Do nome Liberdade a uma mãe ansiosa no parto, fomos conhecer o início de vida de seis portugueses nascidos no ano da transição para a Democracia.
Do nome Liberdade a uma mãe ansiosa no parto, fomos conhecer o início de vida de seis portugueses nascidos no ano da transição para a Democracia.
Alexandra foi batizada Liberdade e pensou alterar o apelido. Ricardo é jornalista e já só exerceu em liberdade. Marta é professora e conta que a mãe ficou ansiosa no parto. Joel nasceu a 25 de abril, no epicentro da mudança. Sandra veio ao mundo dois meses após a revolução dos cravos e hoje está ligada à política. António é padre no Funchal e voltou com a mãe da Venezuela após o golpe de Estado.
Nos 50 anos do 25 de Abril, fomos conhecer histórias de seis portugueses que nasceram no ano em que Portugal conheceu a Democracia.
Alexandra da Liberdade: "Odiava o meu nome e pensei mudá-lo"
Alexandra nasceu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, no Dia da Revolução. O pai, na altura com 24 anos, era muito ligado aos movimentos juvenis e estava na rua junto ao Quartel do Carmo quando soube do nascimento da segunda filha. Eram quatro da tarde quando Alexandra nasceu. À mesma hora da rendição de Marcelo Caetano no Quartel do Carmo.
O pai Carlos Pereira, que vivia muito intensamente os movimentos associativos juvenis, ficou feliz com a coincidência dos dois momentos e Alexandra ganhou assim Liberdade no nome. No entanto, a primeira escolha do pai foi "Vitória da Pátria Livre" mas a mãe não deixou.
"Eu em criança odiava o meu nome, porque era diferente e porque na escola, professores e colegas, chamavam-me Liberdade em vez de Alexandra. Cheguei a pensar mudar de nome quando fizesse 18 anos, mas agora gosto dele", confessa.
A partir do momento em que teve noção da importância associada ao dia, começou a gostar do nome. Agora, está conformada e sente muito orgulho no nome e no seu significado até porque sempre se sentiu um "pouco revolucionária".
"Sempre tive noção da data e do que era o 25 de Abril. Lembro-me sempre no meu aniversário de ir para as comemorações do 25 de Abril com os meus pais e levava bandeirinhas e cravos. No dia 25 havia sempre celebração", recorda.
Este ano faz 50 anos e admite que ainda não pensou como vai assinalar a data.
Ricardo Conceição: "A minha mãe conta que se ouviam os tiros"
É jornalista, vive em Lisboa e é um dos filhos do 25 de Abril. Os pais viviam em Paços de Arcos, em Oeiras, e às 5h da manhã do dia 25 de Abril de 1974 foram para o hospital na Baixa de Lisboa.
"Os meus pais foram para a maternidade de madrugada e ainda não se passava nada, mas no Terreiro do Paço viram tanques e muita tropa. O meu pai achou um pouco estranho, mas como havia tropa havia em todo o lado não ligou muito. Nasci no centro de Lisboa e a minha mãe conta que se ouviam os tiros e os rebentamentos", recorda.
Ricardo Conceição brinca e destaca o lado positivo de fazer anos numa data tão emblemática: "Eu esqueço-me dos aniversários de toda a gente mas toda a gente se lembra do meu".
"Desde sempre tive noção da importância do dia. Mas quando era pequeno achava que aquela gente toda na rua era para festejar os meus anos", lembra.
Ricardo Conceição licenciou-se em comunicação social. Esteve 20 anos na Renascença e foi um dos fundadores da Rádio Observador, onde trabalha desde 2019. Sente que por ter nascido no dia da Revolução dos Cravos acabou por lhe influenciar a vida pessoal e profissional. "Não faço ideia sequer do que é trabalhar com censura e agradeço ao 25 de Abril, o facto de poder exercer jornalismo em liberdade", afirma.
Marta Brito: "A minha mãe ficou ansiosa e entrou em trabalho de parto"
Nasceu em Lisboa, é professora de físico-química, é casada e tem oito filhos educados na base da liberdade. Marta Brito nasceu a 25 de Abril de 1974 mas conta que a data do parto estava prevista só para maio.
"Era para nascer no início de maio mas uma vizinha cujo marido era polícia foi avisar a minha mãe que estava a acontecer alguma coisa na cidade e ela ficou tão ansiosa que entrou em trabalho de parto. Foi uma aventura chegar ao hospital porque as estradas estavam cortadas", conta.
Marta Brito sempre achou graça a ter nascido no Dia da Liberdade, motivo pelo qual garante sentir orgulho. No entanto, a professora recorda que em criança "nunca havia desenhos animados na televisão" no dia de anos, porque nesse dia só davam "as comemorações da Revolução". Conta também que os filhos, às vezes, têm dificuldade em lembrar-se quando é que o pai faz anos, mas nunca se esquecem da data da mãe.
Marta diz ainda que sempre que teve de dar a data de nascimento em repartições públicas, as pessoas reagiam sempre com surpresa. "As pessoas acham imensa graça e metem-se comigo", revela.
Para assinalar os 50 anos, está a programar uma viagem em família. Não sabe para onde mas pensa num cruzeiro.
Joel Salvador: "Os militares só deixavam passar ambulâncias"
Joel Salvador nasceu às 18 horas do dia 25 de Abril de 1974, na Clínica de São Gabriel, em Arroios, Lisboa, mesmo no auge dos acontecimentos.
"Foi muito complicado chegar à maternidade porque as ruas estavam cortadas ao trânsito. Os militares só deixavam passar as ambulâncias. Então, os meus pais tiveram de arranjar uma ambulância dos bombeiros. Quando a minha mãe chegou ao hospital também foi complicado porque não havia equipa médica", conta.
"Nasci de cesariana e a minha mãe passou muito mal com a anestesia. Quando estava a despertar, ela não sabia o que tinha acontecido e o quarto estava cheio de cravos. Só que na altura não se levavam cravos a quem nascia e a minha mãe estava muito confusa", lembra.
Joel Salvador tem um passado ligado ao mundo da música. Estudou na Academia de Música de Santa Cecília, em Lisboa, e a guitarra tornou-se uma paixão. Gravou oito CD e há 16 anos decidiu mudar de vida. Foi para a China e tirou Medicina. Acredita que a data de nascimento influenciou a sua vida. "Sou uma pessoa que tem quebrado algumas barreiras e isso sempre esteve associado ao facto de ser um bocadinho revolucionário. Não sei se fui eu que influenciei o dia ou o dia que me influenciou a mim", revela.
Sandra Pereira: "Tudo o que eu fiz ao nível político é graças ao 25 de Abril"
Licenciada em Direito, Sandra nasceu em Lisboa a 23 de junho de 1974, dois meses após o dia da Revolução dos Cravos. Tem uma vida ligada à política e diz que o bichinho pelas questões políticas começou desde muito cedo, porque sempre acompanhou os pais nos comícios.
"Acho que fui muito influenciada pelos meus pais. Sigo a politica desde muito nova. Lembro-me de ter seis anos e ver a notícia da morte do Sá Carneiro na televisão em 1980. Lembro-me do funeral. Fomos todos para a rua e lembro-me de chorar. O Sá Carneiro foi uma pessoa que deu um bocado de esperança e assegurou a continuidade da liberdade", recorda.
Com a política muito presente na sua vida desde muito nova, Sandra Pereira lembra que antigamente as pessoas saíam à rua com entusiasmo.
"O meu pai conta que no 1 de Maio a seguir ao 25 de Abril, as pessoas saíram todas à rua. Foram tempos muito marcantes. Eu fui crescendo e fui tendo consciência disso", refere.
"Tudo o que eu fiz ao nível político é graças ao 25 de Abril e por ter nascido em liberdade. Fui candidata ao poder local, fui deputada, posso votar. Acabo por ser um rosto do 25 de Abril", afirma.
"Desde cedo que intervim publicamente, já fui candidata à Câmara Municipal de Odivelas, já fui vereadora. Tenho a política como uma forma de intervenção social, nobre e ao serviço das pessoas. A política é a arte do bem comum", acrescenta.
Padre António Figueira: "A minha mãe regressou a Portugal após a Revolução"
O padre António Figueira é filho de portugueses, mas nasceu na Venezuela em fevereiro de 1974. Os pais, naturais da Madeira, emigraram para a Venezuela onde havia uma grande comunidade madeirense em busca de uma vida melhor.
No entanto, o pai foi assassinado a 24 de dezembro de 1973, dois meses antes de António Figueira nascer. A mãe que ficou viúva e sozinha acabou por regressar a Portugal após o 25 de Abril.
"Os meus pais emigraram para a Venezuela porque havia muita fome e miséria. A minha mãe viveu as duas realidades: o antes e o depois do 25 de Abril. Ela quando regressou à Madeira já se tinha dado a Revolução. Sempre ouvi histórias de muita pobreza, não havia água potável nem eletricidade. Por exemplo, só se comia determinados alimentos como manteiga e queijo no Natal", conta.
"Após o 25 de Abril, na Madeira também houve uma grande mudança, a nível da rede viária e de outras infraestruturas", lembra.
António Figueira estudou em Coimbra, Lisboa e Roma. Foi ordenado padre em 1998 quando tinha 24 anos.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.