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Metade das 'luvas' fica em Inglaterra

Metade do valor total das ‘luvas’ que terão sido pagas a várias pessoas, no âmbito da autorização de construção do Freeport em Alcochete, ficou em Inglaterra. Por isso, a própria polícia inglesa já está a tentar encontrar o rasto a esse dinheiro, que terá desaparecido em Inglaterra. Com este novo dado, o valor total de ‘luvas’ sob suspeita ascende a oito milhões de euros.

08 de fevereiro de 2009 às 00:30

Ao que o CM apurou, o montante total das ‘luvas’, alegadamente pagas pela Freeport PLC, foi revelado à Serious Fraud Office (SFO) por uma pessoa próxima de Sean Collidge, ex-presidente do conselho de administração da Freeport. No essencial, as autoridades inglesas suspeitam de que 'quatro milhões de euros ficaram em Inglaterra', segundo fonte conhecedora do caso.

A ser assim, os oito milhões de euros em ‘luvas’, alegadamente pagas pela Freeport PLC, terão sido distribuídos entre portugueses e ingleses. Até agora, as suspeitas apontavam para que o pagamento de subornos tivesse ocorrido apenas em Portugal.

A carta rogatória da SFO, enviada ao Ministério Público em 7 de Dezembro de 2008, diz que os cidadãos britânicos 'Sean Collidge, Gary Russell, Jonathan Rawnsley, Rick Dattani, Charles Smith, William (Billy) McKinney Jnr' estão a ser investigados por causa da sua ligação ao caso Freeport e que 'existem motivos razoáveis para crer que as pessoas acima referidas tenham cometido crimes de suborno e de corrupção.' E diz também que José Sócrates, José Marques, ex-vice-presidente do Instituto da Conservação da Natureza, João Cabral, ex-director de projectos da Smith & Pedro, e Manuel Pedro, sócio da Smith & Pedro, 'são considerados como estando sob investigação no sentido de terem solicitado, recebido ou facilitado pagamentos relevantes aos crimes [de suborno e corrupção].'

Para já, o CM sabe que a Polícia Judiciária está a investigar todos os fluxos financeiros entre Portugal e Inglaterra, independentemente dos montantes transferidos entre os dois países. Tudo para tentar perceber como é que o dinheiro das ‘luvas’ chegou a Portugal.

ANO DE OURO DE MANUEL PEDRO

Manuel Pedro, que foi um dos intermediários do negócio Freeport, teve em 2004 (ano da inauguração do complexo de Alcochete) um dos melhores anos em termos de rendimentos pessoais.

Tal como o CM noticiou, a sua sociedade com o inglês Charles Angus Smith lucrou nesse ano mais de um milhão de euros e o próprio Manuel Pedro teve um rendimento superior aos 125 mil euros. Um valor que nunca mais viria a ganhar até hoje. Com efeito, e em virtude de vários negócios que correram mal, os rendimentos de Manuel Pedro diminuíram substancialmente nos últimos três anos.

ALERTA CONTRA CLIMA PERVERSO

O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), presidido por António Cluny, diz que as notícias dos últimos dias envolvendo os magistrados do processo Freeport, permitem o 'desenvolvimento de um clima perverso de suspeições institucionais'.

Para o SMMP, é 'necessário' imprimir à investigação 'uma velocidade condicente com a sua relevância pública' e evitar o risco de 'intimidação real' aos magistrados.

PARLAMENTO INVESTIGA ESCUTAS DA SECRETA AOS PROCURADORES

O Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), presidido pelo deputado socialista Marques Júnior, já agendou para amanhã uma reunião, na Assembleia da República, para analisar as notícias sobre as eventuais escutas e vigilância dos serviços secretos aos procuradores que investigam o caso Freeport.

Ao que o CM apurou, o Conselho de Fiscalização vai ouvir o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, e o secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira, a quem Pinto Monteiro lançou o desafio para as secretas investigarem as fugas de informação sobre o caso Freeport.

O Conselho de Fiscalização do SIRP quer analisar com cuidado o conteúdo das notícias sobre eventuais escutas e vigilância a Vítor Magalhães e Paes Faria, procuradores do caso Freeport, até porque estão em causa procedimentos que, a terem ocorrido, são ilegais e considerados de grande gravidade. Em função do diagnóstico apurado, o Conselho de Fiscalização decidirá o que fazer.

O Conselho de Fiscalização do SIRP tem por missão avaliar se o Serviço de Informações de Segurança (SIS), o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) e a Divisão de Informações Militares (DIMIL) cumprem a legalidade.

SIS NEGA VIGILÂNCIA A MAGISTRADOS

O Serviço de Informações de Segurança (SIS) negou ontem qualquer vigilância aos magistrados encarregues do caso Freeport, até porque o SIS não tem competências para interferir em processos judiciais.

Antero Luís, director-geral do SIS, garantiu, em comunicado, serem 'completamente falsas e fantasiosas' as notícias sobre 'o suposto envolvimento do SIS nas averiguações de eventuais fugas de informação, em violação do segredo de justiça e no suposto seguimento ou vigilância de magistrados'.

O director do SIS deixou também claro que 'não está no âmbito das competências do SIS a interferência, a qualquer título, em processos judiciais.'

SAIBA MAIS

17 DE JANEIRO DE 2002

Segundo a polícia inglesa, houve uma reunião no Ministério do Ambiente entre José Sócrates, Sean Collidge, Gary Russell, Manuel Pedro, funcionários municipais e públicos.

5

Milhões de libras é quanto a carta rogatória inglesa diz que foram pagos a um escritório de advogados em Portugal.

50 000

Libras foi o valor pago em três/quatro parcelas à Smith & Pedro, segundo a carta rogatória.

APROVAÇÃO

O Freeport de Alcochete foi viabilizado em 14 de Março, três dias antes das legislativas.

A VER. Arrancou ontem no Freeport a exposição ‘Mitos e Monstros’, com peças do Museu de História Natural de Londres.

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