Ao fim de três anos em prisão preventiva, Carlos Silvino foi libertado hoje, passavam seis minutos da meia noite. ‘Bibi’ saiu da prisão no banco de trás de um carro descaracte-rizado da PSP, acompanhado pelo seu advogado, José Maria Martins. Mas chegou a pé à casa onde vai viver.
"Estou satisfeito, mas tenho muito medo de sofrer represálias” – estas foram as primeiras palavras que Carlos Silvino disse ao seu advogado, José Maria Martins, depois de ter deixado o Estabelecimento Prisional junto à Polícia Judiciária (EPPJ), em Lisboa. Passavam seis minutos da meia-noite de hoje. ‘Bibi’ saiu da prisão no banco de trás de um carro descaracterizado da PSP, acompanhado por Martins. Mas chegou à sua casa do bairro de Santos, a pé, embora acompanhado por quatro elementos do corpo de segurança da PSP. Esperavam-no meia dúzia de populares, que não se cansaram de o vaiar.
Com esta recepção confirmou-se um dos medos de Silvino: a forma como seria recebido pelos seus vizinhos. O outro, segundo fontes que lhe são próximas, tem a ver com a possibilidade de sofrer algum atentado por estar a colaborar com as autoridades no âmbito do processo de abusos sexuais na Casa Pia. O medo de ‘Bibi’, aliás, começou logo a manifestar-se em Outubro, quando soube que a juíza Ana Peres tinha determinado que deveria ser libertado a 25 de Novembro. No dia em que foi informado dessa decisão (8 de Outubro) disse logo aos que lhe são mais próximos que se não tivesse segurança pessoal corria sérios riscos de vida. Desde os guardas do EPPJ, às pessoas que o visitavam na prisão, aos funcionários do Tribunal de Monsanto, bem como aos juízes e procuradores do Ministério Público todos souberam que ‘Bibi’ estava aterrorizado com a possibilidade de ser solto sem ter alguém que o protegesse.
Ontem de manhã, porém, ‘Bibi’ foi informado que até acabar o julgamento do processo de pedofilia vai ter a seu lado, a tempo inteiro, pelo menos um elemento do Corpo de Segurança Pessoal da PSP. Foi já com um destes elementos que saiu do EPPJ. E vai ser um agente da PSP que hoje o vai acompanhar de casa até ao Teatro Vasco Santana, palco da 113.ª audiência do julgamento do processo Casa Pia.
José Maria Martins fez questão de acompanhar o seu cliente nas primeiras horas de liberdade. “Esta libertação já devia ter acontecido há muito tempo. Devia ter sido determinada na data em foram soltos os outros arguidos do processo”, disse ao CM.
A partir de agora, Martins espera que ‘Bibi’ “abra a caixa de Pandora e perca o medo de contar tudo o que sabe” sobre a pedofilia na Casa Pia. “Carlos Silvino também foi uma vítima de abusos sexuais. Mas também fez mal às crianças. Por isso, a melhor forma de se redimir do mal que fez é contar tudo o que sabe, seja contra quem for. Portugal não pode continuar a ser um Estado feudal, onde meia dúzia de indivíduos obrigam todas as instituições a protegê-los, numa teia de cumplicidades que só pode envergonhar o Estado português.”
O último dia na prisão foi igual à maioria dos que se sucederam desde o início do julgamento. ‘Bibi’ levantou-se às sete da manhã. Após a higiene pessoal tomou o pequeno-almoço e passou alguns minutos na cela a ver televisão. Às nove horas, já estava numa carrinha celular, acompanhado por vários elementos do Grupo de Intervenção dos Serviços Prisionais. Meia hora depois chegou a Monsanto, onde assistiu à 112.ª audiência. Por volta do meio-dia regressou ao EPPJ, onde almoçou [o CM tentou saber a ementa do almoço e jantar, mas uma fonte autorizada dos serviços prisionais alegou que tal informação era uma espécie de segredo de Estado] e jantou. Até à meia-noite passou o tempo a arrumar a roupa, jornais, revistas e os cadernos dos apontamentos que foi tirando no julgamento. A televisão e o rádio a pilhas onde ouvia os relatos do Belenenses mereceram um embrulho especial.
DO SILÊNCIO À COLABORAÇÃO
Carlos Silvino da Silva passou a ser conhecido em 23 de Novembro de 2002 como protagonista do escândalo de abusos sexuais na Casa Pia. Dois dias depois foi detido no escritório da sua primeira advogada (Edviges Ribeiro). Durante o tempo em que foi representado por Hugo Marçal e Dória Vilar, nada contou às autoridades. No Verão de 2003, começou a falar, numa altura em que já era defendido por José Maria Martins. Em julgamento, confessou a maioria dos crimes, implicou todos os arguidos e mostrou-se arrependido.
604 CRIMES E 32 VÍTIMAS
‘Bibi’ está a ser julgado por 604 crimes (de abusos sexuais e lenocínio) sobre 32 jovens. Em julgamento assumiu ter abusado de 23 menores, entre 1999 e 2002, e pediu desculpa às vítimas que o enfrentaram na sala de audiências. Algumas aceitaram, outras não. O seu confesso ajudante, ‘André’, disse que o desculpava, mas aconselhou-o a contar toda a verdade. As casas de banho dos colégios, o carro e a garagem de Pina Manique foram alguns dos locais onde ‘Bibi’ abusou de menores.
VIZINHOS DIVIDIDOS NA RECEPÇÃO
No Bairro de Santos, junto da Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, o regresso de ‘Bibi’ a casa provoca receio entre os vizinhos. Uns temem pela segurança dos filhos e netos menores. Outros que o antigo funcionário da Casa Pia possa vir a ser vítima de alguém que o queira silenciar.
Isaura Almeida reside na Rua Alberto Sousa desde 2001, data em que também foi atribuída a casa camarária a Carlos Silvino. Contudo nunca o conheceu no bairro. “Mau vizinho não era porque nunca se soube aqui de qualquer desacato por ele cometido.”
“Só o conheço através da televisão e não tenho qualquer opinião sobre ele, nem a favor nem contra”, referiu. Contudo, Isaura Almeida afirmou que toma medidas de protecção em relação aos netos.
“Salvaguardo os meus. E temo pelo bem da minha neta que é muito bonita e tem 12 anos. Nem posso pensar que ela se possa cruzar com esse homem nas escadas do prédio.”
O receio é também a palavra expressa pelo casal José Martins e Floripes Gil Gomes. “Pode ser perigoso para ele estar aqui em casa em vez de ficar na cadeia”, disse Floripes. “Aqui fica mais exposto a alguém que lhe queira fazer mal.”
O casal conhece Carlos Silvino há mais de 30 anos, quando eram vizinhos, na Rua dos Quartéis, na Ajuda. No Bairro de Santos, José Martins recorda-se que por vezes via ‘Bibi’ na rua mas “muito raramente”. A mulher lembra-se de os filhos terem sido criados com Carlos Silvino. “Gosto muito dele.” O casal acrescentou que tenciona visitar Silvino depois do seu regresso a casa.
O LADO PACÍFICO
“Acho muito bem”, foi o primeiro comentário de Manuela Silva, empregada de balcão, ao saber que Carlos Silvino iria sair da cadeia. “Não há tantos que fizeram maldades e estão cá fora?”, interroga. “Neste processo todos os outros estão em liberdade por que é que ele não há-de estar também?”
Opinião partilhada por Maria Martins, auxiliar técnica de laboratório, que entende que “os vizinhos não irão reagir de uma forma violenta ao regresso de Silvino a casa”.
CASAPIANO DE GEMA
Carlos Silvino da Silva nasceu no Cercal do Alentejo a 14 de Agosto de 1956. Com quatro anos entrou na Casa Pia e aos 17 passou a funcionário. Na instituição foi ‘adoptado’ por uma cozinheira, Mariana. Da sua família verdadeira pouco se sabe: apenas que tem uma irmã, Isabel Raposo, que vive na Suíça e que o visitou na cadeia.
IMUNE A PROCESSOS
Ao longo de 30 anos, o mestre relojoeiro Américo Henriques denunciou as atrocidades de ‘Bibi’. Em vão. Apesar da abertura de dois processos disciplinares, Carlos Silvino negou sempre os factos e continuou na instituição. Só em 2002 foi aposentado compulsivamente.
DE VÍTIMA A ABUSADOR
‘Bibi’ chegou a julgamento e assumiu os seus crimes: “Somos todos culpados”, afirmou. No entanto, o ex-motorista fez questão de dizer ao Tribunal que também ele foi vítima: “Entrei na Casa Pia com quatro anos e até aos treze fui violado todos os dias à noite”.
SEMPRE CONTRA CRUZ
Silvino não se limitou a denunciar os alegados crimes de Carlos Cruz. Revelou também ameaças do apresentador para o silenciar. Em Tribunal foi desmentido pela defesa de Cruz e avançou com um processo por difamação contra o advogado Ricardo Sá Fernandes.
SEGURANÇA TOTAL
Na prisão da PJ, ‘Bibi’ foi um recluso com tratamento diferenciado, sujeito a medidas de segurança extraordinárias: porta da cela vigiada 24 horas por dia; comida inspeccionada e relatórios pormenorizados sobre os seus movimentos. Silvino só ia ao pátio quando os outros detidos já estavam fechados.
CASA ARRANJADA
Apesar da casa de ‘Bibi’, no Bairro de Santos, ter estado fechada durante três anos, nos últimos dias foi arejada e preparada por alguns amigos do detido. Também no frigorífico não faltou comida.
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