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Rede estrangeira ao ataque

Ex-aluno da Casa Pia denuncia abusos em casas de Lisboa, Sintra e Fontanelas.

28 de janeiro de 2010 às 00:30

Uma casa em pleno Rossio, Lisboa, 2º andar por cima de um armeiro; outra em Sintra e mais três em Fontanelas, no mesmo concelho. Foi ali que o ex-aluno da Casa Pia ‘João’, quando procurou a provedora Catalina Pestana e a advogada Ana Caetano, em 2007, disse terem sido alvo de abuso várias crianças daquela e de outras instituições. E ele próprio, nas alturas em que estava sem dinheiro, teria arranjado 'garotos' para os adultos – 'alguns estrangeiros, que tinham por objectivo a realização de filmes de pornografia infantil, em casas que mudavam frequentemente'. O DIAP de Lisboa investiga, mas para já só apanhou rasto da rede de pedófilos numa das casas em Fontanelas e em Monte Abraão, Sintra.

A descrição de ‘João’, hoje com 34 anos, bateu certo em relação à avenida Nossa Senhora da Esperança, em Fontanelas, onde a GNR apreendeu três mil filmes em que se pode ver crianças dos seis aos 14 anos a praticarem actos sexuais com adultos. Foi detido e já acusado o suspeito José Carlos Carvalho Diogo Maria. Mas foi também com base em conversas entre ‘João’ e a provedora Catalina Pestana, reproduzidas pela mesma no DIAP, que a PSP travou o suspeito Fernando Bento Maurício, por abuso de dez crianças – entre elas um aluno do Colégio Maria Pia, da Casa Pia – na sua casa em Monte Abraão, Sintra.

Falta para já apanhar os pedófilos estrangeiros denunciados por ‘João’, embora sem dar nomes, mas 'os locais onde se praticam tais actividades são frequente e rapidamente alvo de mutação, por parte dos utilizadores, a fim de não levantar suspeitas', ressalva a procuradora Ana Paula Rodrigues, da 2ª secção do DIAP, no despacho de Acusação aos dois suspeitos de pedofilia a que o CM teve acesso.

Por isso, os meses de vigilâncias a vários locais já não deram frutos – com excepção das duas detenções –, entre os quais um que Catalina Pestana precisou: uma casa no caminho para as Azenhas do Mar, no pinhal. Já teria sido vendida. E 'o responsável pelos filmes, aos menores, era um francês'. Quanto à advogada Ana Caetano, que mantém contacto com ‘João’ através da internet, uma vez que este estará em França, deu mais moradas, 'de uns estrangeiros', que escaparam.

Entretanto, outra pista é seguida. Diz respeito à denúncia de Pedro Namora, ex-aluno da Casa Pia, segundo o qual crianças da instituição eram levadas, por exemplo, para um ateliê na avenida da Índia, em Lisboa, 'para fazer nus'.

PORMENORES

AGREDIDO E AMEAÇADO

Depois de ter denunciadoos abusos a Catalina Pestana em 2007, ‘João’ contou que foi agredido e ameaçado por dois homens à saída do autocarro: 'Ou calava o bico ou punham-no a dormir numa valeta.'

‘TÓ JÓ’ ANGARIAVA

‘João’ contou que as crianças eram angariadas para os adultos por ‘Tó Jó’, outro ex-aluno da Casa Pia, através de dois menores, 15 e 16 anos, queestavam no Colégio Maria Pia em regime semi-interno.

PROCURADO PELA PJ

O nome completo de ‘Tó Jó’ foi identificado pela polícia, é procurado pela PJ por outros crimes, mas estará em Inglaterra.

ADVOGADO FAZ VÁRIAS VÍTIMAS

Ex-aluno do Colégio Militar, um jovem advogado de 32 anos chocou a instituição quando se soube que era pedófilo – apanhado há cerca de um ano pela secção de combate a crimes sexuais da Polícia Judiciária de Lisboa. É suspeito de ter abusado de mais de uma dezena de crianças, a maioria delas quando estavam confiadas pelos pais à sua guarda, nas horas em que trabalhava como monitor na colónia balnear O Século, em Cascais. Pelo menos uma vez, conforme o CM avançou, abusou também de crianças nas camaratas do Colégio Militar, onde entrava na qualidade de ex-aluno.

BANCÁRIO REFORMADO ABUSA DE DEZ CRIANÇAS

Bancário reformado, aos 61 anos Fernando Bento Maurício está em casa desde Julho passado, à espera do julgamento, com pulseira electrónica, no apartamento onde, segundo a Acusação do Ministério Público, abusou de dez crianças ao longo dos últimos anos, na maior parte dos casos de forma continuada. Num dia de manhã, foi apanhado com uma vítima dentro da casa, numa operação da Divisão de Investigação Criminal da PSP.

As vítimas conhecidas são oito rapazes e duas raparigas, todos menores, vizinhos ou filhos de amigos do predador sexual. Algumas passavam em casa do pedófilo os fins-de-semana e nas férias dormiam lá três a cinco noites por semana; outras iam lá passar tardes inteiras supostamente para ver televisão ou jogar. Todos os menores foram alvo de abuso sexual; todos ficaram marcados para a vida. Há registo de crimes desde 2002 até ao último Verão.

‘José’, por exemplo, hoje com 14 anos e de cuja família o predador sexual era amigo há vários anos, foi alvo de abuso desde 2004. Dormia com frequência em casa de Fernando Maurício – que lhe comprou ténis, jogos, um Mp3, bicicleta, telemóvel e o aliciava habitualmente com dinheiro para comprar guloseimas. À noite, nas várias vezes em que lá dormiu, era abusado de várias formas.

Segundo o Ministério Público, Fernando Bento Maurício tem uma 'grande propensão/compulsão para a prática de crimes' sexuais contra menores indefesos.

DIAP E INVESTIGAÇÃO DA PSP

Depois da denúncia de Catalina Pestana, em 2007, à 2ª Secção do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, liderado pela procuradora Maria José Morgado, avançou a equipa da Divisão de Investigação Criminal da PSP, comandada pelo subintendente Dário Prates. Meses de vigilância e recolha de provas – foram chamadas a depor várias testemunhas e vítimas – terminaram com uma acusação a dois suspeitos por abuso sexual de crianças.

DOIS ACUSADOS NO PROCESSO

No mesmo processo, a 2ªsecção do DIAP de Lisboa acusa o pedófilo de Monte Abraão e José Carlos Carvalho Diogo Maria. Este último também foi apanhado, numa casa em Fontanelas, na sequência da denúncia feita por Catalina Pestana

JULGADO POR 23 CRIMES

Fernando Bento Mauríciovai ter de responder em tribunal por 15 crimes de abuso sexualde criança na forma continuada, oito crimes de abuso sexual de criança e um crime de acto sexual com adolescente.

VENDIA FILMES NA INTERNET

Na casa de Fontanelas, José Carlos Carvalho Diogo Maria divulgava na net, através de um site, fotos e vídeos pedófilos. Responde por abuso sexualde criança na forma continuava e pornografia de menores.

NOTAS

PROVEDORA: DESCONHECE CASOS

Ouvida no processo, Joaquina Madeira, actual provedora da Casa Pia, diz não ter conhecimento de abusos na instituição, tal como psiquiatras, psicólogos e funcionários dos vários colégios

PEDRO NAMORA: SUSPEITAS

Pedro Namora diz suspeitar de que funcionários da provedoria da Casa Pia se relacionem entre eles e com funcionários dos colégios no sentido de levar crianças para casas particulares

INVESTIGAÇÃO: ENTREGUE À PSP

A Polícia Judiciária fez vigilâncias no âmbito deste processo, entre Janeiro e Julho, tendodepois a investigação sido entregue pelo DIAPà Divisão de Investigação da PSP de Lisboa

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