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Botox põe vidas em risco

Quando lhe atingem o rosto no meio dos seus delírios televisivos, José Castelo Branco grita “ai o meu botox”. O público ri, mas o assunto não é para brincadeiras. Os dermatologistas e cirurgiões plásticos portugueses alertam para o risco associado ao descontrolo na aplicação, por via injectável, daquela toxina, que, supostamente, reduz as rugas. Nos Estados Unidos, este descontrolo já provocou várias mortes.

02 de abril de 2006 às 13:00

O cirurgião plástico Cabral Barreto fala de “desleixo completo” na aplicação de uma toxina que é “das mais potentes que existem”. Um desleixo consentido – alega – pela falta de definição do acto médico. “Qualquer um pode dar uma injecção.”

O especialista critica ainda o modo ligeiro como algumas figuras do ‘jet set’ com lugar cativo na televisão abordam o assunto da cirurgia estética – e em especial a aplicação de botox –, banalizando-a. “Parece simples. Não é.” Mas é a ideia de facilidade, associada aos supostos efeitos miraculosos da toxina, que faz com o que o botox seja tão pretendido.

PRODUTO ADULTERADO

A utilização do produto adulterado causou a morte de várias mulheres nos Estados Unidos. O cabeleireiro de Salinas, na Califórnia, que alegadamente as injectou foi acusado de homicídio involuntário. Na sequência da tragédia, a Sociedade Americana de Cirurgia Dermatológica fez um apelo público, dizendo basicamente: “Não injectem qualquer coisa que vos apresentem como botox e não o façam se não com recurso a um médico especialista.”

A taróloga Maya aplica botox uma vez por ano e parece consciente da necessidade de fazê-lo com acompanhamento médico especializado. “Sou absolutamente contra a auto-aplicação. É uma inconsciência usá-lo como se fosse um creme hidratante, pois trata-se de uma toxina.”

300 EUROS POR UMA AMPOLA

O dermatologista Pinto Soares critica o uso indevido da substância pelas clínicas de estética e salões de beleza, que “arranjam uma receita de botox junto de um médico qualquer e aplicam-no sabe-se lá como”. Realça que um dos riscos menos graves da injecção sem controlo é ficar com os olhos descaídos durante seis meses.

Pinto Soares denuncia ainda “o embuste” de associar ao botox um creme com efeito semelhante que preenche as rugas pouco profundas, mas não é injectado. Botox verdadeiro foi o que a empresária Tekas aplicou, pela primeira vez, há dois anos e agora de novo. “Conheço muita gente que faz de seis em seis meses. Estão completamente viciados.”

Segundo Pinto Soares, o que tem evitado desastres de maiores proporções com o botox é o facto de, no ‘mercado paralelo’, ser aplicado diluído. “Uma ampola custa quase 300 euros. A tendência é para fazer a diluição, o que significa a redução de unidades por mililitro. E isso acaba por mitigar os erros.” Até um dia.

RENDIDOS AOS RETOQUES

Portugal integrou pela primeira vez uma lista organizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (SICPE), onde surge na 29.ª posição entre as nações que mais operações plásticas realizam, de um total de 42. “Esta posição não me surpreende”, diz Angélica Almeida, especialista da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética. “Nos últimos dez, 15 anos, a procura tem vindo a crescer, sendo hoje quase regular. A vergonha antiga está a desaparecer.”

Por cá, aumentar o peito, endireitar o nariz, arranjar as orelhas ou apagar as rugas continuam a ser opções maioritariamente femininas. Elas procuram a perfeição – 84 por cento –, eles são cada vez mais. Em Portugal, a percentagem de clientes masculinos das plásticas – 16 por cento – é superior, por exemplo, a Espanha (8%) ou EUA (6%).

Em todo o Mundo, as injecções de botox, como as que a ex-miss Ana Maria Lucas fez, são as intervenções mais procuradas por ambos os sexos em 2004 (14%). Apagar as linhas faciais ou aumentar o volume dos lábios são práticas que muitos portugueses não dispensam, atingindo o segundo lugar no ‘top’.

PORTUGAL ESTREIA-SE

A Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (SICPE) é um dos grupos que fazem parte de uma instituição maior, a Confederação Internacional para a Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética.

Na origem da criação – 1970, em Nova Iorque – esteve a convicção dos seus fundadores da necessidade de uma sociedade internacional, dedicada a 100% a uma área que, já então, se acreditava vir a tornar-se uma especialidade importante.

Há quatro anos que a SICPE reúne os números das plásticas realizadas um pouco por todo o Mundo. Em 2000, receberam dados de apenas 20 países, enquanto que em 2004 já foram 42 os ‘sócios’ a responder, estando Portugal nesta lista pela primeira vez. Uma estreia a prometer subidas no ‘top’.

MAIS VOZES QUE NOZES

Rejuvenescer a vagina, aumentar a barriga das pernas, pôr implantes no rabo ou nos peitorais masculinos são desejos que, ao contrário do que se pensava, apenas algumas (poucas) centenas de norte-americanos partilham.

Os números da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (SACP) deixam claro que a realidade é diferente. Em 2005 houve apenas 793 rejuvenescimentos vaginais, 542 implantes no rabo, 337 aumentos da barriga da perna e 206 implantes peitorais. “Estas novas intervenções que estão, supostamente, na moda por todo o país não são realizadas em grande número”, confirmou Bruce Cunningham, presidente da SACP em comunicado. “Isto não quer dizer que este tipo de intervenções não possa aumentar de popularidade no futuro.”

- Injecções de Botox suaviza as rugas profundas e os pés-de-galinha

- Injecções de restylane gel usado no preenchimento cutâneo de pregas, na pele e rugas

- aumentar o peito conseguido através do recurso a implantes, normalmente de silicone

- lipoplastia corrige alterações do contorno corporal

- blefaroplastia corrige deformações nas pálpebras

- rinoplastia corrige deformações no nariz

- Injecções de perlane ‘apaga’ as rugas e aumenta o volume dos lábios

- abdominoplastia corrige o abdómen

- otoplastia corrige as orelhas

- Injecções de gordura para preencher e moldar diferentes partes do corpo

- redução do peito diminuir a gordura, tecido mamário e pele.

CIRURGIA PLÁSTICA NO MUNDO

MAIS POPULARES

As injecções de botox são das intervenções mais realizadas em todo o Mundo

EUA

Injecções de botox

Injecções de Restylane

Aumento do peito

PORTUGAL

Lipoplastia

Injecções de botox

Blefaroplastia

BRASIL

Lipoplastia

Aumento do peito

Injecções de gordura

ESPANHA

Aumento do peito

Rinoplastia

Injecções de Perlane

GRÉCIA

Injecções de botox

Lipoplastia

Injecções de gordura

ÍNDIA

Lipoplastia

Abdominoplastia

Injecções de gordura

JORDÂNIA

Rinoplastia

Otoplastia

Lipoplastia

VENEZUELA

Aumento do peito

Lipoplastia

Injecções de gordura

CHIPRE

Aumento do peito

Rinoplastia

Redução do peito

ITÁLIA

Aumento do peito

Blefaroplastia

Injecções de botox

CIRURGIA PLÁSTICA NO MUNDO

1.º EUA, 76091 intervenções

2.º México, 54074 9

3.º Argentina, 49590

4.º Espanha, 47680

5.º França, 38070

6.º Alemanha, 36607

7.º Brasil, 35728

10.º Japão, 17227

18.º Grécia, 9783

20.º Rússia, 8754

22.º Reino Unido, 8114

25.º Itália, 5400

28.º Venezuela, 4314

29.º PORTUGAL, 3494

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