Pela janela da cabina da avioneta que pilotava, António Posser de Andrade, um dos proprietários da Herdade da Palma, em Alcácer do Sal, entre as maiores do Alentejo, acenou de felicidade à filha, com quem ia almoçar. Segundos depois, quando se preparava para aterrar na pista do pequeno aeródromo privado da propriedade, chocou com um sobreiro e despenhou-se. O proprietário rural, 79 anos, morreu carbonizado. Quanto ao acompanhante, rapaz de 18 anos, teve ferimentos graves – queimaduras de 3º grau nas pernas. Foi retirado do aparelho em chamas e salvo por familiares que seguiam noutra avioneta para almoçar na herdade.<br/>
O empresário deixou a sua casa em Cascais de manhã cedo e, às 10h00, já tinha o BMW estacionado na base da Azambuja. Era ali que guardava o seu ultraleve e não perdeu tempo a levantar voo rumo ao Alentejo. 'Ele ia muitas vezes para a herdade almoçar com amigos e estar com a família', segundo um responsável da pista ribatejana. 'Era muito experiente e, há cerca de cinco meses, tinha passado nos exames médicos'.
Recorde-se que o acidente, ocorrido pelas 12h20 de ontem, foi o segundo com aeronaves em três dias. O primeiro, em Évora, fez dois mortos: o piloto, Eddy Resende, 39 anos e proprietário da escola de pára-quedismo Skydive, e o acompanhante, o instrutor João Silva, de 30 anos.
No caso de ontem, o empresário de 79 anos tinha convidados para o almoço. O avião de um amigo também levantou da Azambuja, ao mesmo tempo, mas um dos filhos deste seguiu com Posser de Andrade, para lhe fazer companhia. 'O acompanhante foi logo socorrido por familiares que se encontravam no local e que acabaram também por sofrer ferimentos ligeiros, com as chamas do avião. O jovem de 18 anos foi transportado de helicóptero e recupera no Hospital de São José, Lisboa.
As causas do acidente estão por apurar, mas, ontem, os destroços já estavam a ser inspeccionados por peritos do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves. Na herdade, onde as chamas consumiram mato até serem extintas pelos bombeiros, a família remeteu-se ao silêncio.
SANGUE ARISTOCRÁTICO E PAIXÃO POR AVIÕES
António Luís de Meireles Posser de Andrade nasceu a 30 de Julho de 1931 (79 anos) em São Pedro de Sintra. Com sangue aristocrático – é descendente, segundo a genealogia, de D. Afonso Henriques e de Carlos Magno e a bisavó era baronesa –, cedo se apaixonou pelos aviões, tendo-se mesmo deslocado a Inglaterra para tirar o brevê.
Casou duas vezes, primeiro com Maria Filomena Gião Madeira (1961) e depois com Maria Helena da Costa de Jesus (1979). Tem três filhos, dois dos quais fruto do primeiro casamento. Vivia em Cascais.
A família Posser de Andrade é proprietária de uma das maiores produções agrícolas do País, a Herdade da Palma, desde finais do século XIX. Os negócios da família sempre estiveram ligados à agricultura e cortiça e, na herdade, funciona uma sociedade agrícola.
Nela, encontra-se o Palácio de Palma, do século XIII, onde o rei D. Carlos era hóspede frequente, para montar a cavalo e caçar.
NOTAS
2007: MAIS DOIS MORTOS
Em Janeiro de 2007, um ultraleve despenhou-se no mesmo local, ao bater em cabos de alta tensão. Os dois ocupantes morreram.
ACIDENTES: SETE QUEDAS
Desde Maio passado registou-se sete acidentes com aeronaves ligeiras, causando a morte de cinco pessoas e seis feridos.
ULTRALEVE TECNAM P2002 SIERRA RG
Comprimento: 6,61 m
Envergadura: 8,60 m
Peso vazio: 281 Kg
Número de lugares: 2
Motor: Rotax
Potência: 100 cavalos
Velocidade de cruzeiro: 214 Kn/h
Velocidade máxima: 223 Km/h
Autonomia: 7 horas
'HÁ FALTA DE TÉCNICOS ESPECIALIZADOS' (Óscar Antunes, Pres. do SITEMA sobre queda de avião)
Correio da Manhã – Têm caído muitas aeronaves. Qual a justificação ?
Óscar Antunes – A resposta devia ser dada pelo INAC, uma vez que é a entidade competente para certificar as aeronaves, as pistas e quem faz a manutenção. Na queda de uma aeronave podem estar envolvidas várias condicionantes desde o calor que se sente no Verão, às condições do aparelho e até da saúde do piloto.
– Que influência tem o calor?
– Quando há mais calor, há maior instabilidade das aeronaves porque o ar é mais rarefeito e há menos pressão sobre as asas. E depois no Verão este tipo de aeronaves faz mais horas de voo porque as pessoas estão de férias, são também mais usados no combate aos incêndios. Logo, a manutenção devia ser mais frequente. O problema é que faltam técnicos especializados. Sei disso porque a TAP forma técnicos porque não os encontra no mercado.
– O piloto de ontem tinha 79 anos. Qual o limite de idade para os pilotos?
– A lei passou de 60 para os 65 anos, mas desde que passem nos exames físicos a permissão pode ser prolongada.
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