Da teia de Bin Laden às falhas sistémicas dos EUA, uma radiografia ao ataque e à justiça que continua inacabada.
Da teia de Bin Laden às falhas sistémicas dos EUA, uma radiografia ao ataque e à justiça que continua inacabada.
Na manhã de 11 de setembro de 2001, uma célula de 26 operacionais da Al-Qaeda - comandada com mão de ferro por Osama bin Laden - consumou um ataque histórico após ter chegado ao país há praticamente dois anos e meio. Foi uma preparação cuidada e demorada para executar uma carnificina suicida sem precedentes. Desse total, 19 terroristas assumiram o controlo de quatro voos comerciais, transformando-os em mísseis humanos, enquanto outros cinco assumiram a 'arquitetura' do ataque, com o desígnio frio e cirúrgico de decapitar os Estados Unidos.
O grupo era composto por 18 sauditas, dois emiratis, dois iemenitas , um egípcio, um libanês, um marroquino e um paquistanês. O primeiro deles começou a adquirir os meios necessários para entrar no país 2 anos e 5 meses antes do ataque. O resultado foi a devastação das Torres Gémeas do World Trade Center (WTC), em Nova Iorque; a ferida aberta no Pentágono, em Washington; e o desfecho heroico e trágico do quarto avião despenhado nos campos da Pensilvânia.
American Airlines Voo 77 |
Boeing 757 - Partiu de Washington Dulles, às 8h10 (locais), com 53 passageiros e 6 tripulantes a bordo. Despenhou-se no Pentágono às 9h39.
American Airlines Voo 11 |
Boeing 767 - Partiu de Boston, às 7h45 (locais), com 76 passageiros e 11 tripulantes, e chocou contra a Torre Norte do World Trade Center às 8h45.
United Airlines Voo 175 |
Boeing 767 - Partiu de Boston às 7h58 (locais) com 51 passageiros e 9 tripulantes, e chocou contra a Torre Sul do World Trade Center às 9h05.
United Airlines Voo 93 |
Boeing 757 - Partiu de Newark às 8h01, com 33 passageiros e 7 tripulantes, e despenhou-se em Stony Creek Township, Pensilvânia, às 10h10.
Para além dos 19 sequestradores que integravam os voos suicidas, o plano global contou com o apoio logístico, financeiro ou com tentativas de infiltração nos EUA frustradas de outros elementos da rede que integrava o total de 26 conspiradores. Entre eles,e3 destacam-se os cinco arquitetos dos atentados - encabeçados por Khalid Sheikh Mohammed -, capturados entre 2002 e 2003 no Paquistão.
Formalmente acusados por uma comissão militar norte-americana, os cinco permanecem detidos na prisão de segurança da Baía de Guantánamo, em Cuba, pelo planeamento e financiamento direto do 11 de setembro. Aguardando assim, há mais de duas décadas, pelo desfecho de um dos processos jurídicos mais complexos e controversos da história dos Estados Unidos. Em causa estão acusações que incluem assassinato em violação da lei de guerra, atos de terrorismo, sequestro de aeronaves e destruição de propriedade.
Khalid Sheikh Mohammed - Apontado como o principal mentor e arquiteto dos ataques de 11 de setembro
Engenheiro mecânico de origem paquistanesa, criado no Kuwait, apresentou a ideia inicial de usar aviões sequestrados como mísseis a Osama bin Laden no final dos anos 1990. Foi capturado no Paquistão em março de 2003 e passou anos em prisões secretas da CIA (onde foi submetido a afogamento simulado 183 vezes) antes de ser transferido para Guantánamo.
Walid Muhammad Salih Mubarak Bin 'Attash (Khallad) - Considerado um dos principais assessores operacionais e recrutadores de Bin Laden
Iemenita criado na Arábia Saudita, Khallad alegadamente administrou um campo de treino da Al-Qaeda no Afeganistão, onde alguns dos sequestradores do 11 de setembro treinaram. O próprio chegou a ser selecionado como um dos sequestradores de voo anos antes, mas perdeu a oportunidade após ser detido no Iémen em 2001. Também é acusado de envolvimento no atentado contra o navio de guerra USS Cole em 2000.
Ramzi Bin al-Shibh - Principal elo de ligação e facilitador entre os líderes da Al-Qaeda no Afeganistão e as células de sequestradores nos Estados Unidos (como o grupo liderado por Mohamed Atta).
Cidadão iemenita, tentou entrar nos EUA diversas vezes para atuar como sequestrador em nome próprio, mas teve o visto negado repetidas vezes, passando então a coordenar o envio de dinheiro e a matricular os outros terroristas em escolas de aviação. Foi capturado em Karachi, no Paquistão, em 2002, após um intenso tiroteio.
Ali Abdul Aziz Ali (Ammar al-Baluchi) - Tesoureiro e principal tenente financeiro de Khalid Sheikh Mohammed, de quem é sobrinho. É apontado como o principal mentor e arquiteto dos ataques de 11 de setembro
Foi o responsável por canalizar e transferir grande parte do dinheiro usado para cobrir as despesas de vida, viagens e aulas de voo dos 19 sequestradores em solo americano.
Mustafa Ahmed Adam al-Hawsawi - Auxiliar financeiro e financiador da Al-Qaeda.
Cidadão saudita, é apontado em diversas investigações por ter ajudado a gerenciar a logística financeira dos ataques, fornecendo cartões de crédito, passagens e suporte de viagem para vários dos sequestradores que executaram os atentados. Foi capturado junto com Khalid Sheikh Mohammed, no Paquistão, em 2003.
Além dos 24 operacionais já contabilizados, a rede incluía ainda duas peças-chave capturadas em agosto de 2001: Zacarias Moussaoui, o autoproclamado "20.º sequestrador" retido pelo FBI em Minnesota e condenado a prisão perpétua na prisão de segurança máxima ADX Florence, no estado norte-americano do Colorado. E Mohammed al-Qahtani, o emissário saudita barrado pelo controlo de fronteiras norte-americano no mesmo mês e posteriormente enviado para Guantánamo.
Uma análise detalhada das conclusões do Relatório da Comissão sobre os Ataques Terroristas contra os Estados Unidos (9/11 Commission Report) revela que a tragédia não aconteceu por falta de leis ou de recursos, mas sim por um conjunto de vulnerabilidades sistémicas, falhas burocráticas e deficiências na aplicação das leis de imigração e fronteiras.
Os 19 sequestradores solicitaram 23 vistos e obtiveram 22. Mais de metade (13) apresentou passaportes com menos de três semanas de emissão, um detalhe que passou totalmente despercebido pelos serviços consulares. Por outro lado, vários terroristas usaram passaportes com carimbos de entrada e saída falsificados em forjas ligadas à al-Qaeda para esconderem viagens de treino para o Afeganistão. Os inspetores de fronteira desconheciam a existência e o significado destas marcas.
Entre janeiro de 2000 e setembro de 2001, os conspiradores tentaram entrar nos Estados Unidos 34 vezes através de nove aeroportos - e tiveram sucesso em 33 ocasiões. O ambiente nos aeroportos era focado na facilitação de viagens, sem treino específico para detetar táticas de terrorismo.
Três dos sequestradores já eram conhecidos ou detetáveis por agências de inteligência no início de 2000, mas os dados biográficos destes não foram comunicados a tempo aos serviços de fronteira. Além disso, três utilizavam passaportes com um potencial indicador de extremismo, que nunca tinha sido analisado pela CIA ou pelo FBI.
Quase todos os operacionais entraram com vistos de turista, obtendo estadias automáticas de seis meses. No entanto, vários violaram os termos dos vistos - como pilotos que entraram como turistas mas começaram de imediato a frequentar escolas de voo não certificadas, ou outros que ultrapassaram o tempo de permanência legal.
Nas poucas vezes em que foram enviados para inspeções secundárias, os inspetores muitas vezes falharam na verificação de dados, não entenderam a lei ou cederam à expectativa de leniência (especialmente no caso de cidadãos sauditas). Numa das exceções, um inspetor atento negou a entrada a um elemento devido a comportamento arrogante e contradições, mas tratou-se de uma raridade.
Pedidos pendentes de alteração de estatuto e de prorrogação de permanência acumularam-se numa vasta burocracia (no meio de milhões de processos), servindo inclusivamente para ajudar alguns operacionais a reentrar no país. Quando a CIA finalmente forneceu dados biográficos de dois dos sequestradores às autoridades de fronteira, a apenas semanas do ataque, os EUA não dispunham de um sistema de controlo de saídas nas fronteiras, tornando impossível saber se os suspeitos ainda estavam no território nacional.
Enquanto os cinco principais detidos e cérebros logísticos dos ataques viram os processos dos crimes de que são acusados arrastarem-se por anos nos tribunais militares de Guantánamo, até atualmente, uma cobrança definitiva à liderança da al-Qaeda aconteceu alguns anos após o ataque.
A 2 de maio de 2011, forças especiais dos Navy SEALs (SEAL Team Six), numa operação secreta autorizada pelo então presidente Barack Obama, invadiram o complexo residencial fortificado onde Osama bin Laden estava escondido em Abbottabad, no Paquistão.
Nessa incursão, batizada de Operation Neptune Spear, Osama bin Laden foi morto, desferindo um golpe simbólico e operacional de grande peso na Al-Qaeda. No entanto, a morte do líder terrorista esteve longe de representar um encerramento real. Com mais de 1100 vítimas ainda por identificar através de testes de ADN - num total de quase 3000 mortos - e os principais suspeitos da 'arquitetura' dos ataques de 2001 retidos num impasse jurídico infindável, o 11 de setembro permanece como uma ferida aberta na segurança e justiça internacionais.
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