A maioria das empresas portuguesas está a recorrer aos cheques pré-datados para dilatar os prazos de pagamento aos fornecedores, uma alternativa para ultrapassar as dificuldades colocada pela crise no acesso ao crédito.
Com o consumo em queda, as Pequenas e Médias Empresas (PME) estão a perder 'cerca de 40% nas vendas', revela a associação do sector. 'Cerca de 80% das empresas estão a usar cheques pré-datados a 30, 45, 60 e 90 dias', garante Fernando Augusto Morais, presidente da Associação Nacional das PME.
A dificuldade em escoar stocks está a aumentar os prazos de pagamento do retalho aos grossistas, que por sua vez falham os dias de cumprimento das facturas estipulados pelas fábricas fornecedoras. 'Existe um prejuízo económico porque não há fluxo financeiro', acrescenta. Os sectores 'mais afectados são os têxteis, calçado e o pequeno retalho'.
Os problemas de tesouraria das empresas, sobretudo das PME, são também confirmados pela Intrum Justitia. De acordo com o responsável ibérico da empresa de gestão de créditos, Luís Mascarenhas, está a registar-se uma 'maior dificuldade nos pagamentos'. 'O problema é transversal, atingindo todos os sectores, incluindo o próprio Estado, que também tem vindo a atrasar-se nos pagamentos a fornecedores', diz.
Segundo o presidente da associação representativa do sector, as dificuldades no acesso ao crédito são maiores, pois 'há um milhão de penhoras a correr no País, 400 mil das quais contra PME'. E acrescem-lhe o impedimento de usar as típicas ‘letras’. 'Pressupõe juros e estão sujeitas aos mesmos critérios apertados do que os créditos.'
O ‘truque’ para dilatar os prazos acarreta, contudo, desvantagens. Segundo Fernando Augusto Morais, 'o cheque pré-datado não é seguro', até porque 'há empresas que levantam os cheques antes da data definida'. 'Isto está a gerar imensos conflitos', admite.
PORMENORES
PRAZOS MÉDIOS
No retalho, o prazo médio de pagamento é de 90 dias. Os grossistas pagam às fábricas fornecedoras a 30 dias.
ESTADO DEMORA
O Estado demora quase 140 dias a pagar aos seus fornecedores.
ACTIVIDADE
Os sectores mais afectados representam 40% da actividade empresarial do País.
ROTINA 'ANARQUIZADA'
Augusto Morais diz que 'a rotina de pagamentos está anarquizada'.
ESPERADO AGRAVAMENTO PARA 2009
Os atrasos nos pagamentos vão 'continuar e até agravar-se em 2009', sublinha ao Correio da Manhã Luís Mascarenhas, o director-geral ibérico da Intrum Justitia. E os problemas de liquidez não afectarão apenas as empresas: se se concretizarem as piores previsões em termos de desemprego, é também de 'esperar um aumento das dificuldades nos pagamentos dos particulares', concretiza Luís Mascarenhas. Fernando Augusto Morais, da Associação Nacional das PME, tem opinião idêntica: '2009 vai ser um ano muito penalizante para todos os sectores e o Governo tem a exclusividade da culpa, porque não preparou o País para a crise. De acordo com um estudo desenvolvido pela Intrum Justitia, o valor dos incobráveis subiu, em 2007, de 2,5 para 2,7% em relação às vendas.'
'OS BANCOS ESTÃO A ESGANAR AS EMPRESAS'
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Guimarães (ACIG), Carlos Teixeira, diz que as empresas estão a viver uma 'grave crise de tesouraria' e sublinha que os bancos não estão a ajudar.
'Às empresas têxteis e metalúrgicas estão a aplicar spreads de 11 a 13 por cento, o que coloca os juros a 16 ou 17 por cento. Desta forma, os bancos estão a esganar as empresas', disse este dirigente ao CM.
Mas Carlos Teixeira vai mais longe. Diz que não sabe para onde está a ser canalizado o dinheiro do Estado e assegura que, 'se nada for feito, as falências vão aumentar de forma exponencial'.
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