de um plano nutricional personalizado para um problema renal, o paciente recebeu uma folha impressa que trazia, no cabeçalho, a etiqueta de "vista geral de IA". Para quem paga cerca de 90 euros pela consulta numa das unidades do grupo de saúde privado, se não tiver seguro de saúde, a experiência deixou um gosto amargo. 

"Nunca experienciei uma coisa assim. Eu preferia que ele demorasse o seu tempo", confessou o paciente, questionado pelo CM, considerando "uma falta de consideração" por parte do profissional de saúde.

"O médico estava a escrever no computador e eu não estava à espera de receber um print do Google", relatou. O profissional limitou-se, segundo o paciente, a entregar a lista como se o procedimento fosse banal, sem demonstrar ter analisado as especificidades do seu caso clínico”. 

Ordem considera "profundamente inábil" que médico recorra a um chatbot 

Contactada para comentar o caso, a Ordem dos Médicos (OM) sublinha que, embora não tenha tido conhecimento do caso, a deontologia é absoluta. O médico é o único responsável final pelo ato clínico, independentemente das ferramentas tecnológicas utilizadas. 

O bastonário da Ordem, Carlos Cortes, é perentório ao rejeitar a delegação de competências em chatbots: "A inteligência artificial é um apoio, não um substituto. Toda a informação obtida via IA tem de ser obrigatoriamente validada pelo médico antes de chegar ao paciente. O médico tem a responsabilidade total e intransmissível sobre o ato".

Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos
Carlos Cortes é Bastonário da Ordem dos Médicos desde 15 de março de 2023 FOTO: Mariline Alves

Relativamente aos riscos de utilizar ferramentas não certificadas para cuidados de saúde, a Ordem diferencia o suporte tecnológico da negligência: "Uma coisa é a ajuda de sistemas validados técnico-cientificamente; outra, bem diferente, é um chatbot cujas fontes não são certificadas. A responsabilidade disciplinar e civil recai sempre sobre o médico, mesmo quando os sistemas certificados falham. No caso do Gemini, os próprios criadores avisam que a informação requer verificação humana". 

O bastonário distingue a natureza da alegada falha cometida pelo clínico, estabelecendo um limiar de gravidade: O uso de IA para questões básicas de urologia, como a listagem de alimentos, é classificado como "profundamente inábil". Segundo o bastonário, tal prática é um erro de postura que mina a confiança do paciente e revela uma falha no exercício do brio profissional, uma vez que o médico deveria dominar essa informação sem recurso a bots

A situação ganha uma dimensão de gravidade crítica apenas se a IA for utilizada para fundamentar diagnósticos ou planos terapêuticos. Para a Ordem, "se a intervenção do médico estiver baseada na informação de um bot para decisões terapêuticas, a natureza do problema altera-se", tornando a conduta passível de averiguação disciplinar pela ausência de supervisão clínica rigorosa. 

Correio da Manhã confrontou o grupo Trofa Saúde sobre os critérios de utilização de IA sem certificação nas consultas, a identidade do profissional em causa e os mecanismos de supervisão clínica que a instituição garante aplicar nestes casos. Apesar das sucessivas tentativas de contacto ao longo das últimas três semanas, o grupo não prestou quaisquer esclarecimentos

Metade das respostas de IA sobre saúde estão erradas 

O estudo Tiller et al. (2026) consultado pelo Correio da Manhã, publicado este ano na BMJ Open, concluiu que quase metade (49,6%) das respostas geradas pelos chatbots, embora bem estruturadas, são classificadas como problemáticas, com 19,6% "altamente problemáticas". 

 O estudo avaliou a eficácia e a segurança de cinco grandes modelos de inteligência artificial (ChatGPT, Gemini, Grok, Meta AI e DeepSeek) ao responderem questões médicas. A investigação analisou 250 respostas a 50 perguntas sobre temas como cancro, vacinas, nutrição, células estaminais e desempenho físico. 

O Grok registou a maior taxa de respostas problemáticas (58%), seguido do ChatGPT (52%) e do Meta AI (50%), embora o desempenho global tenha sido semelhante entre todos os sistemas. 

Maioria das fontes incorretas 

Um ponto crítico que estudo identifica é a tendência dos modelos em gerar referências bibliográficas incorretas, incluindo artigos inexistentes, ligações inválidas ou dados bibliográficos errados, o que confere uma falsa aparência de credibilidade. Nenhum dos modelos conseguiu produzir uma lista de fontes totalmente precisa e completa para qualquer uma das perguntas. 

Além disso, os chatbots mantêm um tom de confiança e certeza quase absoluto, mesmo quando fornecem informações incorretas ou contraindicadas. Em todo o estudo, foram registados apenas dois casos de recusa ou alertas de segurança em 250 interações. 

A qualidade da resposta também variou conforme o tipo de pergunta: questões abertas, como pedidos de recomendação de suplementos, apresentaram uma taxa de 32% de respostas "altamente problemáticas", enquanto perguntas fechadas apresentaram uma taxa de erro de apenas 7%.   

Diante desses riscos de amplificação da desinformação, os autores concluem que a implementação dessas ferramentas na área da saúde exige, obrigatoriamente, educação pública, formação profissional e supervisão regulatória. 

O caso ocorrido no Trofa Saúde Hospital da Trofa ilustra perfeitamente o perigo do uso acrítico destas ferramentas. Uma consulta de 90 euros num exercício de desinformação automatizada que ignora a responsabilidade profissional e pode colocar em causa a segurança do paciente. 

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