Teresa Cruz foi ontem detida pela Polícia Judiciária por fortes suspeitas de ter sido mandante do homicídio do marido, o empresário Paulo Cruz. O autor material do crime, brasileiro, também foi detido. Ontem à noite, à hora do fecho desta edição, os dois ainda eram interrogados no Tribunal de Instrução Criminal.
Uma semana depois de o empresário Paulo Cruz ter sido assassinado à pancada num apartamento em pleno centro de Lisboa, a viúva, Teresa, já estranhava o silêncio da Polícia Judiciária. Mas ainda acreditava que o crime seria desvendado em breve. “Tenho toda a confiança na nossa polícia”, disse à Domingo. A Secção de Homicídios da PJ não a desapontou e foi ontem buscá-la a casa.
Teresa foi detida logo de manhã, na casa onde vivia com o filho, de sete anos – um condomínio fechado no Lumiar. É suspeita de ter sido a mandante do homicídio. E o autor material do crime, um brasileiro, a quem ela poderá ter pago a morte do marido, também foi detido.
Eram 07h00 quando os inspectores entraram pelo condomínio Jardins do Lumiar, em Lisboa. Teresa Cruz foi apanhada de surpresa e levada sob escolta até à sede da Judiciária, na rua Gomes Freire, em Lisboa. Mas não iria estar sozinha nas longas horas de interrogatório que se seguiram. Numa acção concertada entre duas brigadas da Secção de Homicídios da PJ, o brasileiro, residente na zona de Lisboa, foi detido à mesma hora que Teresa.
Os interrogatórios não foram favoráveis aos suspeitos – e, ao final da tarde, foram levados sob detenção ao Tribunal de Instrução Criminal para serem interrogados por um juiz.
Paulo Cruz, de 45 anos, e a mulher, um ano mais velha, moravam no Lumiar com o único filho em comum, D. Cruz, de apenas sete anos. Mantinham um apartamento arrendado na avenida António Augusto Aguiar – e foi aí que, na tarde de 20 de Janeiro, um sábado, o empresário chegou com Teresa Cruz e acabou assassinado. Enfiaram-lhe um saco de plástico na cabeça e deram-lhe duas pancadas fatais com um objecto contundente.
Paulo subiu de elevador e Teresa, que diz sofrer de claustrofobia, foi pelas escadas. Apesar da enorme violência com que o empresário foi espancado e morto, no curto espaço de tempo até à mulher chegar a pé ao terceiro andar, Teresa garantiu à PJ e mais tarde ao CM que nada viu além de um vulto – e só ouviu o som “parecido ao de um piano a ser arrastado”.
Reformada
A bancária reformada e conhecida socialite pela presença em festas e outros eventos sociais (ver caixa) sempre se mostrou, de resto, disponível para falar do caso à Domingo. E falou-nos de toda a sua “paixão” e “felicidade” ao lado do marido – contrariando os vários testemunhos que nos deram sobre a “clara intenção” que Paulo Cruz teria de se divorciar da mulher.
Quando lhe foi perguntado se não achava estranho que o marido fosse assassinado a escassos metros e ela não reparasse, Teresa respondeu: “Talvez ele não gritasse só para me proteger, afinal sabia que eu estava a subir...” E sobre se desconfiava de alguém, a viúva manteve-se impávida e serena – convicta de que Paulo Cruz morreu apenas porque “estava no sítio errado à hora errada”.
Fontes próximas da família dizem-nos ainda que Teresa “vivia de esquemas com cheques pré-datados”e de calotes, mas ela nega. “Tenho as minhas dificuldades, mas sou uma pessoa íntegra que acaba de perder o marido.” E, quanto à Judiciária, confiava, “é das melhores polícias do Mundo em investigação criminal”. Mas ontem foram buscá-la, a ela e ao cúmplice. E à noite, na casa do Lumiar, só restava o pequeno D., de sete anos, aluno do Colégio Planalto e entregue à empregada doméstica interna.
Paulo Cruz, de 45 anos, era accionista e administrador da Campotec, Comercialização e Consultadoria de Hortofrutículas SA – empresa instalada a cerca de 15 quilómetros de Torres Vedras. Casara-se em segundas núpcias com Teresa. O elevado nível de vida de Teresa Cruz dependia dos rendimentos do marido. O casal tinha uma casa de férias em Alvor, no Algarve. Era engenheiro agrónomo. Amigos e colaboradores recordam-no como “empreendedor”, “extremamente ambicioso” e “frio”, predicados que lhe valeram algumas inimizades. Paulo Cruz era um excelente pianista. Reservava um dia da semana para jantar com os amigos – que metia prova de vinhos e música.
A AMIZADE AOS CABELEIREIROS E AS FESTAS
Teresa Cruz é íntima de Duarte Menezes e João Chaves, dois dos mais famosos cabeleireiros de Lisboa, e frequenta os longos jantares em casa do amigo José Castelo Branco, em Sintra – onde o falecido Paulo Cruz chegou a ir duas vezes. Tão finas amizades levaram-na, nos últimos anos, a vários eventos sociais da capital e catapultaram-na para as páginas das revistas.
A cumplicidade da socialite com os cabeleireiros estendeu-se ao seu filho do primeiro casamento, José David, 20 anos, que era habitualmente visto a passear os cães de João Chaves. E o próprio Castelo Branco, que confirmou ao CM o facto de Teresa ser “uma querida amiga”, diz conhecer “o Zezinho” desde os 16 anos. O filho mais velho estagia na revista ‘Vogue’ norte-americana e Teresa é hoje reformada da banca. Não trabalha há cinco anos: o acidente de carro, numa estrada do Alentejo, com o marido, Paulo Cruz, levou-lhe o antebraço esquerdo e passou a ter uma prótese. Teresa diz ao CM que a sua vida financeira fica agora “muito complicada”.
UMA MORTE EXECUTADA AO SEGUNDO
Paulo e Teresa Cruz chegaram juntos ao número 11 da avenida António Augusto Aguiar ainda não eram 17h00 de 20 de Janeiro, sábado. Viviam juntos no Lumiar mas arrendavam ali um apartamento há seis meses. Só iam fazer “umas medições”, disse Teresa, porque as obras que ainda começaram estavam embargadas a pedido do vizinho de baixo. Ele apanhou o elevador para o terceiro andar, enquanto ela, que sofre de claustrofobia, subiu as escadas. O CM subiu das duas formas, sabe que Paulo só demorou 28 segundos – e a mulher, mesmo “carregada com uma folhas”, não demoraria mais de um minuto e meio a subir os 79 degraus. Ou seja, quem enfiou um saco de plástico na cabeça do empresário – e lhe deu duas pancadas fatais com um objecto contundente na cabeça – não teve mais de um minuto para o fazer sem que a mulher percebesse. Mas Teresa garante ao CM que apenas viu “um vulto” e ouviu “o som parecido ao de um móvel arrastado”.
- Talvez o meu marido não gritasse só para me proteger. Afinal, ele sabia que eu estava a subir. [...] Só vi um vulto e o som parecido ao de um piano arrastado.
- Vi um homem branco e outro negro à porta do prédio. Mas não quero levantar falsas suspeitas. [...] O meu marido tinha grande estrutura física. Seria impossível que não resistisse.
- Tenho as minhas dificuldades mas sou uma pessoa íntegra, que acaba de perder o marido. [...] A minha vida vai agora passar a ser muito complicada financeiramente.
- Era uma mulher muito apaixonada e feliz com o meu marido. [...] Ele era um excelente pianista e um óptimo pai. Tínhamos uma relação de casal perfeitamente normal.
- Pode ter sido alguém que se servia da casa [na avenida António Augusto Aguiar] durante estes meses e o meu marido o tenha surpreendido lá dentro.
Declarações à revista Domingo do CM do dia 04/02/07
O CRIME PASSO A PASSO
1 - ESTACIONAMENTO
O empresário Paulo Cruz e a mulher, Teresa, estacionam o carro na avenida António Augusto Aguiar, na tarde de 20 de Janeiro. Passados seis meses estão de visita à casa que alugaram por dois mil euros/mês, mas que está vazia e todas as obras paradas.
2 - ENTRADA
O número 11 da avenida tem cinco andares, entre habitações, uma revista e escritórios de advogados. O entra e sai é constante e a porta da rua está sempre aberta. Paulo e Teresa Cruz passam a entrada juntos e só se separam no hall do prédio.
3 - 28 SEGUNDOS
Teresa Cruz vê pela última vez o marido à entrada do elevador, antes de este correr as grades, deixar a porta fechar e marcar o terceiro andar. Paulo sobe sozinho. São 28 segundos até o elevador parar. O empresário corre outra vez as grades e prepara-se para abrir a porta de casa enquanto espera a mulher.
4 - UM MINUTO
Um minuto. Teresa sofre de claustrofobia e não anda de elevador. Só com a porteira, que leva uma chave especial e pode abrir
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