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Mansão de Rendeiro em offshore

A casa onde mora João Rendeiro, o fundador do Banco Privado Português (BPP), no exclusivo condomínio da Quinta Patino, em Cascais, está registada num sociedade estrangeira, sediada num offshore, que já teve duas moradas diferentes. Segundo apurou o CM, a mansão do lote 81, que está actualmente avaliada em 2,1 milhões de euros, é propriedade da empresa Corbes Group Limited, que a adquiriu em Maio de 2000 com recurso a um empréstimo do Banco Bilbao Vizcaya no valor de 250 mil euros.

24 de maio de 2009 às 02:00

No ano da compra, a Corbes Group tinha sede na cidade de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. Porém, a 24 de Junho de 2004 a empresa mudou-se para os Estados Unidos, nomeadamente para o Estado de Delaware (o maior paraíso fiscal norte-americano) e passou a chamar-se Corbes Group LLC.

O CM tentou encontrar a empresa nos Estados Unidos, mas nessa exacta morada, isto é, na cidade de Camden, na rua Wilow Grove, no edifício número dois, no Estado de Delaware, apenas encontrou 35 empresas diferentes e registadas como inactivas.

João Rendeiro é dono de dois apartamentos, um na rua da Misericórdia, em Lisboa, e outro na Alameda da Quinta da Terrugem, em Paço d’Arcos.

O apartamento em Lisboa, que tem dois lugares de garagem, foi adquirido pelo ex-banqueiro e pela mulher, Maria de Jesus, a 26 de Março de 2003 por quase 146 mil euros. E é nesta morada que está registado o domicílio fiscal de Rendeiro. Quanto ao apartamento em Paço d’Arcos, os registos prediais dão-na como propriedade da empresa Caxias-Empreendimentos Imobiliários. Mas na mesma morada, e precisamente no apartamento 211, encontramos outra empresa, a Nova Caxias – Empreendimentos Turísticos, da qual Rendeiro declarou, em 2007, ter recebido 248 euros de renda.

Contactado o número de telefone da morada, que serve de sede às duas empresas –a Nova Caxias e a Caxias Empreendimentos –, quem respondeu foi o Hotel Apartamentos Sol Palmeiras. Um empreendimento hoteleiro de quatro estrelas, do qual vários empresários brasileiros são donos de fracções.

Rui Ribeiro da Silva, presidente do Conselho de Administração da Gesticar, empresa-mãe das outras duas e que explora o hotel, explicou então ao CM que João Rendeiro é de facto proprietário de um apartamento naquele hotel, mas que provavelmente se enganou no número porque o 211 será da ‘Caxias’.

'Os apartamentos pertencem a diferentes donos e a empresa Nova Caxias explora os arrendamentos e no final do ano distribui os resultados, daí os 248 euros que o Dr. João Rendeiro declarou.'

Confrontado com todos estes factos, João Rendeiro recusou prestar qualquer esclarecimento, afirmando apenas: 'Publiquem o que quiserem.'

UM APARTAMENTO NUM HOTEL

João Rendeiro é proprietário de um apartamento no Hotel Solar Palmeiras, localizado na Alameda da Quinta da Terrugem, em Paço D’Arcos, desde 1994, data em que terá sido construído o empreendimento. Ao que o CM apurou, o apartamento serve apenas para negócio, uma vez que a sua exploração está entregue à empresa Nova Caxias. Esta empresa, no final do ano, distribui os resultados e em 2007 o fundador do BPP teve direito a 248 euros. Este hotel tem 35 apartamentos e todos eles pertencem a proprietários diferentes. Aliás, segundo Rui Ribeiro da Silva, o presidente do Conselho de Administração da Gesticar, a empresa-mãe das empresas que gerem e exploram o empreendimento turístico, cabe a cada proprietário pagar as respectivas contribuições autárquicas.

EX-BANQUEIRO FEZ 57 ANOS NA SEXTA-FEIRA

Nos últimos meses muita coisa mudou na vida de João Rendeiro. Passou de um banqueiro de sucesso que 'venceu nos mercados' (como dizia na capa do seu livro lançado em Novembro do ano passado) para o homem que deixou o banco privado perto da falência. E muitos foram aqueles com quem privou que agora lhe viraram as costas. A última vez que apareceu em público foi na passada quinta-feira, na assembleia geral do BPP, de onde saiu derrotado pelos accionistas que recusaram as suas propostas para recuperar o banco. Não dá entrevistas, não comenta as acusações que lhe são imputadas. Refugia-se na sua casa na Quinta Patino. Mas há coisas de que não abdica. Saiu da reunião e foi para o Hotel Ritz. Há poucas semanas foi visto a almoçar no Eleven (um dos restaurantes mais caros de Lisboa), do qual foi fundador com mais 11 empresários. Em Fevereiro, também não perdeu a oportunidade de viajar para Madrid para ir à conhecida ARCO, feira de arte contemporânea. Na sexta-feira fez 57 anos. Como celebrou? Este ano não se sabe. No ano passado a festa foi falada em todo o lado porque teve cerca de 300 convidados.

O VERDADEIRO DOMICÍLIO FISCAL

O segundo andar do número 81 da rua da Misericórdia, que fica por cima dos toldos de uma loja de decoração, foi adquirido por João Rendeiro e a mulher, Maria de Jesus, em 2003. No livro ‘Testemunho de um Banqueiro’, Rendeiro faz-lhe referência: 'Já tínhamos mudado de Campo de Ourique para a rua da Misericórdia, quando um dia a Maria apareceu com um pardal em casa (...)'. Ao que o CM apurou junto de alguns comerciantes, há três anos que nem o ex-banqueiro nem a mulher são vistos ali. Apenas a senhora da papelaria se lembrava: 'Recordo-me, mas já há uns três anos que foram embora. Agora só vejo a mulher a dias que vem aí pelo menos uma vez por semana.' A casa não está arrendada e as janelas permanecem com as portadas brancas fechadas.

PORMENORES

GESTÃO RUINOSA

Uma auditoria ao Banco Privado Português revela falsificações de contabilidade, actos dolosos de gestão ruinosa em detrimento dos depositantes, podendo ainda indiciar crimes de branqueamento de capitais.

PAGAMENTOS PRIVADOS

O relatório da Deloitte revelou a utilização de uma offshore pertencente ao banco 'para o pagamento de uma dívida relativa a um processo judicial da esfera privada do dr. João Rendeiro'.

NOTAS

CRAVINHO: 'É UM HOMEM DE BEM'

João Cravinho escreveu o prefácio do livro de Rendeiro. Em Fevereiro, já depois do escândalo rebentar, disse que não estava arrependido: 'Continuo a pensar que é um homem de bem'

CONTAS: MAIS DE 800 MILHÕES

João Rendeiro diz que algumas dezenas de participadas da holding que controla o BPP ainda não aprovaram contas. O que daria um saldo de 823,9 milhões

BDP: EMPRÉSTIMOS PARA PAGAR

O Banco de Portugal enviou a clientes do Banco Privado Português (BPP) uma carta a recordar--lhes que estão obrigados a pagar juros e amortizações de empréstimos que tenham contraído

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