Pânico em creche com 50 crianças
Sempre com a caçadeira de canos serrados nas mãos, Nelson Neto olhava para o vazio e não parava de chorar enquanto entrava calmamente no jardim-de-infância O Cantinho – cruzando-se com mais de 50 crianças, entre os três e quatro anos, que brincavam ontem à tarde no estabelecimento da rua Alexandre Herculano, na Agualva, Cacém. Sem qualquer consciência do perigo. Foi preciso recorrer ao Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP.
O homem de 32 anos, cadastrado por tráfico de droga e posse de armas, foi incapaz de superar o sofrimento causado pela separação da mulher há cerca de dois meses. Desesperado, pelas 14h00, tomou a decisão drástica de irromper pela creche e barricar-se num pequeno gabinete. Conhecia bem o chão que pisava, uma vez que, juntamente com a ex-companheira, é um dos proprietários daquele espaço.
Rapidamente a PSP foi alertada e as crianças retiradas para uma sala em frente à creche. Foi chamado o GOE, preparado para o pior. Sem nunca largar a arma, Nelson não fez reféns e aceitou falar com os negociadores da PSP durante as três horas em que esteve trancado num gabinete. Mas a resistência em entregar-se levou a um reforço gradual da polícia, acompanhado pelos Bombeiros da Agualva e INEM.
Durante mais de duas horas, os polícias ouviram uma única palavra: morte. Vezes sem conta ameaçou suicidar-se e, enquanto isso, fazia uma única exigência: falar com a ex-mulher, que assistia desesperada ao seu comportamento. 'Não cumprimos a vontade dele, porque, num caso destes, tínhamos de respeitar medidas de segurança. As crianças, entretanto, já tinham sido retiradas', diz fonte policial ao CM, garantindo que aquelas 'nunca estiveram em situação de risco'.
Os minutos caminhavam a passos largos e todas as tentativas de negociação se revelavam infrutíferas. Pelas 17h00, um tiro ecoou na rua, adivinhando-se o pior. Ao silêncio seguiram-se momentos de pânico entre os vizinhos. Lá dentro, o cenário era de alívio. Nelson acabava de se render, mas ao atirar a caçadeira ao chão foi disparado um tiro acidental. Operacionais do GOE entraram no gabinete e imobilizaram Nelson, que saiu pouco depois. Para trás ficavam os irmãos e a a ex-mulher do barricado, incrédulos e sem conseguir controlar as lágrimas. 'Quando se juntou com ele, nunca pensou no que se estava a meter', dizia uma vizinha, vendo o sofrimento da mulher. Nelson será hoje presente a um juiz, em Sintra.
'HOMEM É CADASTRADO POR OUTRAS SITUAÇÕES': Carla Duarte Subcomissária da PSP de Lisboa
Correio da Manhã – Como avalia esta operação resolvida pela PSP ao final de três horas?
Subcomissária Carla Duarte – Apesar de tudo foi uma operação resolvida com sucesso, porque não resultaram quaisquer feridos. O tiro disparado acidentalmente não atingiu ninguém e saíram todos ilesos de uma situação que não é normal.
– O homem enquanto esteve barricado falou das suas motivações?
– Nunca falou concretamente. Exigia falar com a ex-mulher e mais nada. Também estava muito afectado psicologicamente e disse por várias vezes que se ia matar.
– Como é o passado criminal deste homem de 32 anos?
– O que até agora foi possível apurar é que, de facto, tem antecedentes criminais por outras situações, mas desde já nunca esteve envolvido em situações semelhantes a esta. Agora prossegue a investigação. Hoje já será presente ao tribunal.
RUA CORTADA E REFORÇO DA PSP
Uma vez que o homem estava armado com uma caçadeira, a polícia preocupou-se, desde logo, com o corte da rua para o caso de disparos. As pessoas que residem naquela zona foram encaminhadas para as traseiras da rua. Perante o alerta, dado pouco depois das 14h00, os elementos da esquadra do Cacém foram os primeiros a chegar, mas foi necessário recorrer a reforços, chegando uma equipa de Sintra, inclusive com negociadores. No entanto, todas as suas tentativas se revelaram infrutíferas, sendo enviada para o local uma equipa do Grupo de Operações Especiais (GOE), que terminou com o sofrimento de cerca de três horas. Para além das forças de segurança, destacam-se os Bombeiros da Agualva e uma viatura médica do INEM, que, no entanto, não foram necessários, uma vez que não se verificou feridos. Os familiares de Nelson estiveram no local, mas não quiseram falar.
'FOI UMA GRANDE AFLIÇÃO'
'Nem sabia ao que vinha. A indicação que tinha era a dizer que era melhor vir buscar a minha filha. Disseram-me que depois me explicavam melhor. Quando cheguei cá e vi o aparato policial com as armas nas mãos vi que alguma coisa não estava bem. Até me assustei', começou por contar ao CM Jilda Andrade, 35 anos, mãe de uma das crianças que tiveram de ser evacuadas do jardim depois da entrada do proprietário armado com uma caçadeira em punho.
'Ainda agora não sei muito. Está um homem a querer suicidar-se lá dentro e eu achei melhor levar a minha filha para longe daqui. Estou assustada', continuava a mulher. Durante a tarde de ontem foram vários os familiares que foram levando as crianças para casa – mais de 50 ao todo. E todos foram unânimes em dizer que foi a primeira vez que houve problemas no interior do jardim-de-infância. A pequena Janice, de três anos, frequenta o O Cantinho só há três meses. É uma das alunas mais novas e, de acordo com a mãe, não se apercebeu da situação. Foram prontamente retiradas pelos agentes da PSP.
Pouco depois das 17h00, o homem foi levado pela polícia e as restantes crianças foram levadas novamente para dentro da creche.
Todas as funcionárias se recusaram ontem a prestar quaisquer declarações sobre o assunto.
NOTAS
INVESTIGAÇÃO: ENTREGUE À PJ
A operação, que foi conduzida ontem pela PSP, deverá agora dar início a uma investigação da Unidade Nacional contra Terrorismo (UNCT)da Polícia Judiciária
TRIBUNAL: MEDIDAS DE COACÇÃO
Durante o dia de hoje serão conhecidas asmedidas de coacção de Nelson Neto. Será presente ao Tribunal de Sintra para ser ouvido por um juiz em primeiro interrogatório judicial
FAMILIARES: REVOLTA
Foram vários os familiares de Nelson Neto,entre os quais a ex-mulher e os irmãos, que estiveram durante a tarde junto ao infantário. Não gostaram da presença da Comunicação Social
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