A quinta da família de Manuel Maria Carrilho, em Viseu, esteve prestes a ser ‘rasgada’ a meio devido à construção de uma auto-estrada (A25). No entanto, esse trajecto foi reprovado e substituído por outro que tem uma curva em forma de cotovelo. A via vai passar a sul de Viseu, mas não toca na quinta da família do ex-ministro.
O troço da auto-estrada A25, em Viseu, ainda permanece sem traçado definitivo. O problema persiste há quatro anos. A solução inicialmente defendida por Fernando Ruas, presidente da Câmara de Viseu, mereceu fortes críticas de proprietários de vinhas que iriam ser destruídas. Entre estes proprietários está a família de Manuel Maria Carrilho, ex-ministro e candidato socialista à Câmara de Lisboa nas últimas Autárquicas. Entretanto, avançou um traçado provisório que é marcado por uma curva perigosa, em forma de cotovelo.
Se o projecto inicialmente previsto fosse avante, Manuel Maria Carrilho e os seus irmãos, herdeiros do antigo presidente da Câmara de Viseu, Manuel Engrácia Carrilho, veriam a quinta dividida pela auto-estrada. “As vinhas ficavam sem valor nenhum”, disse ao CM António Maia Pinto, caseiro da família Carrilho.
No início do processo foram apresentadas duas hipóteses: a passagem da A25 a norte de Viseu, aproveitando o traçado do actual IP5, ou a sul, que arrasaria muitas vinhas e obrigaria ao derrube de habitações. Em 2003, um estudo de impacte ambiental aconselhou a hipótese norte, mas Fernando Ruas mostrou--se irredutível: “Por ali nunca”, diz.
Entretanto, no decorrer das ‘negociações’, apareceu uma terceira alternativa, que todos consideram “provisória”: ligar a A25 ao actual troço que liga IP3/IP5. Para isso está em construção uma curva em forma de cotovelo que mereceu a reprovação do autarca local e da Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados (ACAM), que interpôs uma providência cautelar que visa impedir a abertura do troço por ser “mais um ponto negro para as estradas nacionais”.
No entanto, segundo o CM apurou, há um protocolo entre a Câmara de Viseu e o Ministério das Obras Públicas para executar um estudo de viabilidade para a construção de uma nova variante a sul, cujo trajecto foi alterado e já não passará pelas vinhas da família Carrilho. “Pela informação de que disponho, a auto--estrada passará também a sul da quinta da família de Manuel Carrilho”, afirmou ao CM Manuel João Ramos, presidente da ACAM, que também defende a construção da A25 a norte da cidade. “Quem vai ganhar com tudo isto é a Lusoscut. O Estado, por seu lado, vai gastar muito dinheiro em expropriações. Se fosse a norte era só aproveitar o traçado do actual IP5”, acrescentou. Fernando Ruas não concorda e diz que a solução de alargar para quatro faixas o traçado a norte de Viseu é apenas defendida pelos proprietários das vinhas do Dão que seriam afectadas com a construção da nova estrada a sul, que ligará Fagilde a Boa Aldeia, passando por Espanadal, zona industrial de Coimbrões e Torredeita.
O CM tentou falar com Manuel Maria Carrilho. Fonte próxima do deputado disse que as referidas vinhas são de uma irmã. Mas outras fontes garantiram ao CM que o deputado ainda é um dos co-proprietários.
O Tribunal Administrativo e Fiscal de Viseu está a analisar a providência cautelar interposta pela Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACAM) que visa impedir a abertura ao tráfego do troço de ligação entre a A25 e a EN2, na zona do Caçador. A ligação é feita através de uma curva muito pronunciada, em forma de ferradura. Os moradores da zona chamam-lhe bossa de camelo e também comungam dos pressupostos da providência cautelar.
“Como é que é possível fazer-se, nos dias de hoje, uma curva tão pronunciada e perigosa. Vai ser mais um ponto negro nas nossas estradas”, afirmou ao CM Manuel João Ramos, que já esteve no Tribunal de Viseu a acompanhar uma sessão que contou com os testemunhos de técnicos da empresa Estradas de Portugal, da concessionária da obra (Lusoscut) e de engenheiros da Universidade de Aveiro, que num relatório afirmaram que o troço “comporta um nível elevado de risco” para os condutores.
O lanço da auto-estrada encontra-se ainda em construção e tem inauguração prevista para o próximo mês de Agosto. A ACAM e uma comissão de moradores da zona do Caçador tentam, a todo o custo, evitar a sua abertura ao tráfego rodoviário, considerando que vai ser o mais recente ‘ponto negro’ das estradas portuguesas.
“Dizem que é um troço provisório até o ‘caminho das vinhas’ estar concluído, mas no nosso país o que é provisório geralmente transforma-se em definitivo”, disse Manuel Ramos.
DEZ HECTARES EM ZONA NOBRE DA REGIÃO DE VISEU
A Quinta de São Domingos pertence a Manuel Maria Carrilho e alguns irmãos. A propriedade agrícola, de dez hectares, fica situada a cinco quilómetros do centro da cidade de Viseu, na zona de Coimbrões, próximo da zona industrial e com uma vista privilegiada para a Serra da Estrela. Uma irmã de Carrilho, agrónoma de formação, liderou os protestos dos agricultores da zona contra a auto-estrada e levou o processo até Bruxelas.
Além de ser uma quinta onde se produz “um pouco de tudo”, aquele espaço rural é também aproveitado pela família Carrilho para aliviar o stress citadino e recuperar forças. À entrada da quinta situam-se os barracões agrícolas e uma casa rural recentemente recuperada e ladeada por laranjeiras, devidamente guardas pelo cão. A meio de uma das vinhas está uma piscina, um luxo que propriedades vizinhas não têm.
Segundo disseram ao Correio da Manhã alguns vizinhos, principalmente no Verão, o casal Manuel Maria Carrilho e Bárbara Guimarães, mais o filho, “passam algum tempo” na quinta, “porque tem muita sombra e é sossegada”.
António Maia Pinto, de 43 anos, é há três o caseiro da família Carrilho. É ele o responsável por tudo o que se passa e se colhe na quinta e nem sequer quer ouvir na possibilidade de a quinta poder ser dividida a meio devido à construção da Auto-estrada 25.
“Foi um assunto que atormentou os meus patrões. Se porventura passasse aqui a auto-estrada, iria destruir esta quinta”, afirmou ao CM António Pinto adiantando que o assunto “voltou a ser comentado nas últimas semanas”. Os meus patrões já disseram para eu estar sossegado porque nada está decidido”, concluiu o caseiro enquanto podava as videiras.
CASTAS DE UVA SELECCIONADA
As vinhas da Quinta de São Domingos estão inseridas na Região Demarcada do Dão e são constituídas por 15 mil pés só de castas devidamente seleccionadas, onde se destaca a videira touriga e a tinta roriz. De acordo com o caseiro António Pinto, no ano passado a propriedade agrícola produziu 25 toneladas de uva. “O vinho que se produz aqui é uma categoria, do melhor que há. Os meus patrões só querem castas de qualidade”, disse o agricultor.
TROÇO DA A25 ATRASADO
O troço de Viseu da A25 é o que está mais atrasado de toda a empreitada. Isso deve-se essencialmente às divergências e dúvidas sobre do trajecto definitivo.
OBRA CONCLUÍDA EM 2008
A curva em forma de cotovelo ou ferradura é uma situação provisória até que a construção do troço a sul esteja concluído, o que só acontecerá no ano de 2008.
POPULARES CONTESTAM
Os habitantes do Caçador também contestam a construção da curva em forma de cotovelo. Dizem que vai ser um troço “muito perigoso” que vai ter muitos acidentes.
“EFEITO NAS VINHAS É MÍNIMO”
O autarca Fernando Ruas não entende por que é que o trajecto a sul de Viseu causou tanta polémica, até porque, segundo diz, “o efeito nas vinhas seria mínimo”.
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