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Histórias de seis portugueses nascidos em 1974

Do nome Liberdade a uma mãe ansiosa no parto, fomos conhecer o início de vida de seis portugueses nascidos no ano da transição para a Democracia.

Do nome Liberdade a uma mãe ansiosa no parto, fomos conhecer o início de vida de seis portugueses nascidos no ano da transição para a Democracia.

30 de março de 2024 às 09:47

Alexandra foi batizada Liberdade  e pensou alterar o apelido. Ricardo é jornalista e já só exerceu em liberdade. Marta é professora e conta que a mãe ficou ansiosa no parto. Joel nasceu a 25 de abril, no epicentro da mudança. Sandra veio ao mundo dois meses após a revolução dos cravos e hoje está ligada à política. António é padre no Funchal e voltou com a mãe da Venezuela após o golpe de Estado.

Nos 50 anos do 25 de Abril, fomos conhecer histórias de seis portugueses que nasceram no ano em que Portugal conheceu a Democracia.

Alexandra da Liberdade: "Odiava o meu nome e pensei mudá-lo"

Alexandra nasceu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, no Dia da Revolução. O pai, na altura com 24 anos, era muito ligado aos movimentos juvenis e estava na rua junto ao Quartel do Carmo quando soube do nascimento da segunda filha. Eram quatro da tarde quando Alexandra nasceu. À mesma hora da rendição de Marcelo Caetano no Quartel do Carmo.

O pai Carlos Pereira, que vivia muito intensamente os movimentos associativos juvenis, ficou feliz com a coincidência dos dois momentos e Alexandra ganhou assim Liberdade no nome. No entanto, a primeira escolha do pai foi "Vitória da Pátria Livre" mas a mãe não deixou.

"Eu em criança odiava o meu nome, porque era diferente e porque na escola, professores e colegas, chamavam-me Liberdade em vez de Alexandra. Cheguei a pensar mudar de nome quando fizesse 18 anos, mas agora gosto dele", confessa.

A partir do momento em que teve noção da importância associada ao dia, começou a gostar do nome. Agora, está conformada e sente muito orgulho no nome e no seu significado até porque sempre se sentiu um "pouco revolucionária".

"Sempre tive noção da data e do que era o 25 de Abril. Lembro-me sempre no meu aniversário de ir para as comemorações do 25 de Abril com os meus pais e levava bandeirinhas e cravos. No dia 25 havia sempre celebração", recorda.

Este ano faz 50 anos e admite que ainda não pensou como vai assinalar a data.

Ricardo Conceição: "A minha mãe conta que se ouviam os tiros"

É jornalista, vive em Lisboa e é um dos filhos do 25 de Abril. Os pais viviam em Paços de Arcos, em Oeiras, e às 5h da manhã do dia 25 de Abril de 1974 foram para o hospital na Baixa de Lisboa.

"Os meus pais foram para a maternidade de madrugada e ainda não se passava nada, mas no Terreiro do Paço viram tanques e muita tropa. O meu pai achou um pouco estranho, mas como havia tropa havia em todo o lado não ligou muito. Nasci no centro de Lisboa e a minha mãe conta que se ouviam os tiros e os rebentamentos", recorda.

Ricardo Conceição brinca e destaca o lado positivo de fazer anos numa data tão emblemática: "Eu esqueço-me dos aniversários de toda a gente mas toda a gente se lembra do meu".

"Desde sempre tive noção da importância do dia. Mas quando era pequeno achava que aquela gente toda na rua era para festejar os meus anos", lembra.

Ricardo Conceição licenciou-se em comunicação social. Esteve 20 anos na Renascença e foi um dos fundadores da Rádio Observador, onde trabalha desde 2019. Sente que por ter nascido no dia da Revolução dos Cravos acabou por lhe influenciar a vida pessoal e profissional. "Não faço ideia sequer do que é trabalhar com censura e agradeço ao 25 de Abril, o facto de poder exercer jornalismo em liberdade", afirma.

Marta Brito: "A minha mãe ficou ansiosa e entrou em trabalho de parto"

Nasceu em Lisboa, é professora de físico-química, é casada e tem oito filhos educados na base da liberdade. Marta Brito nasceu a 25 de Abril de 1974 mas conta que a data do parto estava prevista só para maio.

"Era para nascer no início de maio mas uma vizinha cujo marido era polícia foi avisar a minha mãe que estava a acontecer alguma coisa na cidade e ela ficou tão ansiosa que entrou em trabalho de parto. Foi uma aventura chegar ao hospital porque as estradas estavam cortadas", conta.

Marta Brito sempre achou graça a ter nascido no Dia da Liberdade, motivo pelo qual garante sentir orgulho. No entanto, a professora recorda que em criança "nunca havia desenhos animados na televisão" no dia de anos, porque nesse dia só davam "as comemorações da Revolução". Conta também que os filhos, às vezes, têm dificuldade em lembrar-se quando é que o pai faz anos, mas nunca se esquecem da data da mãe.

Marta diz ainda que sempre que teve de dar a data de nascimento em repartições públicas, as pessoas reagiam sempre com surpresa. "As pessoas acham imensa graça e metem-se comigo", revela.

Para assinalar os 50 anos, está a programar uma viagem em família. Não sabe para onde mas pensa num cruzeiro.

Joel Salvador: "Os militares só deixavam passar ambulâncias"

Joel Salvador nasceu às 18 horas do dia 25 de Abril de 1974, na Clínica de São Gabriel, em Arroios, Lisboa, mesmo no auge dos acontecimentos.

"Foi muito complicado chegar à maternidade porque as ruas estavam cortadas ao trânsito. Os militares só deixavam passar as ambulâncias. Então, os meus pais tiveram de arranjar uma ambulância dos bombeiros. Quando a minha mãe chegou ao hospital também foi complicado porque não havia equipa médica", conta.

"Nasci de cesariana e a minha mãe passou muito mal com a anestesia. Quando estava a despertar, ela não sabia o que tinha acontecido e o quarto estava cheio de cravos. Só que na altura não se levavam cravos a quem nascia e a minha mãe estava muito confusa", lembra.

Joel Salvador tem um passado ligado ao mundo da música. Estudou na Academia de Música de Santa Cecília, em Lisboa, e a guitarra tornou-se uma paixão. Gravou oito CD e há 16 anos decidiu mudar de vida. Foi para a China e tirou Medicina. Acredita que a data de nascimento influenciou a sua vida. "Sou uma pessoa que tem quebrado algumas barreiras e isso sempre esteve associado ao facto de ser um bocadinho revolucionário. Não sei se fui eu que influenciei o dia ou o dia que me influenciou a mim", revela.

Sandra Pereira: "Tudo o que eu fiz ao nível político é graças ao 25 de Abril"

Licenciada em Direito, Sandra nasceu em Lisboa a 23 de junho de 1974, dois meses após o dia da Revolução dos Cravos. Tem uma vida ligada à política e diz que o bichinho pelas questões políticas começou desde muito cedo, porque sempre acompanhou os pais nos comícios.

"Acho que fui muito influenciada pelos meus pais. Sigo a politica desde muito nova. Lembro-me de ter seis anos e ver a notícia da morte do Sá Carneiro na televisão em 1980. Lembro-me do funeral. Fomos todos para a rua e lembro-me de chorar. O Sá Carneiro foi uma pessoa que deu um bocado de esperança e assegurou a continuidade da liberdade", recorda.

Com a política muito presente na sua vida desde muito nova, Sandra Pereira lembra que antigamente as pessoas saíam à rua com entusiasmo.

"O meu pai conta que no 1 de Maio a seguir ao 25 de Abril, as pessoas saíram todas à rua. Foram tempos muito marcantes. Eu fui crescendo e fui tendo consciência disso", refere.

"Tudo o que eu fiz ao nível político é graças ao 25 de Abril e por ter nascido em liberdade. Fui candidata ao poder local, fui deputada, posso votar. Acabo por ser um rosto do 25 de Abril", afirma.

"Desde cedo que intervim publicamente, já fui candidata à Câmara Municipal de Odivelas, já fui vereadora. Tenho a política como uma forma de intervenção social, nobre e ao serviço das pessoas. A política é a arte do bem comum", acrescenta.

Padre António Figueira: "A minha mãe regressou a Portugal após a Revolução"

O padre António Figueira é filho de portugueses, mas nasceu na Venezuela em fevereiro de 1974. Os pais, naturais da Madeira, emigraram para a Venezuela onde havia uma grande comunidade madeirense em busca de uma vida melhor.

No entanto, o pai foi assassinado a 24 de dezembro de 1973, dois meses antes de António Figueira nascer. A mãe que ficou viúva e sozinha acabou por regressar a Portugal após o 25 de Abril.

"Os meus pais emigraram para a Venezuela porque havia muita fome e miséria. A minha mãe viveu as duas realidades: o antes e o depois do 25 de Abril. Ela quando regressou à Madeira já se tinha dado a Revolução. Sempre ouvi histórias de muita pobreza, não havia água potável nem eletricidade. Por exemplo, só se comia determinados alimentos como manteiga e queijo no Natal", conta.

"Após o 25 de Abril, na Madeira também houve uma grande mudança, a nível da rede viária e de outras infraestruturas", lembra.

António Figueira estudou em Coimbra, Lisboa e Roma. Foi ordenado padre em 1998 quando tinha 24 anos.

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