A divulgação de novas ligações do predador sexual de menores encontrado morto na prisão em 2019 atinge famosos de todo o mundo.
A divulgação de novas ligações do predador sexual de menores encontrado morto na prisão em 2019 atinge famosos de todo o mundo.
A divulgação, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de novos documentos relacionados com o agressor sexual Jeffrey Epstein, falecido em agosto de 2019, provocou novas ondas de choque no mundo da política, das artes, das empresas e do desporto. Entre os nomes citados, que seriam próximos do homem condenado por crimes sexuais contra menores, e apontado como o líder de uma rede de prostituição de menores que teria famosos e poderosos como clientes, está o ex-ministro britânico Peter Mandelson, que perante as novas revelações foi forçado a renunciar ao cargo no Partido Trabalhista. Mandelson, de 72 anos, já tinha sido afastado, no ano passado, da posição de embaixador em Washington pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, após ser conhecida a correspondência que mantinha com Epstein, a quem se referia como “o melhor amigo”. Os novos documentos mostram que o antigo ‘homem-forte’ dos gabinetes dos primeiros-ministros Tony Blair e Gordon Brown trocou vários emails com o multimilionário norte-americano, já depois de este ter sido condenado por crimes sexuais, em 2008.
Num desses diálogos é sugerido que Peter Mandelson tentou alterar uma proposta do Governo britânico sobre o imposto que taxava em 50% os bónus acima de 25 mil libras (28 mil euros) dos banqueiros, numa época em que era secretário de Estado do então ministro das Finanças, Gordon Brown.
Os novos documentos, publicados no passado dia 30 – cerca de 3,5 milhões de páginas, 180 mil imagens e dois mil vídeos –, revelam ainda que Epstein, entre 2003 e 2004, pagou cerca de 75 mil dólares (cerca de 63 mil euros) a Mandelson, através de três transferências para as contas do brasileiro Reinaldo Ávila da Silva, com quem o ex-ministro britânico casou em 2023. Na carta de demissão enviada ao ‘Labour’, cujo conteúdo a BBC divulgou, Mandelson admite sentir-se “arrependido e triste” por ser “novamente associado” ao predador sexual, e lamenta “ter conhecido e ter-se relacionado com Epstein”.
Os ‘ficheiros Epstein’, como ficaram conhecidos, detalham as relações que o gestor de fortunas Jeffrey Epstein mantinha com figuras poderosas, celebridades e figuras públicas globais.
Epstein era amigo pessoal de Donald Trump desde finais da década de 80, convivendo com o atual Presidente norte-americano – que chegou a elogiá-lo publicamente –, durante quase duas décadas, nos círculos sociais abastados de Nova Iorque e da Flórida. Hoje, Trump insiste em desmentir esta relação.
O Presidente norte-americano resistiu à publicação dos documentos, insistindo que tudo se trata de “uma farsa” fabricada pela esquerda e pelo próprio Epstein. Mas, pressionado por setores conservadores, acabaria por ceder; a lei da transparência aprovada pelo Congresso (com o apoio dos Republicanos) exigiu a divulgação integral dos ‘ficheiros’, o que, segundo o Departamento de Justiça dos EUA, foi agora totalmente cumprido.
O caso continua a ser uma pedra no sapato de Trump: o Presidente norte-americano é citado centenas de vezes nos ‘ficheiros Epstein’, chegando a alegar que a relação com o predador tinha “azedado” há muitos anos e que nunca teve conhecimento dos crimes sexuais cometidos pelo ex-amigo. Trump revogou, de facto, a filiação de Epstein no clube Mar-a-Lago ainda em 2007, antes da condenação do predador sexual em 2008.
Nos ‘ficheiros Epstein’, surge a informação de denúncias no FBI contra Donald Trump por abusos sexuais, embora as autoridades sublinhem não existirem factos que as sustentem. Em 1995, um motorista de limusinas da região de Dallas afirmou ter ouvido um diálogo de Trump ao telefone “muito perturbador”, relacionado com “abusos de uma rapariga”. Em 2019, uma mulher relatou que uma amiga teria sido “forçada a praticar sexo oral [a Trump] há aproximadamente 25 anos, em Nova Jérsia”. A vítima, relatou a denunciante, teria à época “13 ou 14 anos”.
O Departamento de Justiça dos EUA, liderado pela procuradora-geral Pam Bodi, fiel aliada de Donald Trump, veio rapidamente a público alertar que “alguns dos documentos [dos ‘ficheiros Epstein’] contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o Presidente”. A Casa Branca também reagiu, considerando que “as alegações são infundadas e falsas”, e dizendo que estas “já teriam sido usadas como arma” contra Trump caso tivessem “um mínimo de credibilidade”.
O Presidente do Estados Unidos tenta agora pôr um ponto final na polémica: “Acho que está na hora de o país seguir em frente com outra coisa, agora que nada foi revelado sobre mim, exceto que é uma teoria da conspiração contra mim”, afirmou.
A maior parte dos ficheiros de Epstein serão pornografia, de acordo com as autoridades. Entre os milhões de páginas, ou 300 gigabytes de dados, encontram-se, porém, diversas fotografias e vídeos de famosos que frequentavam o círculo íntimo de Jeffrey Epstein e da britânica Ghislaine Maxwell.
O primeiro lote de imagens, publicado em dezembro passado, expôs sobretudo o ex-Presidente Bill Clinton, que aparecia em pelo menos seis fotografias, numa das quais em pose relaxada, no interior de um jacúzi, acompanhado por alguém a quem o rosto foi tapado por uma barra preta. A divulgação destas fotografias, aparentemente datadas da década de 90, mereceram críticas das vítimas de Epstein e dos Democratas, ao serem interpretadas como uma forma de divulgação “seletiva”, com o objetivo de “encobrir” o envolvimento de Trump na polémica e, simultaneamente, fragilizar os opositores políticos do Presidente.
As barras pretas que tapam as alegadas vítimas e supostas informações sensíveis têm sido, aliás, alvo de críticas, pois há quem considere que esta se tornou numa forma de proteger o atual Presidente dos EUA. O recente desaparecimento de 16 fotografias e documentos da base de dados do Departamento de Justiça, incluindo uma imagem de Trump rodeado de mulheres jovens, veio adensar as dúvidas. Todd Blanche, procurador-geral adjunto, e ex-advogado de Trump, justificou o ‘apagão’ como forma de proteger a identidade de pessoas anónimas nos registos.
Ainda assim, Donald Trump não escapou às lentes curiosas, surgindo em várias ocasiões ao lado de Epstein e acompanhado por mulheres desconhecidas, embora, em nenhum dos casos, se possa aferir, para já, terem existido ilícitos.
Pressionado pelos Republicanos, o casal Bill e Hillary Clinton terá de testemunhar no comité do Congresso que conduz o inquérito ao caso Epstein.
A agenda de amizades e contactos do multimilionário era longa. Além do antigo e do atual residente da Casa Branca, há ainda muitas outras celebridades que aparecem nas fotos e documentos do indesejado e nefasto arquivo: os músicos Mick Jagger, Michael Jackson e Diana Ross; o empresário Bill Gates, fundador da Microsoft, mencionado por ter traído a então mulher e contraído uma doença sexualmente transmissível (alegações que o próprio já classificou como “absurdas”); o príncipe André Mountbatten-Windsor, já destituído dos títulos reais pelo irmão, o Rei Carlos III, e também a ex-mulher Sarah Ferguson, que se chega a referir a Epstein como “o irmão que sempre desejou”. A princesa Mette-Marit, herdeira do trono da Noruega; o atual secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick; o filósofo Noam Chomsky, que terá feito a ‘ponte’ entre Epstein e o Presidente do Brasil, Lula da Silva, quando este estava na prisão (e descrito pelos intervenientes como “o mais famoso preso político do mundo”); Elon Musk, que terá questionado Epstein sobre quando seria a “festa mais selvagem” na sua ilha privada; Steve Bannon, o ideólogo da direita radical norte-americana, que terá conversado com o agressor sexual sobre Jair Bolsonaro; o empresário britânico Richard Branson; Casey Wasserman, presidente do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 2028; o antigo ministro da Cultura francês, Jack Lang e a filha; o realizador Woody Allen e a mulher, Soon-Yi Previn, que frequentavam a residência de Epstein em Nova Iorque; e o dono da equipa de futebol americano New York Giants, Steve Tisch estão na lista, entre muitos outros.
Portugal também é referido nos ‘ficheiros’. O ‘Lolita Express’, como Epstein batizou o seu avião privado – numa referência ao clássico de Nabokov que conta a história de um homem de meia idade que se apaixona por uma rapariga de 12 anos –, pousou duas vezes em Santa Maria, nos Açores, em 2002 e 2003. A bordo estariam personalidades como Bill Clinton e o ator Kevin Spacey.
A segunda referência a Portugal envolve o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates, Luís Amado, que aparece numa lista de 15 personalidades políticas estrangeiras cujo remetente (desconhecido) sugere a Epstein contactar. Luís Amado já disse “nunca ter visto” Epstein. Existe ainda outro documento que menciona a família Espírito Santo, mas as barras pretas impedem que o conteúdo seja conhecido.
Caso Epstein
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