Os ficheiros que fazem tremer Donald Trump
Presidente dos EUA prometeu na campanha de 2024 que ia divulgar “toda a verdade”.
“Não, não.” Esta foi a resposta de Donald Trump quando, a 15 de julho do ano passado, foi questionado se o seu nome figurava nos ficheiros do caso Epstein. Sabe-se agora que o Presidente dos EUA mentiu. Aparece muitas vezes nos emails, cartas e outros ficheiros tornados públicos até agora. E esses, segundo a oposição democrata, são apenas a ponta do icebergue. Haverá muitos mais enterrados nos cofres e servidores informáticos do Departamento de Justiça. Trump prometeu na campanha de 2024 revelar toda a verdade sobre o caso Epstein, incluindo a alegada lista de clientes ricos e famosos a quem o falecido bilionário fornecia raparigas menores para serem abusadas.
Um mês após tomar posse, a sua procuradora-geral, Pam Bondi, anunciou que tinha a lista “na secretária”. Semanas depois, garantia que a lista nunca existiu. A partir de então, Trump passou a alegar que os ficheiros não passavam de um “embuste democrata”. A súbita reviravolta deixou os apoiantes mais acérrimos em estado de choque e abriu uma cisão no movimento MAGA, com figuras proeminentes a virarem-se contra o Presidente e a juntarem-se aos democratas para exigirem a publicação de todos os documentos. Encurralado, Trump acabou por ceder e dar ordens para a divulgação dos ficheiros, que foram sendo publicados a conta-gotas, muito censurados e com omissões importantes, o que agravou a crise. Agora, após a divulgação de mais de 3 milhões de novos documentos, o Presidente disse que está na hora de a América “seguir em frente”. Não vai acontecer.
Amigo de predador e acusado de violação
O nome Donald Trump é um dos mais mencionados nos 3,5 milhões de documentos sobre Jeffrey Epstein recentemente divulgados. Embora algumas das referências sejam inofensivas, outras incluem alegações de agressão sexual não verificadas contra o Presidente dos EUA, compiladas por agentes do FBI no ano passado. Numa delas, Trump é acusado de abusar sexualmente de uma adolescente de 13 ou 14 anos, em Nova Jérsia. Ele terá tentado forçar a jovem a fazer-lhe sexo oral, mas ela terá resistido, mordendo-lhe o pénis, segundo a denúncia feita por uma amiga da alegada vítima. Não é especificado se o caso teve continuidade. Os ficheiros revelam outras acusações não confirmadas contra o Presidente, como a de uma mulher que afirma ter sido vítima de tráfico sexual no seu campo de golfe, nos anos 90. O FBI também ouviu, em 2021, uma das vítimas de Epstein, que diz ter sido “apresentada” a Trump por Ghislaine Maxwell (braço-direito de Epstein) numa festa em Nova Iorque. No seu depoimento, a mulher revela que os dois conversaram durante 20 minutos e que o Presidente a convidou para visitar a sua residência de Mar-a-Lago, onde ela fez “um tour com Trump na presença de Epstein e Maxwell”. As anotações da entrevista mostram que a mulher, na altura com 22 anos, não acusa Trump de qualquer irregularidade, mas descreve Maxwell como uma pessoa “extremamente perigosa”, que até lhe deu indicações sobre o que vestir no encontro.
Um email incluído na divulgação de documentos revela que Epstein ponderou entrar em contacto com Trump em 2011 — anos depois de o Presidente afirmar que os dois se tinham desentendido – para falar sobre Virginia Giuffre, que acusava o príncipe André de abuso sexual. Giuffre trabalhava no spa de Mar-a-Lago quando foi recrutada por Maxwell para fazer ‘massagens’ a Epstein. Trump chegou a afirmar que este estava proibido de entrar no seu resort por ter ‘roubado’ Giuffre e outras mulheres. Os recentes ficheiros também mostram que uma mulher chamada Melania trocou emails amigáveis com Epstein, em 2002, em que é mencionada uma viagem a Palm Beach, e ligam, pela primeira vez, pessoas próximas de Trump a Epstein. Um deles é Howard Lutnick, secretário do Comércio e amigo de longa data do Presidente, que organizou uma visita à ‘ilha dos pedófilos’, nas Caraíbas, com a família. Embora os emails sugiram que os dois se encontraram, Lutnick disse que nunca conheceu Epstein. Também Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump, trocou correspondência com o predador sexual.
Ficheiros: milhares ainda por divulgar
O deputado democrata Ro Khanna sugeriu que haverá uma pressão para que mais documentos sejam divulgados. “O Departamento de Justiça identificou mais de 6 milhões de páginas potencialmente relevantes, mas só divulgou 3,5 milhões.”
Warsh: da ilha para a reserva federal
Kevin Warsh, a nova escolha de Trump para liderar a Reserva Federal, é outro dos envolvidos no caso Epstein. Ele e a mulher, Jane Lauder, surgem numa lista intitulada ‘Natal de St. Barth 2010’, entre outros convidados para a ilha de Jeffrey Epstein.
'Melania': diretor em fotos suspeitas
Brett Ratner, realizador do documentário ‘Melania’, sobre a primeira-dama Melania Trump, que foi acusado por várias atrizes de assédio sexual, disse que não conhecia Epstein mas surge em fotos ao lado dele e de raparigas não identificadas.
O judeu que foi professor antes de gerir fortunas
Jeffrey Edward Epstein nasceu em Nova Iorque, a 20 de janeiro de 1953, e cresceu na comunidade de Sea Gate, em Coney Island. Filho de judeus – a mãe era auxiliar numa escola e o pai jardineiro –, tinha um irmão mais novo, Mark, tocava piano e era excelente aluno. Segundo o livro ‘Filthy Rich’, de James Patterson, estudou na Universidade de Nova Iorque, mas nunca se formou. O primeiro emprego foi como professor de Física e Matemática na elitista Dalton School. Um dos seus alunos era o filho de Ace Greenberg, presidente do banco de investimentos Bear Stearns, que o convidou para ir trabalhar para ele. Em quatro anos, Epstein tornou-se sócio da empresa e, em 1982, criou a J. Epstein and Co., tornando-se amigo e gerindo o dinheiro de celebridades, artistas e políticos, ao mesmo tempo que liderava uma rede de pedofilia. Em 2019 foi preso. Acabou por aparecer morto na cela. Tinha 66 anos.
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