A próxima vítima de António Costa, acusado da morte de pelo menos três jovens raparigas, em Santa Comba Dão, estava escolhida e tudo indica que fosse Ana, de 20 anos. O alegado assassino não iria parar. “Ele tem o perfil de um psicopata e por isso não iria parar de matar. Tínhamos de ser nós a parar a sua acção e a evitar novos crimes”, disse ontem ao CM um investigador da PJ.
Ana mora na cidade, a pouco mais de um quilómetro da casa do alegado assassino, e ontem refugiou-se em casa de familiares para evitar os jornalistas. Está assustada, em especial depois de ter sido repreendida pelas autoridades, por ter contado a sua experiência.
Segundo o namorado, Ana foi chamada ao posto da GNR, onde os militares a repreenderam por estar a contar factos que constam do processo e estão em segredo de justiça.
No seu relato, Ana contou que o cabo Costa lhe dizia: “Ontem chegaste tarde” ou “vi um rapaz vir buscar-te” e ela respondia, em tom de brincadeira “você anda-me a seguir”. Depois, ele pediu-lhe o contacto telefónico e ligava a perguntar “coisas banais”, chegando a tentar marcar um encontro, mais de uma vez, sem explicar a razão.
Guiada por uma ‘mão divina’, a jovem foi sempre adiando o encontro. Só agora, confrontada com a prisão do alegado homicida, se apercebeu de como esteve tão perto da morte.
Na verdade, nem Ana nem ninguém na povoação suspeitava que o cabo António Costa pudesse ser o autor do assassinato das jovens. “Ele é uma pessoa muito inteligente e não cometeu nenhum erro, só que teve azar”, explicou um investigador. O azar dele foi a Polícia Judiciária ter colocado a hipótese de estar perante um psicopata e ter traçado o seu perfil: teria de ser alguém absolutamente insuspeito e que conheceria bem as vítimas e as suas famílias.
A PJ deslocou então uma brigada inteira para Santa Comba Dão e foi só procurar a pessoa que se encaixava neste perfil. Todas as informações recolhidas foram apontando no sentido do cabo da GNR na reserva. Mas a sua detenção só aconteceu depois de não haver a dúvida da sua culpa.
“Foi um trabalho cerebral, porque não havia pistas físicas a seguir e não se podia cometer o erro de acusar a pessoa errada, porque isso a iria marcar para sempre”, explicou Almeida Rodrigues, subdirector nacional adjunto da Polícia Judiciária.
A busca à residência do alegado homicida foi liderada por elementos do Laboratório de Polícia Científica, para garantir que não haveria perigo de contaminar qualquer vestígio biológico que fosse encontrado. Esse trabalho, aparatoso, começou às 07h00 de quinta-feira, prolongou-se por todo o dia e foi acompanhado de perto pelo cabo Costa. No final, o ex-militar da GNR seguiu para Coimbra, para a PJ, atrás dos investigadores, que queriam fazer outros exames ao seu carro. Já não saiu do edifício, pois recebeu ordem de prisão.
Faltava ainda perceber o porquê dos crimes, pergunta que persegue os familiares das vítimas. A resposta está nas características do psicopata: mata para obter a sua satisfação ou prazer sexual, o que consegue ao dominar e causar sofrimento à sua vítima, sem ter de as violar.
INVESTIGAÇÃO APOSTOU TUDO
A Polícia Judiciária envolveu toda a brigada de homicídios da Directoria de Coimbra nesta investigação, de forma a garantir que o ‘serial killer’ fosse impedido de continuar a sua acção e salvando da morte outras vítimas.
Almeida Rodrigues, subdirector nacional adjunto, liderou toda a investigação, que foi acompanhada de perto por Pedro do Carmo, director nacional adjunto e responsável máximo da Directoria de Coimbra.
No terreno estiveram o coordenador da brigada de homicídios, inspector-chefe Vitalino Domingues, o inspector Manuel Sineiro e todos os elementos que constituem aquela brigada.
ATAQUES COM INTERVALO DE SEIS MESES
Um mês e poucos dias depois de entrar para a reserva da GNR, o cabo Costa cometeu o primeiro crime, atacando Isabel Isidoro. A jovem ainda estava viva quando o assassino a lançou ao Rio Mondego, na Figueira da Foz. Seis meses depois, em Novembro, voltou a atacar, desta vez escolhendo Mariana Lourenço. Voltou a esperar seis meses para atacar de novo e fazer a terceira vítima, Joana Oliveira.
Seguindo este raciocínio, o assassino voltaria a matar em Novembro, mas a Polícia Judiciária admite que possa haver outras vítimas. Por isso, apela à população que comunique o desaparecimento de jovens, mesmo que pensem que fugiram de livre vontade. Os familiares de Isabel também pensavam que ela estava em França e afinal estava morta.
O QUE A INVESTIGAÇÃO TEM JÁ REUNIDO CONTRA ANTÓNIO LUÍS RODRIGUES DA COSTA
CONFISSÃO
António Costa começou por negar a autoria dos crimes, mas depois acabou por confessar tudo à Polícia Judiciária e indicou os locais onde escondera os cadáveres. Durante a investigação, acompanhou as diligências e comportou-se como um ‘aliado’ dos inspectores.
BUSCA À CASA
A busca à casa do cabo Costa foi exaustiva e aparatosa, pois envolveu meios humanos e equipamento do Laboratório da Polícia Científica. Foram recolhidas provas suficientemente comprometedoras, nomeadamente objectos que o ligam às três vítimas suas vizinhas.
TESTEMUNHOS
No último mês e meio, a Judiciária não arredou pé de Santa Comba Dão. Ouviu e voltou a ouvir os vizinhos das vítimas, os familiares e os amigos. Um dos depoimentos mais importantes terá sido o da jovem Ana, que contou como estava a ser assediada pelo cabo Costa.
FAMÍLIA DE JOANA RECUSA PSICÓLOGOS
O apoio psicológico disponibilizado anteontem pela Câmara de Santa Comba Dão, em colaboração com outras entidades do concelho, foi acolhido com desinteresse pela família de Joana Oliveira, a última jovem a desaparecer. O pai, Fernando Oliveira, disse ontem que os psicólogos da Câmara e da escola foram a sua casa na sexta-feira e deixaram o número de telefone, “mas a partir de agora não queremos cá mais ninguém, pois precisávamos de apoio era quando não sabíamos nada dela e nessa altura estávamos sozinhos, só com a ajuda da família”.
Os familiares do cabo Costa, em particular o seu filho que também é militar da GNR, estando colocado na zona de Lisboa, também estão a receber apoio psicológico, segundo adiantou ontem ao CM uma fonte do comando-geral da instituição militar.
VIZINHO DAS TRÊS VÍTIMAS
ANTÓNIO LUÍS COSTA
Morava em Cabecinha de Rei, não muito longe das suas vítimas. Mas o cabo António Luís Costa, de 53 anos, a quem a PJ atribui a morte das três jovens, também tinha uma casa de férias na Figueira da Foz. Reformado da GNR, todos o tinham por bem educado e generoso. Tem dois filhos - um emigrado no Luxemburgo, outro que é militar da GNR em Lisboa – e vivia com a mulher.
MARIANA LOURENÇO
Foi vista pela última vez a 14 de Novembro do ano passado. Orfã de pai, Mariana, de 18 anos, vivia com os tios em Catraia, perto de Cabecinha de Rei. Há um mês, foi descoberto um cadáver mutilado nos sistema de filtragem da Barragem do Coiço, em Penacova, e as autoridades tentam determinar se será o de Mariana. Era amiga de Joana Oliveira.
ISABEL ISIDORO
Desapareceu a 24 de Maio de 2005. A família pensou que tinha ido para França, como já acontecera. O seu corpo foi encontrado uma semana depois, trazido pelo mar na Figueira da Foz. Até há dois meses, caso de Isabel, de 17 anos, não tinha sido relacionado com nenhum dos outros, embora fosse prima e vizinha de Joana Oliveira.
JOANA OLIVEIRA
Foi a terceira vítima, sequestrada a 8 de Maio, quando regressava a casa vinda da Escola Secundária de Santa Comba Dão. Eram quinze minutos a pé e nesse dia tinha parado para depositar um cheque no banco. O desaparecimento da amiga Mariana, seis meses antes, era algo em que Joana, de 17 anos, não conseguia deixar de pensar. Vivia com os pais.
SEIS HORAS EM TRIBUNAL
PRISÃO PREVENTIVA
António Costa saiu anteontem, após seis horas de interrogatório, do Tribunal de Figueira da Foz na condição de preso preventivo.
POPULARES REVOLTADOS
À saída, dezenas de populares esperavam o ex-cabo da GNR, suspeito de três homicídios e de três crimes de ocultação de cadáver.
CARA TAPADA
Durante anos foi o rosto da segurança em Santa Comba Dão. Anteontem, António entrou e saiu do tribunal de cara tapada.
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